sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

horizonte basculante



Assim como só se repara algumas coisas da cidade quando se anda a pé, algumas coisas só se vê do banco do passageiro. Estava sem carro e cansada ontem no final da tarde e peguei um táxi para voltar para casa. Para cortar caminho, o motorista entrou numa rua residencial, pequenina e cheia de casas que liga a av. Faria Lima com a marginal Pinheiros. Numa das esquinas o carro parou e olhei para o lado. Um sobradinho desses normais, tão comuns em São Paulo. Sala em baixo, janela de quarto e janela do banheiro em cima, garagem na frente, grade alta cheia de pontas. Porta com tetrachave. Beiral de telhado com casa de abelha. Uma vez alguém perguntou qual a tipologia de moradia de uma cidade como São Paulo. Embora todo mundo tivesse respondido que eram edifícios de apartamento do centro e Higienópolis, eu e o Zé lembramos de sobradinhos como esse, que passam quase desapercebidos na paisagem, às vezes as centenas corridos nas ruas, as vezes sufocados por prédios enormes mas sempre digníssimos apesar de transparentes nas pinturas bege e iluminações penumbrosas pré-fluorescente-halógena.
Nessa casa da esquininha em questão, reparei na janela do banheiro. E na silhueta do shampoo e do condicionador colocados no parapeito da janela. Nossa. Era possível até identificar a marcas dos produtos e notar que obviamente não eram as mesmas. Eu ri. Lembrei que na minha casa também o shampoo e o condicionador sempre são desparelhados. Alguns meninos reclamam, mas o shampoo sempre acaba antes de condicionador e sou sempre tentada a mudar de marca na compra seguinte. Ainda mais eu, que sou confessadamente uma mulher não-fiel ao shampoo. O carro andou um pouco e passei a reparar nas inúmeras janelas de banheiros, todas iguais, seguidas e invisíveis, todas sempre com as silhuetas de shampoo. Quase todo banheiro tem saboneteira e porta shampoo, mas é irresistível não colocar na janela, pensei num primeiro instante. Mas não sei se foi porque era fim da tarde, se porque é quase natal-fim-de-mundo ou se foi porque eu estava sensível, mas perceber as casas corridas com suas janelas de banheiro e seus shampoos me pareceu melancólico, mas extremamente confortador. As entranhas escondidas saindo pelas feridinhas. Sim, existem ainda shampoos em janelas. Coisas no lugar errado. Sim, é possível saber como os outros lavam a cabeça. O lado de dentro estampado do lado de fora, o que, numa cidade como São Paulo quase não existe mais. Talvez uma micro poesia, cabelos limpos e banhos explícitos. Era vida escondida que se colocava assustadoramente à mostra naquelas pequenas janelinhas. Tudo tão rápido, tudo tão invisível. A paisagem de São Paulo, nosso horizonte basculante.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

a caixa preta

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Depois de uma das dezenas de comemorações de final de ano (já repararam a quantidade de turmas que temos nessa época pós-orkut?), pedi a um amigo se ele poderia me enviar as fotos que ele tinha tirado na noite anterior com o telefone. Ele se assustou. “Ixi, as fotos?”, ele disse. “Ainda não baixei. Tou com medo de ver o que tem lá. A caixa preta daquela noite pode ser muuiitiimpressionante, ô franka”.
Falando nisso, ontem foi aniversário do a. . E quer saber? Eu tou morrendo de medo da caixa preta de ontem... E se ele posta tudo no carne crua sem tarja nenhuma?

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

a família real



Ontem. Festa de formatura do meu filho mais velho, o Chico. Ele avisa que teremos uma missa e uma cerimônia no teatro da escola.
- Olha mãe, mas é melhor a gente chegar cedo. Vai estar muito cheio, a missa demora, a cerimônia demora. Se você bobear terá que ficar em pé, como das outras vezes.
Nem pestanejei e obedeci direitinho. Sempre sou atrasada, mas desta vez não. Lá fomos nós quarenta e cinco minutos antes com a incumbência de guardar um lugar para o Zé, que trabalha no centro e ia demorar para chegar.
O teatro da escola é grande. Na parte da frente, diante do palco, existiam seis fileiras planas destinadas aos formandos, explicou um lanterninha. Depois, ainda numa parte plana do teatro, ficavam dez fileiras de cadeiras (desconfortáveis, duras e sem braço) que poderiam ser usadas pelos pais e convidados. Porém ali, se você tiver o azar de sentar atrás de um gigante cabeçudo, babau, não veria nada. Logo em seguida existe um corredor e começa uma segunda parte do teatro, essa bem inclinada, com cadeiras ótimas e que, por estarem em aclive, tem uma visão excelente do palco. Já existiam algumas pessoas sentadas nesse local, onde, obviamente as cadeiras do centro são melhores ainda. Porém existia um pormenor que acho só eu pensei. Nessas festas de escola a gente encontra muita gente, mães e pais que sempre tagarelam muito, ainda mais quando o filho se forma. E como conversar de longe é impossível, se você estiver lá no meião tem que sair a toda hora para falar com um ou com outro, e para não ter a cadeira roubada teria que fazer aquela coisa chata de colocar uma bolsa, um casaco, um sapato, sei lá.
Porém...
Porém, ahá! Na primeira fileira dessa ala de cadeiras não existia esse problema. A primeira fileira estava diante do corredor de entrada, é dois degraus mais alta e separada dele por um guarda corpo. Ali, apoiado no guarda corpo, pode-se conversar com qualquer um sen-ta-do. E, para melhorar mais ainda, notei ainda que dali poderíamos controlar as duas entradas e saídas, o que é uma delícia, além comprar balinhas da moça das balinhas sem precisar se abanar para ela. Maravilha. Sentamo-nos, eu, a Nani e o João e guardei um lugar para o Zé ao meu lado. Confortabilíssimos. Tipo a família real. Demais.
O Zé chegou.
- Lugar bom, hein? Um verdadeiro camarote.
Eu ri.
- Desta vez, Zé, nós ganhamos de todos. Estamos no melhor lugar desse teatro, e logo a gente, que sempre fica em pé por causa dos nossos atrasos! – eu disse, explicando para ele as maravilhas daquele lugar – Hehehe, olha para toda essa gente atrasada. Desta vez mudamos de time. Somos os vencedores dessa formatura.
Foi quando começou a acontecer.
A coisa.
Primeiro foi um cara que o Zé conhecia. Chegou ali no nosso camarote, conversou, conversou.
- Acho que ele notou que estou no melhor lugar do teatro, Lu, - falou o Zé, emproado - Vou olhar onde ele está sentado, coitado.
Apareceram mais um, dois, três conhecidos, e a gente naquela exibição, até que surgiu um casal amigo nosso, simpaticíssimo. Nessa hora o teatro já estava lotadaço. O cara, de terno e gravata, conversa um pouco, olha ao redor e diz que terá que sentar na escadinha, no chão. Engolimos em seco. No chão? Olhei para a mulher dele, de calça branca. Puxa, coitada, pensei. Ficamos estáticos.
- Eu deveria dar meu lugar para ela – cochichou o Zé, envergonhado.
- Pô – retruquei, brava – Cheguei tão antes, Zé. Nem pensar.
Logo em seguida, uma mãe de uma amiga da minha filha. Muito mais chique e empetecada que a da calça branca. Coitada. O Zé hesitou, segurei com força. Ele que não inventasse de sair dali. Foi quando surgiu um outro pai ali na nossa frente – aliás, todo mundo passava por ali, aquele lugar era quase presidencial. Parou, conversou, e disse, apontando uma senhorinha de uns 100 anos:
- Bem, me desculpem que eu tenho que achar uma cadeirinha para a mamãe... olha ela ali...
Ah, não, aquilo era sacanagem. Pô. Uma senhorinha velhinha daquelas, em pé? Ai que raiva que me deu. O Zé suava frio e eu apertei o braço dele com força. Não, não e não!
Apelei.
- Zé, fecha os olhos! O Chico me pediu para chegar antes para a gente ficar aqui. Hoje é o dia dele, se ele te vê no chão, na escadinha, ele vai ficar triste. Vai te achar um pai humilhante, não faça isso.
- Lu, mas isso aqui é um pesadelo! Eu estou me sentindo muito culpado! Eu olho ao redor e só vejo velhinhas e velhinhos em pé, sofrendo, eu olho e vejo pessoas se espremendo nas escadinhas, pessoas muito mais chiques que eu, não estou à vontade de modo algum! Que idéia a sua de pegar esse lugar horrível!
- Sério?
- Mil vezes a paz na escadinha.
Fazer o que?
- Tá... Da próxima vez a gente senta no chão, como sempre. E eu juro que não venho de calça branca pra não deixar ninguém culpado.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

mata a cobra e mostra o vidro


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- Dona Luiça, a senhora sabia que uma cobra picou minha mulher? – me disse o caseiro de uma casa em Angra.
- Nossa, jura?
- Ela ficou internada duas semanas. E está grávida.
- Afe! E está bem agora?
- Está, claro. Mas eu peguei a desgraçada. Ah, se peguei. A senhora espera que eu vou trazer ela aqui para a senhora ver.
- Ela quem? A sua esposa?
- Não, a desgraçada da cobra.
- Viva?
- Morta, dona Luiça. Era o mínimo que eu poderia fazer pela minha esposa. Achar a desgraçada e matar.
Esperei.
- Olha aqui - e ele mostrou um vidro com uma cobra socada dentro.
Nossa, será que o Zé faria isso por mim?

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

um poema - um presente

Ontem conheci uma blogueira poeta, a Ana Carla, do 'livro de poesia' que veio visitar e me mandou esse poema que fez para o 'frankamente...'. Fiquei emocionadíssima. Obrigada, Ana. E você tem razão. A mentira é minha maior verdade.

A mentira é uma verdade

I

O Verdadeiro é inacessível: profundo,
O Aparente é irreal: superfície,
O que é verdade e o que é a mentira?
Se tudo não passa de um jogo?

II

Propriamente
Própria mente
Mente
Ana Carla Steffen

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Evangelista C Lucas

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Ontem, no final de uma viagem-martírio-suplício-insuportável a trabalho para Angra dos Reis, onde logo de manhãzinha pisei numa manga podre que espirrou na minha calça, no meu tênis, nas minhas meias e que me fez passar o dia emporcalhada, onde peguei um grande congestionamento na volta com chuva, onde tomei chuva e suei muito, passamos de carro por Aparecida e resolvemos parar. Sei lá, pra se benzer, ora. Acho inacreditável Aparecida do Norte. Uma Basílica absurdamente gigantesca para uma santinha absurdamente pequenina, gente. Basilicooona, santiiinha... Não é demais perceber essa diferença de escala? Juro que isso me comove e me faz acreditar na fé que temos que ter nas coisas pequenas.
Mas o que eu queria falar é outra coisa. Achei muito engraçado perceber que o estacionamento de Aparecida ao lado da Basilicona (que as oito e meia da noite estava às moscas) usa o nome dos Santos para localizar os carros. Ora, óbvio que seria assim, as pessoas em geral sempre tem soluções simples para as coisas, nós que complicamos. Mas misturar religiosidade com vaga de estacionamento a aquela hora da noite, para uma mulher toda suja de manga e lama, me pareceu absurdo e perturbador.
Paramos numa das vagas Evangelista C Lucas.
Pode uma coisa dessas?

para os Deuses africanos



Aniversário do Joãozinho, 13 anos. Como a vida dele se resume em jogar basquete e ouvir música rapper, resolvemos ir mais fundo nas origens negras africanas e dar de presente uma legítima roupa africana.
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"A roupa não nasce para proteger o corpo, mas como uma forma de beleza, não só para aparecer ao outro, mas para os deuses”.
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Porém, óbvio que não nos livramos com isso de dar os presentes solicitados: uma fita de vídeo game, um DVD de baquete e um cd do Ludacris...

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

bobagem t o t a l


Mas vejam que coisa incrível e divertida para um fim de noite: conseguimos equilibrar todas as colherzinhas nas xicarazinhas de café.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

jogo dos sete erros


Adoro revistas antigas. Tenho um monte aqui em casa. Essa era a revista "Planeta" de setembro de 1975, um revista de assuntos de paranormalidade, enigmas, mistérios e ciência que existia lá pelos meados de 1970 e que, na desmontagem da casa de um parente que faleceu eu peguei uns exemplares. As reportagens são todas absurdas, principalmente as que fazem previsões para o futuro, mas o que me impressionou - e que eu coloco aqui como charadinha - foi essa propaganda do Banco do Brasil com uns jovens andando na rua. Gente, não parece que tem alguma coisa... 'errada'? Listei algumas. Quem achar mais, por favor, avise.
1. O moço da frente da direita veste uma camiseta tamanho infantil. Nossa, que esquisito.
2. Ninguém fala ao celular. Todos conversam entre si.
3. Alguns homens usam bolsas enormes. Algumas parecem até de mulher. Os cadernos e pastas tem cores avulsas e desconectadas, e muitos deles são velhos e rasgados.
4. As camisas e camisetas são apertadas e curtas e as calças são altíssimas e pantalonas. Aparentemente acho que ninguém se vestiu para tirar a foto da propaganda.
5. Um rapaz fuma. Impossível hoje em dia alguém fumar numa propaganda de banco.
6. Não existe nenhuma propaganda nem marca nas roupas. Reparem a limpeza total da imagem. Nada de marcas ou logotipos.
7. Ninguém é modelo-manequim e as pessoas não malham, tem corpos normais.
Que mais?

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

seca e afogada

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A chuva nos pegou no meio da rua e tivemos que sair correndo até achar uma marquise, eu, o Zé e os meninos. Estávamos saindo do clube, o carro estava muito longe e aquela aguaceira parecia não ter fim tão cedo. Os meus filhos, todos da geração vídeo-game, viram aquilo como um jogo e calcularam que teríamos cinco ‘fases’ até chegar ao carro. Um prédio, uma marquise, uma entrada de escolinha, uma banca de jornais e um ponto de taxi. “E provavelmente nenhum ‘bônus’ para ganhar um 'turbo'”, emendou o João, rindo.
Quando estávamos no segundo pitistopi, olhei para a calçada e tive um choque. Diante de mim estava uma enorme árvore, com um tronco super bonito, mas completamente afogada pela calçada. Gente, olha a foto. Pode uma coisa dessas? A pessoa que fez essa calçada – uma calçada bem cara, convenhamos, de granito, com um desenho complicado e até com estrelas – colocou o piso até o talo, até o limite certinho do tronco. E mais – os recortes na pedra – que não é nada fácil de fazer – foram feitos um a um, especialmente para o local. Uma colocação realmente primorosa, mas gente... como essa árvore respira? E céus, como ela toma... água? Nunca me preocupei com a sobrevivência de uma árvore, pra falar a verdade. Mas ver esse sufocamento tão explícito num dia de toró realmente me deixou aflita. Tadinha.
Que acham? Vou até lá à noite e... picaréto? Será que assim eu ganho um bônus turbo?

terça-feira, 28 de novembro de 2006

entranhas


No final de semana passei ao lado de um condomínio aqui perto de casa. Uma rua tranqüila, um condomínio caríssimo e neoclássico cheio de jardins, piscina e fitnesscenters da vida. Novinho.
Logo ao lado, estragando a maravilha monumental da entrada do lugar, percebo uma montanha de lixo. Éca. Um lixo muito, mas muito fedido, atrapalhando a calçada e cheirando mal. Aliás, era uma quantidade descomunal para aquela rua pacata de um bairro cheio de casas.
Óbvio que numa primeira olhada aquilo incomodou. Nossa, que nojo, pensei. Como um prédio tão arrumadinho – não vou entrar no mérito de discutir o tal de um estilo arquitetônico, prefiro apenas comentar o 'padrão' da construção, que é bastante razoável – poderia deixar aquela montanha nojenta na calçada, na frente do prédio, para qualquer pessoa olhar? Nojento, pensei. É o mesmo que você sair de casa de terno, gravata, perfume, gel no cabelo e carregando um papel higiênico imundo. Parei e tirei essa foto. Ora, o condomínio não deveria se preocupar em esconder aquilo? E aquela quantidade que sequer cabia na cestinha apropriada?
A questão é que lixo todos geramos, mas vemos cada vez menos. Lixo, atualmente é uma coisa proibida, escondida. Clandestina. Secretíssima. Shiuuuu.
Mas talvez eu, que já sou meio nojenta, tenha ficado mais incomodada com a quantidade do que com o fato encontrar lixo na rua. Ora, lixo na rua sempre existe, principamente nos dias que os lixeiros passam. Mas vou além. Aquela quantidade mostrava, escancaradamente, o que começa a acontecer com um bairro que se verticaliza. Até então eu andava na rua e passava por cestinhas com um, dois sacos de lixo fedido. Lixos familiares, digamos. Mas prédios tem muito lixo porque tem muitas pessoas morando empilhadas. E para mim pessoas que moram em prédios neoclássicos - não me perguntem porque - consomem muito mais, assim, óbvio que nesse caso é natural termos essa montanha de lixo na calçada.
Acho engraçado lembrar que o incômodo do lixo é uma sensação criada pela sociedade e pela educação. Sempre recordo que quando era moça, ver um cinzeiro sujo não era algo asqueroso. Aliás, me perdoem, mas quando eu era jovem e ainda fumava, eu dormia ao lado de cinzeiros abalroados de bitucas e não dava a mínima. Éca. Mas acho que incomodar-se com a sujeira e o cheiro não é algo que nasce com o ser humano, apesar da tolerância com o lixo na nossa sociedade ter diminuído muito.
Percebo também – e por favor, não concluo – que eu ensino o tempo todo para meus filhos essa intolerância. Diversas vezes chego na sala e dou berros horríveis. "Gente, que nojo!", eu digo quando vejo aquela montanha de papel de bis, pacotes de biscoitos e migalhas de pão, misturados com meias, sapatos e crianças assistindo tv. Nós, mães, aprendemos que faz parte da educação de uma criança aprender que ficar largada no meio da sala com lixo e sapato com sujeira de rua é uma grande porcaria. Mães devem berrar, obviamente, ao se depararem com cenas como essa. Provavelmente isso já deve ter sido permitido um dia, assim como era admitido dormir ao lado do cinzeiro bituquento.
Tudo isso para dizer que eu acho que o lixo na rua tem seus dias contados. Óbvio que do jeito que as coisas vão daqui a pouco lembraremos com muito, mas muito nojo de uma cena como essa. Óbvio que daqui a uns anos daremos berros histéricos ao vermos cenas assim, vocês tem dúvida? Sei lá se os edifícios e casas terão processadores informatizados de lixo ou apenas depósitos trancados a sete chaves, mas tá na cara que isso é completamente incondizente com a assepssia da vida moderna.
Aliás, duvido até que no futuro a gente use banheiros. Céus, como faremos?

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

carpe diem, deja vu e feliz natal

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Estávamos indo para o lançamento do livro “Soltando o Verbo”, na semana passada, eu e minha filha Nana.
- Você vai dar autógrafos, mãe?
- Não sei, filha, não tinha pensado nisso. O livro não é só meu, é de vinte pessoas. Mas, se alguém quiser que eu autografe eu posso fazer isso, claro.
- E você vai escrever o quê no autógrafo?
- Sei lá. Também não tinha pensado nisso.
- Pensa antes para não ficar com cara de boba na hora, mãe.
- Deixa ver... “fulano, espero que esse livro...”. Não, bobo. “fulano, um grande abraço da...”. Não, bobíssimo. Nossa, é difícil.
- Mãe, tem que escrever uma coisa bonita, tipo uma frase, uma expressão. É dedicatória. Pensa uma e depois na hora você repete.
- Frase bonita, Nana? Assim, tipo uma frase pronta?
- É. Assim como... como... sei lá, como “carpe diem”. Estudei essa expressão para a minha prova de amanhã de literatura. Colha o dia. É legal isso.
- Hã? Acha que eu deveria escrever “carpe diem” para as pessoas, assim, a troco de nada? “Fulano, carpe diem, lúcia". Isso?
- Ué, que é que tem? Ou então escreve um outro termo legal. Como... como "deja vu". Acho lindo “deja vu”, apesar de achar que não tem nada a ver. “Carpe diem” tem, mas “deja vu” não tem a ver...
- Filha, não pode.
- Não? Por que?
- Porque “carpe diem” e “deja vu” não tem nada a ver com o livro e nem com as duas crônicas minhas que estão lá dentro. Se eu for fazer uma dedicatória eu preciso ou falar das crônicas ou “desejar” alguma coisa para a pessoa.
- Então escreve “feliz natal”. Afinal a gente já está em novembro.
- Hã? "Feliz natal"?
- E “próspero ano novo”. Hahaha. Não é pra "desejar"?
- Não sei se “desejar” é a palavra certa.
- Putz, mãe, como você é complicada. E qual é a palavra certa?
- "Dedicar" é mais certo.
- Então escreve: “eu te dedico esse livro”. E pronto.
Achei corretíssimo. Curto e fácil: eu-te-dedico. Assim foram meus autógrafos: “fulano, eu te dedico, beijo, lucia”. Nada de “carpe diem” nem de “deja vu”. Mas para alguns, confesso. Não agüentei e na hora escrevi: “feliz natal”.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

o linguini de minhoca



Ao vivo era pior. Aconteceu num almoço de sábado num restaurante italiano que a gente sempre vai, em Pinheiros. Um lugar super gostoso, com uma comida ótima. Chegamos e o garçon veio com o cardápio. Pedi uma massa recheada de alcachofra, os meninos uma lasanha. O Zé ficou um tempão escolhendo, até que no final se resolveu.
- Quero esse aqui – ele apontou um dos pratos do cardápio para o garçon – esse 'nero-linguini com vôngole'.
Achamos bem ousado o pedido dele, mas ninguém falou nada. O Zé adora comidas com frutos do mar.
Um tempo depois a comida chegou. Acho que nada se comparou ao pânico que assolou a mesa quando chegou o prato do Zé. A família toda ficou estarrecida, mas ninguém abriu a boca. O que era aquilo? Todos olhamos para aquele macarrão preto cheio de perninhas, um verdadeiro linguini de minhoca.
- Pai! Olha! – exclamou um dos meninos quando o garçom se afastou.
- Que coisa nojenta! – falou minha filha - Você pediu isso?
- É brincadeira, né, pai?
Não era. Gente, olhem a foto. Ficamos todos olhando para aquilo sem abrir a boca, principalmente o Zé, que deveria abrir e comer aquela coisa.
- Zé. Cobre de queijo ralado... – sugeri.
- Pai, come de olhos fechados... – falou um dos meninos.
Mas como pai é pai e comida é comida, ele me pediu para tirar uma foto, engoliu em seco e comeu tudo, dizendo que tava uma delícia.
De olhos semi cerrados, claro.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

prazer, Rita

o M., eu, a A. e a M.
Acabei de receber da Marcia essa e mais um monte de fotos de ontem. Adorei. Olhem as autoras de coelhinha (e tarja)! Quem será que fez?
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Lugar lotado, tipo tromba-tromba. Um monte de conhecidos, um monte de amigos, um monte de parentada, tudo vezes vinte - bom, um lançamento de um livro de vinte autores dá para imaginar como é, certo? Era difícil saber quem era convidado, quem era autor, quem era garçon, quem era o que. Ouvi de diversos amigos coisas como:
- O irmão do cunhado do meu sócio é autor também!
- A esposa de um cara que foi meu fornecedor também escreveu!
No meio daquela confusão, tinha o lance da dedicatória. Ora, quem vai num lançamento quer dedicatória do autor. E, mesmo no meio daquela gente demais, daquela falta de concentração demais e daquele tromba tromba, lá vinham os pedidos. Acho super legal dedicar livros. Pensar que aquilo fica pra sempre na estante da casa da pessoa. A tua letra, a tua assinatura.
Foi quando chegou um cara para mim. Um moço que eu nunca vi na vida. Sorrindo.
- Oi. Será que voce poderia autografar meu livro?
Nossa, eu fiquei inchada.Uma pessoa que eu nem conheço pedindo autógrafo. Demais. Ora, pensei, vai ver que é um leitor do 'frankamente...’. Que maravilha. Fui além. Vai ver que ele é um desses leitores misteriosos, que nunca comentam. E se é leitor é, é meu fã. Que máximo. Um fã! Eu sorri para ele e saquei a caneta.
- Claro que posso. Venha aqui nessa mesa. Como você se chama?
Ele falou. 'Da próxima vez precisarei providenciar aqueles papeizinhos com nome', pensei, rindo. Suspirei e me concentrei no que ia escrever para ele. Foi quando, não sei porque, eu parei e olhei no rosto do meu... fã.
- Ei. Posso te fazer uma pergunta?
Não sei porque me deu de perguntar aquilo.
- Pode, claro – ele disse, feliz.
- Quem sou eu?
- Hã? – ele estranhou – Como assim?
Eu insisti.
- Eu. Quem sou eu? O meu nome. Você sabe meu nome?
Gente,que engraçado. Ele abriu um sorrisão, como se fosse óbvio, e respondeu na maior.
- Claro que eu sei. Voce é a Rita.
Olhei no livro. Sim, tinha uma Rita que é autora como eu. Mas ali, naquela hora, eu achei que não deveria desapontá-lo. Sorri, respirei fundo, e, claro, dediquei o livro ao meu não-fã. Uma dedicatória maravilhosa. E embaixo assinei:
'Rita, 22/11/06.'
Fazer o que? Desculpa, Rita. Mas tenho certeza que não fiz você passar feio com teu fã.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

lá vamos nós



E daqui a pouco lá vou eu nesse lançamento desse (1/20) meu livro até agora totalmente virtual. Tenho que fazer aqui uma confissão pública: gente, não sei se esse livro existe mesmo. Acho que é um livro de verdade, mas eu ainda não vi, acho que a capa é azul, mas não tenho certeza não, acho que tem só crônicas, mas eu só li as minhas e as da Márcia. É engraçado, estou meio no escuro nessa história. Mas não estamos sempre no escuro nessas relações virtuais? Não conheço sequer o Nelson, o editor, ao vivo. Não é demais? Não é divertido?
Ah, e o que eu escrevo na dedicatória? Aceito sugestões.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

um livro, duas crônicas e um convite

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É amanhã, dia 22, às sete da noite no bar Santa Zoé o lançamento do livro "Soltando o verbo" onde tenho publicadas 2 crônicas. Aguardo todo mundo por lá. Vai ser muito legal.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

a puxadinha


Ontem, final da tarde eu tomava um café com a minha mãe.
- Mãe, ontem fui num encontro num bar e aconteceu uma coisa horrível com uma conhecida.
- O que foi?
- Uma coisa que morro de medo que aconteça comigo.
- Conta, lúcia.
- Bom, ela estava sentada ao meu lado quando chegaram uns amigos. Ela se levantou para cumprimentar, estava bem ao meu lado mesmo.
- Sim.
- Ela vestia um vestido de um pano bem molinho, levinho, fininho. Quando ela se levantou, o vestido engruvinhou todo atrás e entrou dentro do bumbum dela. E ela não percebeu.
- Ai que horror. Eu entendi. Dá muita vergonha mesmo de ver isso.
- Olhei de novo e lá estava, ela realmente não percebeu. E ela estava em pé e de costas para a mesa toda dando aquele vexame, com o vestido enfiado no bumbum e grudado na bunda. Eu fiquei ali ao lado apavorada com a cena.
- Coitada.
- Bom, olhei para o outro lado e minha amiga também olhava para aquilo. Vimos que os dois amigos da frente também perceberam e até cochicharam, rindo.
- E ai, filha, você puxou?
- Hã?
- Você não puxou o vestido para tirar de dentro do bumbum dela?
- Que mãe? Eu? Puxar o vestido dali?
- Filha! Não acredito que você deixou a moça naquele estado e não fez nada!
- Puxar?
- Uma puxadinha de nada!
- Mãe, eu não ia desenfiar, mãe! Que nojo!
- Filha, mas é uma mulher com problemas, e nesse caso as outras mulheres tem que ajudar. É assim que funciona. Dane-se o nojo, que feio pensar isso.
- Mãe, você é louca! Tirar um vestido de dentro do bumbum de outra mulher em público!
- Filha, não exagera, eu falo de uma puxadinha de nada. E se você não é muito amiga você avisa antes para ela não assustar: ‘fulana, cuidado, seu vestido está enfiado no bumbum’ e depois pimba, dá uma puxadinha rápida.
- Mãe, que absurdo!
- Absurdo é você deixar a moça passar por esse vexame. Como você é fresca, cheia de nojos. E pensar que é minha filha, que eu criei. Uma puxadinha de nada, que custava...

terça-feira, 14 de novembro de 2006

a mulher que estala a calcinha II


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- Há um reparo naquela história - explicou meu amigo que tem medo da mulher que estala a calcinha - Ela não é gorda. Ela é peituda, tem pouca bunda e o estômago um pouco saliente. Mas é bonita e sensual, num sentido assim meio sidney magal, espalhafatoso.
- Ah é? Olha que coisa. Quando você me contou eu a vi daquele modo que descrevi.
- Mas não é. Ela não é gorda.
- Está bem, não costumo fazer isso, mas nesse caso, como a história é sua, quando eu puder eu corrijo. E por falar nisso, como ela vai? Estalando e te assustando muito? Plá, plá, plá?
- Sim, cada vez mais, nem me fale. Mas olha, tenho a impressão que todos lá no escritório tem a mesma sensação que eu, de medo dela, apesar de não saber se todos perceberam que ela estala a calcinha. Eu nunca comentei isso com ninguém.
- Porque você acha isso?– eu perguntei.
- Outro dia eu vi a recepcionista no corredor. A moça ia entrar na sala dela, mas antes de pegar a maçaneta, ela parou, estacou ali diante da porta, respirou fundo e... acredite. Fez o sinal da cruz.
- Como é? Ela fez o quê?
- O sinal da cruz – ele disse, seríssimo - Agora pensa e me responde: porque é que alguém faz o sinal da cruz antes de ir falar com uma outra pessoa? Hein? Eu, hein. Essa mulher, não sei não.
- Plá, plá, plá?
- Plá. Realmente, é assustador.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

mas na hora, o que a gente riu...

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- Sabe aquelas pessoas que contam um caso que aconteceu, que foi engraçado na hora, mas que na repetição não tem a menor graça?
- Sei, Zé.
- Não é engraçada aquela situação? O jeito da pessoa depois que ninguém ri?
- Como assim?
- A pessoa conta o que aconteceu, ninguém se toca, ela fica aquela sem-graceza e daí ela sempre fala: "puxa, agora não parece tão engraçado, mas na hora a gente morreu de rir, eu juro...".
- Zé, que maldade perceber isso. Que maldade, que mau que você é.
- Eu não tenho culpa – ele disse, rindo - É sem querer, hahaha.
E saiu da sala repetindo:
- Hahaha, "... agora não parece engraçado, mas na hora, o que a gente riu...”.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

muito além da memória de ontem

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Incrível como ampliamos a cada dia o uso dos nossos telefones celulares. Mas óbvio que com um treco que anda grudado na gente dia e noite, acabamos tendo uma relação muito além da reles comunicação com os outros. Por isso acho que são excelentes os adventos da câmera fotográfica, da filmadora, do gravador e dos torpedos dentro dos aparelhinhos. A cada dia uso mais meu celular para tudo. ‘Meu celular é minha memória’, comentou um amigo, ‘quando eu saio à noite e bebo muito, no dia seguinte corro para ele para saber o que fiz’. Estranhei. ‘O que tem a ver seu celular com a sua farra do dia anterior?'. Ele riu. ‘Ora, é a minha memória. Eu olho as fotos que tirei e sei onde estava, olho quem me ligou e sei com quem fui, olho os torpedos que recebi e as mensagens que passei e me lembro do que aconteceu. Ainda bem que celular tem memória’, ele completou, ‘pois eu não tenho mais nenhuma’. Achei esquisito na hora, mas acabo de me pegar aqui descarregando do meu celular as fotos da noite de ontem e me lembrando de coisas que nem imaginava que tinham acontecido.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

por favor, o sinal de fax?

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Acabei de receber um fax longuíssimo que demorou mais de vinte minutos para chegar. Minha máquina de fax ainda é de rolinho de papel, pois me recuso a comprar aquela outra de papel sulfite, afinal quase ninguém mais passa fax. Depois do "por favor o sinal", ouvi um tempão aquele barulho nhéééc nhéééc de manivela até que olhei e vi uma massa imensa, fenomenal e absurda de papel embolada ao meu lado. Um volume maior que eu sentada, juro. Estendi. Deu duas vezes o comprimento da minha sala, ou seja, oito metros de fax. A moça ligou de novo, faltava uma folha. Troquei o rolinho, chegou a derradeira. Oito metros e uma folha. Peguei uma tesoura e gastei mais cinco minutos cortando e arrumando na ordem certa. Depois tive que achar o grampeador para grampear. Nunca receber um fax me pareceu um treco tão arcaico.

domingo, 5 de novembro de 2006

o frankamente na folha de são paulo



gente, acabei de ver agora que o "frankamente..." saiu hoje no jornal - tou virando formadora de opinião!

São Paulo, domingo, 05 de novembro de 2006
Veja como manter as crianças ocupadas durante a viagem

FLÁVIA MANTOVANI
DA REPORTAGEM LOCAL
Ninguém gosta de esperar horas no aeroporto ou ficar parado em longos engarrafamentos na estrada. Mas a situação costuma ser ainda pior para quem tem crianças pequenas. Como é esse o cenário que a volta do feriado promete, preparar-se com antecedência ajuda a tornar a espera menos penosa para pais e filhos - evitando que a velha pergunta "Falta muito para chegar em casa?" surja a cada cinco minutos.
Para a a publicitária Juliana Sampaio, 36, uma das autoras do livro e do blog "Mothern" (www.mothern.blogspot.com), o segredo é usar a criatividade. "Tem que aproveitar a circunstância e transformá-la num jogo. Para a criança, qualquer situação pode ser uma grande novidade", diz.
"Para mim, o que sempre funcionou é transformar a realidade numa brincadeira. É importante manter o bom humor", concorda a arquiteta Lúcia Carvalho, 44, que escreve crônicas sobre o tema no blog "frankamente..." (www.frankamente.blogspot.com).
Com a ajuda das duas e do livro "Viajando - Um Guia para Pais de Primeira Viagem" (ed. Objetiva), a Folha reuniu 15 dicas que podem salvar a volta para casa.
1- Os cuidados começam antes de sair de casa. Levar uma bolsa de mão com uma muda de roupa, fraldas, chupetas e mamadeiras evita ter de abrir a mala para procurar esses itens na hora da necessidade.
2- Também vale a pena ter à mão brinquedos ou jogos fáceis de transportar. Quebra-cabeças e álbuns de figurinhas ocupam pouco espaço e rendem distração por um bom tempo.
3- Leve um caderno e lápis de cor para que a criança possa desenhar.
4- Vestir os filhos com roupas confortáveis ajuda a evitar a irritação durante a espera.
5- Caso as crianças não estejam acostumadas com comida de lanchonete, prepare um lanche caseiro com ingredientes que elas gostem.
6- No aeroporto, dê voltinhas rápidas com os pequenos, mostrando as lojas e o vaivém de pessoas. É claro que ver, pelo vidro, os aviões decolando e pousando é diversão garantida por um bom tempo.
7- Compre algo que elas gostem de comer. Numa emergência, reduzir restrições alimentares e liberar algumas guloseimas não faz mal.
8- Pare na banca de revistas para comprar gibis ou livros de atividades.
9- Aproveite as circunstâncias e tente inventar jogos com as crianças. Peça que elas contem quantas pessoas de mala vermelha ou de blusa azul passam pelo saguão, por exemplo.
10- Contar histórias também ajuda a diverti-las.
11- Lembre-se de que o mau humor é contagioso. Tente manter a calma e fique atento para não ficar reclamando da espera perto da criança.
12- Se ela estiver muito cansada, vai ser difícil evitar a irritação. Tente levá-la a um lugar tranqüilo para que ela possa dormir um pouco.
13- No carro, evite brinquedos e livros que possam causar enjôo. CDs com histórias ou músicas infantis fazem o tempo passar mais rápido.
14- A própria paisagem da estrada pode servir de tema para um joguinho infantil. É possível fazer uma brincadeira em que marca pontos o primeiro a enxergar um posto de gasolina, uma placa ou um carro de determinada cor.
15- Se a criança estiver muito inquieta durante a viagem de carro, pare por alguns minutos em um posto de gasolina para que ela possa andar, ver coisas diferentes e se distrair antes de retomar a viagem.

chuááá!


- Falando em medo, eu tenho medo de uma menina da minha escola – falou o João, ontem, no carro.
Estávamos todos indo almoçar fora.
- Mas porque? – perguntou o Zé.
- Por que ela tem peitos muito grandes, pai. É esquisito.
- Ah, que engraçado, João... – o Zé se empolgou – quando eu era moço eu tinha uma amiga com o mesmo problema, mas ela acabou se operando por causa disso.
A Nana interveio.
- Já vi muita cirurgia de seio na TV, pai. Naqueles programas médicos dos canais com números acima do quarenta.
- Nossa, Luciana - o Zé se espantou - sério que você aguenta ver aquilo, filha?
- Claro que aguento, é da hora. Você sabe como é que eles fazem, pai?
- Acho que eu sei, Nana. Eles tiram pelo bico, não é? Pelo menos diziam que minha amiga tirou assim, pois ela ficou com uma cicatriz no bico.
- Pai, claro que não! Hoje em dia eles tiram pelo lado, para não aparecer cicatriz. Tiram ou põe, claro, dependendo do caso.
Foi quando o João interveio.
- Como é Nana? Sério que pode diminuir peito? E eles cortam onde?
Ela mostrou nela mesma.
- Aqui ó, Juca. Eles cortam e...
- ... e chuááá! – falou o João, rindo.
- Hã? 'Chuá' o quê, João?
- Ué... não faz 'chuááá' pra... tirar?
Foi quando a irmã mais velha entendeu o que ele estava pensando e perguntou, irônica.
- Ô João, hahaha, o que você acha que existe dentro do peito das mulheres?
E ele respondeu, meio desconfiado que ia dar um fora.
- Ué. Hammm. Não é... leite?

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

a mulher que estala a calcinha

Algumas pessoas dão medo por diversos motivos, alguns incompreensíveis, fazer o quê. Uma vez fui numa reunião de trabalho e tive muito medo de um diretor de uma empresa. Numa primeira olhada, notei que ele tinha os dentes todos pretos. Logo em seguida ele acendeu um charuto enorme, o que me deu mais medo ainda, e, quando afinal falou comigo, ouvi uma voz horrível, de monstro, de ogro, um verdadeiro som de caverna que parecia vir das profundezas do seu ser. Nossa, aquilo foi completamente assustador, eu mal consegui fazer a reunião. A cada vez que o homem abria a boca para falar qualquer coisa, eu estremecia.
Comentei isso com um amigo.
- Eu tenho medo de uma mulher que trabalha comigo - ele disse - Ela é grandona, tem uma voz grossa, sua muito no calor e usa roupas muito colantes.
- O que tem isso de assustador?
- Hum. Não sei se devo falar.
- Ora, as vezes as pessoas grandes são super doces. Implicância sua com a moça.
- Não é só isso. O problema dela é que ela estala a calcinha.
- Como assim?
- Ela estala a calcinha!
- Não tenho a menor idéia do que significa isso, "estalar a calcinha".
- Pois é, vou tentar explicar. É uma coisa que eu notei que me dá o maior medo. Como ela sua muito, a roupa toda fica toda meio grudada no corpo. E quando ela se levanta e vem falar comigo, ela sempre dá umas arrumadas na roupa, na calcinha, no sutiã, essas coisas. Para descolar do corpo dela, entende? E nessa hora eu ouço: “plá”... "plá"... "plá"
- “Plá”?
- É. “Plá”.
- Um ou vários?
- Vários, sempre. Plá, plá, plá. Basta ela chegar perto de mim que lá vem aquela estalação de calcinha. Pensa, aquele mulher enorme, suada, fedida e aquela estalação, plá, plá, plá.
- Nossa.
- Morro de medo. Sério.
- Plá?
- Plá. É assustador.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

olhai os lírios do campo


Eu ia escrever sobre outra coisa, mas ontem achei esse livro, fiquei rindo sozinha e resolvi postar. O João precisava ler "Ana Terra" e fui atrás do livro do Erico Veríssimo nas estantes aqui de casa. Meu pai adorava Erico Veríssimo e sempre teve muito livros dele. Meu pai adorava desenhar. E também adorava uma piadinha. Acho que achei tudo isso junto. Um livro do Érico Veríssimo, a assinatura do meu pai, o desenho e a piadinha. É muito legal quando a gente se lembra de alguém desse modo, rindo. Ah, achei o Ana Terra também. Mas sem desenho.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

um putz presente legal

Hoje, no meu aniversário, bem na hora do café eu dou de cara com uma publicação de uma crônica minha na Revista Especial da Folha - Morar.
Uau. Olha que presentão que eu ganhei. Acho que é o fim do inferno astral, enfim.

fiti & rometicher



"Não é fácil. Para morar num apartamento hoje em dia ou você é pouco bilíngüe ou fica totalmente boiando nos ambientes. Explico. Todos os novos lançamentos imobiliários têm atualmente uma quantidade sem fim de lugares com títulos estrangeiros e completamente esdrúxulos.
Acho que tudo começou com os nomes dos prédios. Se anos atrás os edifícios de São Paulo tinham singelos nomes de mulheres, índios ou flores, de uns tempos para cá começaram a surgir um monte de ‘piazzas’, ‘places’ ou ‘villaggios’. Óbvio que esses nomes não vieram sozinhos. Os prédios passaram a receber roupagens diferentes, de acordo com o local eleito como referência. Arquitetura? Não, nunca. Apenas maquiagem.
Mas não bastava vender somente o nome do prédio e a roupa-fachada. O mercado imobiliário inventou outros produtos, e aí que surgiram os ambientes com nomes estrangeiros. A coisa cresceu e hoje qualquer lançamento imobiliário tem que ter, obrigatoriamente, locais como gourmet places, spas, lobbys, home offices, family roons, fitness, home theaters, closets, solariuns, lan houses e barbecue places. Tenho dúvidas se esses espaços realmente vieram da arquitetura americana ou européia – ora, churrasqueiras, salas de ginástica, sala de tv e rouparias sempre existiram nos prédios e condomínios.
Infelizmente essa é a realidade: nomes americanos, italianos ou franceses agregam valor aos espaços. Isso vende imóveis, projetos de decoração, mobiliário, produtos. Existe um mercado enorme por detrás desses ambientes, eu mesma já presenciei reuniões de decoradores com clientes e percebo que esse marketing, além de vender, define a sua vida: na sua casa nova você acredita que vai fazer coisas nunca tinha imaginado. Vai malhar muito numa sala de fitness, vai fazer churrascos sem parar, vai ver filmes ‘cult’ num super home theater, vai ter um jardim de inverno e ter como hobbie a jardinagem, e, enfim, vai ter uma ‘family room’ para conviver com os seus familiares, escuta, como você nunca pensou nisso antes?
Quem sofre com isso são os operários das obras, que precisam rapidamente se adequar a essa nova linguagem para trabalhar. Já fui chamada para resolver problemas em romitichers, espás, longes, solares e closis. Muitas vezes só descobri onde era o problema depois de chegar ao local. E de longe o campeão de nomes errados é, sem dúvida alguma, o famoso home theater. Rometicher, rontich, ramitichi, hamitisi, tichicher, ramtixi, roamtiter, romsiter, olha, não há quem não faça a sua própria adaptação abrasileirada do nome, e, às vezes os piores são os próprios proprietários, que insistem em pronunciar a palavra emboladamente, com boca de subwooffer. Tenho um eletricista, o Ceará, que de tanto pronunciar palavras em inglês nas obras, um dia encontrou um técnico de som americano e conversou um tempão com ele.
- O que você tanto falou com o americano, ô Ceará?
- Ah, estava explicando onde vou colocar os espiquers no rome e no fites – ele respondeu, exibido – e descobri que eu já falo inglês, sabia?
Depois dos apartamentos prontos, o problema lingüístico de multi-tradução-simultânea-arquitetônica continua para os zeladores e funcionários. Outro dia, numa portaria aguardando a entrada, presenciei o seguinte diálogo entre um porteiro e um segurança:
- Onde está o zelador, o seu Severino? – perguntou o segurança.
- Está lá naquela tal de cozinha do lado do ‘fiti’, sabe onde é?
Bom, se eu fosse ele eu também não me arriscaria a pronunciar “gourmet place”...
lúcia carvalho é arquiteta e autora do blog frankamente... http://frankamente.blogspot.com

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

terça-feira, 17 de outubro de 2006

EU VOU

O projeto de restauro é do Zé, e hoje teremos o querido Ivam Cabral palestrando lá na biblioteca.
Como fala o a. , 'd´jo boi'!

Ciclo discute a relação entre biblioteca e cidade


Debates na Mário de Andrade antecedem reforma

A reflexão sobre a recuperação e o desenvolvimento do entorno da Biblioteca Mário de Andrade, na região central de São Paulo, é o tema do ciclo de conferências "A Biblioteca e a Cidade", organizado pela instituição em parceria com a Escola da Cidade. As mesas-redondas se estendem por todas as terças-feiras de outubro, antecedendo a reforma prevista para começar em novembro na Mário de Andrade.
O arquiteto José Armênio de Brito Cruz abriu a série de debates com a apresentação do projeto de restauro e modernização para a instituição, de sua autoria. O trabalho prevê melhorias como um acesso à unidade pela praça D. José Gaspar e a retirada das grades que a cercam. "Além de esteticamente feia, a grade não cumpre o papel de proteger a biblioteca", avalia o diretor da instituição, Luís Francisco Carvalho Filho.
No dia 17, o antropólogo Heitor Frúgolli Jr. e o dramaturgo Ivam Cabral buscarão identificar o perfil dos freqüentadores da biblioteca e seu vínculo com o centro. "O Ivam tem experiência na relação entre cultura e revigoramento de área urbana. Seu trabalho com a Cia. de Teatro Os Satyros ajudou a desenvolver os arredores da praça Roosevelt", diz Luis Francisco Carvalho Filho, diretor da instituição. O psicanalista e cineasta Tales Ab'Saber, o advogado Theo Dias, o secretário municipal da Cultura, Carlos Calil, e o secretário de Coordenação das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, completam a seqüência de mesas-redondas.
Fonte: Folha de S.Paulo 02/10/2006
Hoje, 17/10, terça feira, 19:30
Mesa Redonda: Ivam Cabral , ator e dramaturgo, fundador da compania de teatro 'Os Satyros' e Heitor Frúgolli Jr., antropólogo e professor da FFLCH/USP.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

pagar ou não pagar mico

Fui assistir no sábado o filme francês “Pintar ou fazer amor”. Li a crítica e a resenha no jornal e adorei. Como o Zé não estava em casa, perguntei aos meus filhos, aos amigos e namorados deles que estavam aqui se alguém queria ir comigo.
- Oba, cinema? – falou minha filha - Qual?
- 'Pintar ou fazer amor'.
- Ixi, lá vem a mamãe com os filmes de arte dela. Não podemos ir ver 'Torres gêmeas'?
- Claro que não, gente. Se vocês quiserem ver o meu filme comigo vamos agora, senão deixo vocês em outro lugar.
Como eles não chegaram a um acordo sobre um filme para eles, lá fomos todos nós ver o filme “da mamãe”.
Ai.
Pra quê.
Olha. Eu não estou fazendo esse post para falar do filme – que é bárbaro – e sim para falar de uma coisa que aconteceu durante o final de semana inteirinho: eu, a mãe que convidou e pagou, tive que pagar o maior mico por causa desse convite.
Que droga.
Ora, eu devia desconfiar. Um bando de adolescentes só vai ver um filme com a mãe, óbviamente, para tirar sarro dela. Como eu não percebi isso antes? E em bando a coisa é melhor e mais divertida. Dizem que isso é necessário para o adolescente se libertar dos pais. Mas dá licença, gente. Eu só queria ir ao cinema.
Tudo era o fim da picada: o cinema era anos-oitenta e super decadente, a freqüência de velhinhos múmias e zumbis, a pipoca era velha, praticamente da terceira idade, as minhas conversas eram ridículas e a cadeira não tinha nem encosto de cabeça. Mas o pior não foi isso. O pior foi quando o filme começou e eu entendi o enredo da coisa. Daí não tinha mais jeito. Percebi que estava numa cilada, ou melhor, que já tinha sido capturada pelos adolescentes-canibais. O que, no filme, era uma “... subversão a tradição burguesa pelo viés sensual onde Madeleine e William se redescobrem também no prazer, abrindo espaço para liberdades sexuais nunca antes cogitadas e onde intento da obra não é explorar a situação em profundidade, mas insinuar delícias e desejos de forma a pincelar um quadro impressionista...”, virou, obviamente, um... filme pornô.
Acham que eles iam perder a chance de tirar sarro de mim? Bastou entrarmos em casa que a coisa começou.
- Pai! A mamãe levou a gente num filme de swingers!
- Hã?
- Verdade, pai. Um filme de troca de casais! Hahaha!
- Como assim? – o Zé me olhou torto.
- Um monte de velhos fazendo swing, era isso pai – eles diziam rindo - A maior sacanagem! Ela deve estar interessada...!
Eu tentei explicar.
- Zé, não é bem assim...
Bom, foi isso o final de semana todo. Agora todos pensam que eu quero fazer swing: o Zé (que passou a me olhar beeem torto), a minha mãe, meus cunhados, meus amigos e todos os amigos dos meninos que vieram aqui.
Uma mãe swinger. Eu. Vejam que coisa. Fiquem longe de mim.
Mas concordo. É irresistível tirar sarro da mãe. Eu que deveria tomar mais cuidado.

sábado, 14 de outubro de 2006

pedala, escorpião


- Mãe.
- Fala, Nani.
- Percebeu que não existe mais o planeta que rege o nosso signo?
- É? Eu não ligo muito pra signos, filha.
- Plutão, mãe. Estou falando de Plutão, que não é mais planeta. Eu e você somos de escorpião. Ficamos com um signo perdido, sem regência.
- Isso não muda nada, filha. Bom. Embora eu esteja me sentindo meio perdida mesmo há uns dois meses.
- Outro dia ouvi um astrônomo falando que Plutão não é mais ‘planeta’ mas que é um ‘planeta- anão’.
- É?
- Então nós, escorpianos, mãe, somos regidos por um 'planeta-anão'. Mãe! Pensa, só : somos o signo ‘pedala-robinho’ do horóscopo! Hahaha!
- Afe. Que infame essa piada, filha..!
- Hahahaha. É mesmo. Mas é engraçado, vai.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

reflexos




Adorei essa foto que eu tirei ontem com meu celular. Ao fundo o edifício Itália e um pedacinho do Copan, no reflexo, pequenininhos, eu e meu amigo Rocco. Eu sempre fui uma moradora de apartamentos. Nasci em um, morei em diversos. Ter como vizinhança outros prédios, outras janelas, outras luzes e outros reflexos sempre foi para mim a mais familiar das vizinhanças. Não que aqui em São Paulo a gente fique muito tempo em janelas olhando a vista (diferente do Rio), mas tenho como imagem de memória de bairro espaços urbanos, construídos, e não paisagens naturais. Há oito anos que moro numa casa. No chão. Abro as janelas e vejo meus próprios muros. Saio na varandinha e vejo as plantas que plantei. É quase como se eu não estivesse na cidade, é quase como se eu morasse dentro de mim. Morar em uma casa é olhar para dentro de você. Ontem, no alto desse prédio, a noite, tive saudades de morar diferente. Nolstalgia urbana. São Paulo é uma cidade super legal.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

gente que ri



Tenho uma necessidade constante de entender relacionamentos. Percebo que tenho sintonia total com algumas pessoas e com outras absolutamente nenhuma, um problema. Com as pessoas sem sintonia sempre achei que era uma questão de tempo: que haveria de chegar a hora do alinhamento entre o meu ser e o ser em questão. Hoje sou completamente descrédula dessa teoria: olha, tenho absoluta certeza que eu não vou ter nenhuma relação com pessoas sem sintonia inicial. Não sei se esse dar de ombros significa que estou amadurecendo ou me infantilizando. Talvez a segunda hipótese seja mais adequada ao nível (intelectual e alcoólico) das minhas teorias, como essa, discutida veementemente num bar ontem. Já com as pessoas sintonizadas faço órbitas completas e perfeitas. As falas, a interação, a simplicidade e o bem estar surgem inevitáveis como fenômenos da natureza. É como se eu e a pessoa chovêssemos, ensolarizássemos e nublássemos independente da nossa querência. Demais. Sempre li que procuramos essa ou aquela relação com pessoas ou grupos por questões genéticas – dizem que o ser humano homem sempre busca inconscientemente nas relações melhorias na descendência. Mas isso não explica tudo: como às vezes gostamos de uma pessoa e implicamos com, sei lá, o irmão dessa pessoa? Se os genes são parecidíssimos, como a coisa funciona, afinal? Não, não deve ser isso. Mas por mais que eu tente entender as minhas empatias, chego a uma conclusão óbvia e boba: minha sintonia não está ligada a nenhuma questão química, espíritas, genética ou intelectual. Assumirei a verdade. A minha empatia com essa ou aquela pessoa, infelizmente, tem raízes muito mais simplórias e ingênuas: é apenas por causa do senso de humor. Se a pessoa gosta de gracinhas, de piadinhas, se dá risada, se tem humor, então eu me dou bem com ela. Se não ri, eu não me dou bem. Só isso. Um vexame essa conclusão infantil para uma pessoa mãe, profissional e adulta como eu, e confesso que entender isso me deixou atônita. Mas dane-se: já gastei milhões de KVAs de energia cerebral para entender porque gosto mais desse amigo e não daquele e hoje não gasto mais nenhum: gosto de gente que ri e ponto final. Assim como na tristeza, no enfrentamento das dificuldades, nos silêncios e nas euforias, acho que o ser humano precisa se afinar também na gargalhada e no acesso de riso. O que eu imaginava ser conseqüência é, na verdade, para mim, fio condutor e espinha dorsal. Há um tipo de inevitabilidade no humor que me faz praticamente despencar no outro, fazer o quê. Não sei se é criação, formação ou personalidade, mas sem humor não vai. Isso mesmo, simples assim: eu gosto de gente que ri.

domingo, 8 de outubro de 2006

o timing dos presentes


Queria aqui colocar uma questão que me surgiu semana passada. É a questão do tempo certo de certos atos, principalmente do ato específico de presentear. Bem, eu trabalho com diversas equipes de arquitetos e engenheiros, pois faço coordenação de diversas obras. Numa dessas equipes, no natal, os engenheiros da obra presentearam cada um dos arquitetos com uma garrafa de licor. Eu, por ser coordenadora, também ganhei uma.
Porém, na reunião onde foi feita a entrega, uma das arquitetas não estava presente. Uma colega dela ficou com a garrafa embrulhada e se encarregou de entregar quando a encontrasse.
Na reunião seguinte, ouvi a conversa das duas sobre o presente.
- Estou com o seu licor, Célia. Esqueci de trazer, puxa.
- Não tem problema, Sônia - disse a outra.
Na reunião seguinte, a mesma coisa.
- Putz, teu licor, Célia. Esqueci de novo de trazer. Juro que levo na obra na semana que vem.
Na semana que vem, na obra, a história foi a mesma.
- Oi Soninha. Trouxe meu presente?
- Ai, não, de novo. Parece piada.
- Você não bebeu tudo, não, é? – brincou a outra.
Bem, estamos em outubro, e, de acordo com a conversa que ouvi das duas numa reunião na semana passada, o licor ainda não foi entregue.
- Não acredito – cochichei com a Soninha – Você esqueceu de novo o licor da Célia?
- Que droga – falou a arquiteta – Isso está virando um pesadelo para mim. Não deveria nunca ter ficado com a garrafa. Está lá no armário embaixo do meu bar, esquecida. Que eu faço?
- Não entregue mais - eu disse a ela - fale que agora passou o tempo e pronto.
Ela levou um susto.
- Como? Será que não pega mal?
Sinceramente, gente, não acho que pegue mal não. Acho que todo presente tem um tempo para ser dado, e depois disso, mica. Um presente não-dado, depois de um certo tempo, não tem mais dono. Não é do presenteador e nem do presenteado. É um objeto do mundo, perdido no tempo-espaço, sem existência porque não tem mais nenhuma função. Assim sendo, na minha opinião devemos socializar os presentes não dados. Devemos torná-los do mundo, não da pessoa que deve ser presenteada e nem da que comprou. O timing errado elimina a autenticidade do ato de presentear. Esse licor já passou do tempo de ser da dona dele. Isso já aconteceu diversas vezes aqui em casa com alguns presentes de casamento: eu saio, compro um presente, e, como odeio listas e lojas indicadas pela noiva, acabo comprando coisas bacanas que compraria para mim nos lugares que bem entendo. Trago para casa e falo pra o Zé que temos que entregar para os noivos naquele fim de semana, ele concorda. Bom, é sempre a mesma história: acabamos deixando o tempo passar, o presente fica semanas embrulhado na sala, a Maria guarda na rouparia, e, depois de seis meses, resolvo que aquilo nunca mais vai ser dado, desembrulho e olho, confusa. Que fazer? Coloco na sala? Levo pra minha mãe? Dou para a Maria? O timing passou, gente. Aliás, timing é tudo nessa vida.
- Isso também acontece com freqüência com alguns presentes de natal - conclui, explicando para a arquiteta a minha teoria.
- Acabou o timing do licor? É isso?
- Sim. E aliás, Soninha – completei – Lembrei que comprei um presente de aniversário para voce esse ano. E...
- Para mim? Jura? E onde está?
- Também não foi entregue. Problemas de timing.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

a tensão do secador



Tive, durante anos, um secador de cabelo azul. Não tinha marca nem nome, era apenas azul e pequeno. Mas era uma maravilha. Pequenino, minhonzinho, fazia o maior ventão. Um vento daqueles era um vento 'sem dúvida alguma'. O máximo. Com ele, um dia, cronometrei. Sete minutos para secar tudo. Um beleza.
Há dois anos, sem mais nem menos, ele morreu. Eu ligava, colocava na tomava, clicava, sacudia e nada. Nenhum sinal de vida. Tipo infarto fulminante. Puft. Fiquei super triste. A gente se apega às coisas que precisa muito.
Como o Zé ia viajar a trabalho para fora do Brasil, pedi a ele que me trouxesse um novo de presente. Assim foi. Ele foi, voltou e pimba, chegou com um super-secador.
Era preto, bacanão, parecia aqueles de cabelereiro. Profissional, com a maior potência. Quase me derrubava, praticamente um tufão na minha bancada de pia. Usei durante dois anos, e tudo correu bem até a semana passada, quando deixei cair no chão e... cataploft. O secador espatifou e, óbvio, parou de funcionar. Digamos que morreu de queda. Sacudi, e está tudo despedaçado lá dentro, tadinho. Tão grande e tão frágil.
Fiquei atrapalhada na manhã seguinte. Eu acostumei a secar o cabelo depois do banho, como eu ia fazer? Voltei ao meu armário e peguei novamente o secador azul, que, de dó, eu não tinha jogado fora. Que saudade, porque será que ele tinha quebrado mesmo? Foi quando eu, sem pensar, liguei na tomada só para ver o que acontecia. Gente, acreditem. Ele ligou. Sei lá, talvez precisasse de um descanso, de uma hibernação, ou de um tempo para renascer. Só sei que estou, há uma semana, usando o secador azul novamente. Parace um milagre, e ele é muito melhor que o outro, apesar do tamanho. É mais leve e faz, realmente, o maior ventão.
Porém tem uma coisa estranha. Comigo, não com ele.
A tensão. Desde então eu acho que ele vai morrer novamente a qualquer instante e fico completamente tensa durante todo o seu período de funcionamento. Dura, estática, o meu cabelo fica horrível depois da secada. Não consigo relaxar. Ora, se ele já aprontou comigo uma vez, quem me diz que não fará uma segunda? Depois tem o negócio do amor e da paixão: embora aquele vento seja sensacional, sei que não posso me apegar à ele. Paixão é fooogo... Não quero sofrer de novo, depois ele me larga e será aquele sofrimento. Não venham me dizer que secador tem de monte em cada esquina que não é verdade. Mas ele tem que decidir, ou ele me quer ou não me quer. Ora, mas ele não fallhou ainda nenhuma vez nessa segunda vida, será que não estou exagerando? Talvez não esteja certo falar assim dele.
Bem, pelo sim, pelo não, resolvi estabecer uma relação de indiferença, praticamente ignorando aquela maquininha. Hoje de manhã pensei em largá-la para sempre, ir ao Extra e comprar um outro qualquer, novo e com vento médio. Ora, as máquinas, assim como as pessoas, precisam nos deixar seguras de estarmos ao lado delas. Uma relação não pode ser baseada em jogos de tensão, precisa ser fluida, natural, adequada, e...
É. Talvez eu esteja, realmente, meio pirada.
Excesso de vento na cuca?

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

acertando na mira





Não é sempre, mas às vezes a gente acerta na mira. Em épocas caóticas, que minhas amigas- astrólogas-sempre-de-plantão dizem que são comuns no inferno astral (se considerarmos a data do meu aniversário, acho que estou dentro de um desses inferninhos), faço um esforço enorme para andar na mão certa da estrada, não cortar pelo acostamento e, céus, o perigo - não andar na mão contrária. Quando se consegue e a balança pende para outro lado, aquele lado pretendido, da vida equilibrada, razoável, ponderada, ufa. É um alívio. O importante é apenas isso: não esquecer que existe uma mira.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

o zé


- Tem uma coisa que me irrita muito.
- Que é, Zé?
- É o seguinte. Vamos supor que a gente resolve convidar uma pessoa pra vir em casa. Daí a gente liga e fala: “oi fulano, vou fazer um churrasco aqui no sábado, você não quer vir?”
- O que tem de irritante nisso?
- Calma, eu não acabei de explicar.
- Tá, então acaba.
- Daí a pessoa vem e responde: “oba, que bacana, eu vou”. E logo em seguida – e é isso que me irrita – a pessoa vem e me fala: “ei, quer que leve alguma coisa?”.
- Como é? Zé, você se irrita com o fato da pessoa perguntar se você quer que ela leve alguma coisa?
- Sim, eu me irrito.
- Zé, a pessoa está sendo educada. Tá querendo colaborar. Fazer um agrado. Nossa, como você é implicante.
- Eu sei. Mas isso me irrita e eu tenho vontade de responder uma coisa bem desconcertante.
- Como assim?
- Hahaha. “Quer que leve alguma coisa?”, a pessoa vai perguntar. E eu vou responder: “Sim, eu quero. Estou precisando de meias. As minhas estão com os elásticos todos frouxos”. Hahaha. Entendeu?
- Zé, você não bate bem.
- Dane-se. É só vontade de ser meio terrorista, não significa que eu vá falar.
- Tomara... Mas você precisa mesmo de meias? Eu posso comprar, não precisa pedir para os seus amigos.
- Preciso. Muito. Os elásticos estão todos frouxos.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

purgatório ou blogatório?


No meio da bagunça da vernissage da exposição do Nelson Leirner ontem – a lot [e] , achei o Dudi. Começamos a conversar no meio dos milhares bonecos do Nelson, e, inspirados por aquela simbologia e pela alegria que tem sempre existe nas exposições do Nelson Leirner (não sei explicar porquê, mas as exposições dele são sempre muito felizes), claro, caímos novamente nesse assunto aqui, os blogs.
Bom, o Dudi tem blog há muitíssimo mais tempo que eu. Me lembro do tempo que não era blogueira, vivia fuxicando no blog dos outros, sempre caia no dele e ficava intrigadíssima com ele e com essa mídia. Como funcionava? Servia pra quê? Até hoje não sei, graças a Deus. Mas como blogueiro é blogueiro, independente do tempo que a pessoa posta da vida, as dificuldades, complicações e preocupações são sempre as mesmas, sejam as fofocas ou as crises: os brancos, as síndromes de Bartleby, o enchi-o-saco, o vou-fechar-essa-coisa, o não-aguento-essa-rotina.
Tudo igual.
Bom, era mais ou menos sobre essas crises que começamos a conversar. Ele dizia que ficou um tempo afastado, eu contei sobre o recesso do frankamente.... Foi quando passei a falar sobre uma coisa que me veio à cabeça no começo dessa semana e que desde então tem me perturbado demais. É o seguinte. Eu sempre gostei e precisei escrever. Todos os dias eu escrevo, desde que aprendi as letras. Mas desde sempre as coisas que eu escrevo são projetos que acabam. É isso mesmo. Eu escrevo sempre coisas com começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem, mas sempre meus escritos tiveram fim, sejam novelas, romances, peças de teatro, coletâneas de crônicas, livros de contos, histórias infantis. Mesmo também eu não tendo sido publicada (ainda), os meus projetos sempre finalizam, assim como tudo que eu já fiz de desenhos e também de projetos de arquitetura.
Mas desde que cai na blogosfera que me deparo com uma questão super estranha. É que blog não tem fim. É um treco eterno! Pensa gente, se não é assim. Você não pode concluir um blog. Ele é fadado a existir, existir e existir, numa existência sem fim. Por isso que a gente enche, por isso que temos síndromes de Bartleby, por isso que cansamos: é por causa dessa perenidade da virtualidade. Blogs são, na verdade, totalmente inacabáveis. Largá-los é considerado praticamente um assassinato, você é totalmente julgado por isso. A existência deles está estritamente vinculada à durabilidade. Existe um lado até, digamos, de purgatório nesse universo virtual – até mandei um e-mail para o Mario Prata falando sobre isso (ele está escrevendo um folhetim no jornal Estadão, que se chama “o Purga”, sobre uma mulher morta que se comunica virtualmente com um amado de lá do purgatório – é super legal, vale a pena acompanhar). Olha. Somos todos seres do purgatório nessa rede, sem rostos, sem voz, sem realidade. Coisa mais esquisita.
Obvio que não cheguei tão longe ontem na minha conversa com Dudi. Na vida real, principalmente nas exposições do Nelson Leirner a gente é muito interrompido (o Dudi umas setecentas mil vezes mais do que eu, obviamente) e não dá pra desenvolver tanto as idéias. Mas de um certo modo, melhor se conformar: ou damos uma de serial killers, matando blogs e personagens, ou estaremos eternamente nesse purgatório, trancados e fadados a imortalidade.
Já estou me vendo daqui a sessenta anos. Franka, uma das mais velhas blogueiras mais antigas do mundo, sentadinha numa cadeirinha de balanço, ouvindo um velho iPod e... postando. Postando.
Postando.
Postando...

terça-feira, 26 de setembro de 2006

a desobstrução

.
É uma propaganda de televisão. Quando ela aparece, sempre no horário nobre da tv, e, inacreditavelmente antes do jantar, as pessoas aqui de casa começam a berrar de... nojo.
- Arghhh, lá vem mulher-diarréia! – exclama um dos meninos, rindo.
- Urgh, não vou ver, vou sair da sala – eu sempre falo, pulando do sofá.
- De novo? Que inferno! – fala o Zé – Todo santo dia essa mulher tem que desobstruir esse intestino bem na hora do nosso jantar?
- Ô mulher porca, lá é hora de falar disso? – fala meu outro filho.
- Éca, nunca vou comprar essa porcaria – diz minha filha, saindo da sala.
É uma propaganda desses iogurtes que fazem o intestino funcionar. Hoje em dia está na maior moda usar esses produtos. A propaganda fala que eles, além de serem saudáveis, facilitam o funcionamento do sistema digestivo e que isso faz as pessoas ficarem mais 'felizes'. Hummm, sei não. Acho que consumir frutas e fibras faria o mesmo efeito, mas propaganda é propaganda e as pessoa se convencem. E, bem, muita gente que deve se beneficiar muito desse tal produto, que acredito – sério – deve realmente fazer bem num caso de necessidade. Mas o que incomoda todo mundo aqui em casa é a idéia da propaganda. A idéia é absurda, gente. Quem inventou aquilo?
Bem, não deve ser fácil fazer uma propaganda de um treco que você come especificamente para fazer o, digamos, número dois. Sim, convenhamos, isso é bastante constrangedor, obviamente. Você não pode mostrar uma mocinha comendo e correndo para o banheiro, isso seria meio feio. Nem pode falar escancaradamente, 'coma esse iogurtinho e vá ...'. É preciso ser 'sutil'. O ideal, acho que eles pensaram, será fazer um tipo de comparação. E é essa comparação que dá acessos de riso e nojo na minha família, pois é muito infantil e, digamos, escancarada. Aliás, é tosca até não poder mais, como diz meu filho mais velho.
É o seguinte. Na primeira cena vemos uma mocinha linda numa varandinha de um prédio numa manhã linda de sol com um potinho do tal iogurte na mão. Até ai você não sabe de nada. Daí a mocinha dá um sorriso sem graça, faz uma carinha de prisão de ventre e olha para a rua lá em baixo. Aparece então uma cena com uma avenida enorme e com o maior congestionamento de carros. Óbvio que os carros estão ali representando as "obstruções". Éca, que nojo. Close na mocinha de novo, ela come uma colherinha do iogurte. Cena na avenida intestina, o trânsito anda um pouco. Tá funcionando. Close na fulana, outra colherada. Cena na avenida, mais um movimento. Mais outra colherada, mais carros fezes andando pelas vias intestinais. Urgh, é nojento aquilo e a coisa continua, potinho, carro, potinho, carro, até que a mocinha come a última colherada e, arghhh, lá passa o último carro-fezes e a rua fica limpinha, desobstruída.
Aí a mocinha sorri, aliviada.
Aliviada?
Argh.
Gente, vocês não acham isso muito nojento? Não compro nem morta.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

prefiro não fazer





Foi na sexta feira que ele apareceu na minha vida, esse personagem esquisito. Fui numa exposição, encontrei uma amiga e saímos num grupo para jantar. Falamos horas sobre sapatos de salto e sem salto, e, não me lembro porquê, ela me indicou um livro pra ler. Bem, nos finais de noite os assuntos sempre se interligam em esquisitas osmoses alcoólicas.
- 'Bartleby, o escriturário', de Herman Melville, você já leu? – ela perguntou.
- Não tenho idéia do que se trata – respondi.
- É um livro pequeno, apenas um conto, do mesmo autor de Moby Dick. É sobre um homem que pára de fazer as coisas na vida.
No dia seguinte, ela veio aqui e deixou o livro emprestado. Óbvio que acredito que, se o destino me coloca diante de uma coisa, essa coisa é pra lá de importante. Então era melhor não perder tempo – sentei e pimba, li o livro todo numa só tacada.
Uau. Pois vamos à mais uma resenha-rústica da franka. Gente. Incrível o livro. Ouve só: esse Bartleby é um cara que passa a negar o mundo progressivamente e que, de um certo modo, pára de viver. É um escriturário copista de um cartório, um sujeito branquelo, esquálido, sem graça e calado, daqueles fulanos que a gente nem nota que existe, mas muito eficiente no trabalho. Certo dia é solicitado para um serviço importante e responde para o patrão, sem mais nem menos: "prefiro não fazer".
- Hã? – fala o patrão, incrédulo.
E ele repete, impassível.
- Prefiro não fazer.
Isso desconcerta todo mundo - inclusive o seu patrão, que é o narrador da história e que passa a ter atitudes hilárias para resolver essa questão internamente e éticamente. Os colegas de trabalho se revoltam: oras, ele não vai ser demitido? Mas não há malícia, esperteza e nem maldade naquele ‘não fazer’. O patrão adia a decisão e resolve esperar o tempo passar, pois simplesmente não sabe como agir diante daquela negação.
O tempo passa e o Bartleby passa progressivamente a 'não' fazer as coisas: não trabalha, não sai do escritório, não falar, não interage, não briga, não discute, nada. Apenas diz que ‘prefere não fazer’. Depois de um tempo, ele não faz mais nada e passa os dias olhando a empena cega do prédio da frente em Wall Street. Parado. Mudo. Se recusa até sair do escritório e passa a morar ali. A questão intrigante é que ele tem diante dele todas as possibilidades, mas não faz nada - absolutamente nada - é como se ele se alimentasse da negação da própria existência.
O termo ‘prefiro não fazer’ vira chacota no escritório, as pessoas todas passam a falar “eu prefiro – eu não prefiro - fazer isso - aquilo”. O patrão entra em crise existencial, e o Bartleby se mexe fisicamente cada vez menos.
Olha. Não posso contar aqui a história toda, mas eu acho que esse Bartleby tem tudo a ver com a vida das pessoas que escrevem. Na sexta eu li no jornal uma frase de Gustave Flaubert, "escrever é um modo de viver". Pra mim isso é mais que verdade, escrever é meu modo de sobre-viver, e quantas vezes eu já não caí nesse 'nada'. Acho que entrar no nada é coisa super comum de quem cria. Por exemplo, nesses tempos de recesso do 'frankamente...', acho que estou com Síndrome de Bartleby. Tenho o blog, olho para ele diariamente e digo: 'prefiro não fazer'. Hahaha. Acho que o Bartebly nos acompanha na vida em diferentes dimensões. Quantas e quantas pessoas não tem essa questão, esse nada, essa negação da própria criação.
Bom, junto com esse livro minha amiga me emprestou outro, também sobre o Bartleby e mais maluco ainda, que comecei a ler ontem e que se chama 'Bartleby e companhia', de um catalão, Enrique Vila Matas. Um cara que estuda os Bartlebys, ou a literatura do não, ou a atração pelo nada. Pelo que li na orelha, no livro dele ele cita escritores que escreveram apenas uma obra e pararam, outros que escreveram muitas e param ou até aqueles que nunca escrevem. Uau. Querem saber? O post acaba aqui.
Prefiro não concluir.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

para os comedores de bolacha




Ingredientes


½ xícara de manteiga ou margarina
½ xícara de açúcar
1 gema
1 colherzinha de essência de baunilha
4 colheres de sopa de leite
1 ½ xícara de farinha de trigo
1 colher de chá de fermento
2 colheres de sopa de chocolate em pó


Modo de fazer


Faça uma massa com a manteiga, a gema e a essência de baunilha. Junte a farinha, o leite e o fermento. Depois que a massa ficar bem lisa e uniforme, divida em duas partes e numa coloque o chocolate em pó.
Abra a primeira parte, a branca, sobre uma mesa polvilhada com farinha de trigo. Em seguida abra a segunda parte, a com chocolate, também sobre uma mesa polvilhada. Sobreponha as partes, colocando a parte escura sobre a parte clara e enrole como se fosse um rocambole.
Leve o rolo de massa ao refrigerador por 15 minutos, retire e recorte em rodelas. Assar em forno moderado.


Assim você faz essas bolachinhas legais em casa, sem o tal trans-seiláoquê. Quem fez essas ontem e quem me deu a receita foi minha mãe, ela copiou de um antigo livro de receitas que ela chama de 'livro da sangirardi'. Não sei quem foi esse(a) 'sangirardi'.
Não exagere na hora de consumir, para não virar, como disse um amigo, trans-baleia.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

óculos de assassina




A primeira vez que notaram foi quando houve o assassinato do PCFarias. Em todos os jornais, aquele monte de foto da namorada assassinada, a Suzana Marcolino.
- Olha lá Lu... olha como o óculos dela é parecido com o seu.
A gente abria o jornal, as revistas de fofocas, a revista Veja, Isto é, Época e lá vinha aquele monte de fotos da Suzana Marcolino com uns óclões idênticos ao que eu tinha na época.
- Essa mulher ai, mãe, parece você com esses óculos.
Até minha mãe.
- Veja, Lúcia. Essa tal de Suzana tem uns óculos iguais à aquele seu, aquele que eu não gosto, preto e grandão demais.
O tempo passou, perdi uns, comprei outros, mudei de modelo e tipo até que, na semana passada, a coisa se repetiu.
- Olha Lúcia... – falou o Zé, lendo o jornal – Repara nesses óculos dessa tal de Carla Cepollina, a namorada do falecido coronel Ubiratan...
- Que é que tem?
- Olha. É igual ao seu.
De novo?
- É mesmo, vamos pegar o da mamãe pra comparar – disse um dos meninos, trazendo a minha bolsa.
No dia seguinte, o Zé notou outra coisa.
- Lu! Olha que engraçado. Os óculos da mãe- advogada, essa tal de Liliana Prinzivalli, é idêntico à aquele outro seu, que você usava no ano passado!
- Como é, Zé?
- Olhaqui.
Nossa. Idêntico mesmo.
Óbvio que isso não deve ter acontecido só comigo, afinal os modelos de óculos tem a ver com a moda e milhares de mulheres tem óculos iguais. Mas constatar essa semelhança é engraçado, e eu estou aqui pensando se teria alguma coisa a ver o fato de eu ter o mesmo 'gosto' para óculos do mulheres envolvidas com mortes horríveis. Confesso que tenho arrepios de pensar, e, Deusmelivre, de me imaginar em páginas policiais.
Uia.
Aliás, se eu fosse dona de uma fábrica ou loja de óculos, eu me aproveitaria disso e lançaria já uma linha de óculos feminina chamada “killer glasses”. Porque gente, pensa bem: os nomes dessas mulheres são sensacionais para nomear uma linha de óculos. Imaginem a cena:
- Por favor, eu queria experimentar um óculos daquele ali – diria uma freguesa.
- Este? – falaria a vendedora – Esse é um legítimo Carla Cepollina.
- Iii, nossa. Deve ser caro pra chuchú. E aquele ali?
- Aqueles todos são Suzana Marcolino, é a linha original, com lentes a prova de bala e com a assinatura do PCFarias na haste. Mas estamos com uma promoção muito boa nos óculos Liliana Prinzivalli. Quer dar uma olhadinha?

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

OS TEXTÍCULOS NO NEXT


Olhai.
Isso aqui é uma propaganda explícita da peça do Antônio Rocco.
Texticulos.
Vamos todos lá. Ele tá convidando.

Eu conheci o Antônio Rocco por causa do Pecus. No ano passado eu contei para o Pecus que adorava e escrevia teatro e ele me levou no Next para conhecer o Antônio. São amigos de infância, os dois. Depois daquele primeiro dia, quando cheguei ao Next morrendo de vergonha (eu não conhecia nem o Pecus e nem o Rocco direito), fui um monte de outras vezes. Adorei tudo, o Antônio Rocco, o Guilherme Rocco e o Next. Também adorei as noites que passei lá, que foram extremamente divertidas e que me renderam mega-broncas do Zé por chegar tão tarde em casa.
"Onde-que-já-se-viu dona lúcia? Isso é hora de uma mãe de família chegar em casa a noite num dia de semana?", ele me disse, bravo e olhando o relógio.
"Não é culpa minha, Zé, é a Franka que foi, é essa Franka que fica a noite com os blogueiros e se atrasa!", respondi, disfarçando.
Numa noite dessas o Rocco falou do projeto Textículos. A idéia é bárbara, um teatro tipo crônica. Achei muito legal, parece com o meu projeto de crônicas aqui do "frankamente...". Ele foi adiante e ai está: a peça pronta e estréia na sexta, no teatro Next.
No dia do Caju-amigo, aquele encontro de blogueiros que fizemos, eu e o a. antes do Pandoro fechar, o Rocco foi. Chegou subitamente com um dos Textículos nas mãos, surpreendendo a todos, e, alegremente (como é de hábito) distribuiu cópias para alguns presentes, dizendo que tinha recém escrito o texto e pedindo que fizéssemos uma leitura com ele. Como sou animada para qualquer novidade (ainda mais depois de dois cajús), levantei a mão e me ofereci. Assim, coube a essa blogueira aqui o papel da atriz principal, uma fulana muito assanhada que tenta seduzir um vizinho no elevador de um prédio residencial. Confesso que no começo me senti um pouco envergonhada, mas diante da espontaneidade dos demais colegas blogueiros também envolvidos na leitura, em pouco tempo me soltei e incorporei to-tal-men-te a vizinha assanhada, a Márcia (difícil foi “desencorporar” a fulana depois... passei a noite num estado de assanhamento que vocês não imaginam). Sei lá o que os outros acharam do meu desempenho e do Textículo, mas eu, pessoalmente, achei o texto demais e me achei talentosíssima para a carreira de atriz. Desde então tenho esperanças de, quem sabe, poder repetir o Textículo novamente, mas dessa vez num palco de verdade e sem caju.
Ora. Afinal, a gente nunca sabe como será o dia de amanhã.
E vamos todos lá ver o Antônio.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

'o corte' do costa gavras



O filme é sobre um cara de 40 - 50 anos, executivo de uma empresa de reciclagem de papel em Paris, que perde o emprego de dez anos depois de uma fusão da sua empresa com outra. Fica desempregado da noite para o dia e não tem como sustentar a família - a esposa e um casal de filhos adolescentes. Assim se passam dois anos. Ele começa a pirar com a falta de trabalho, até que um dia o filho mostra à ele, na tv, uma propaganda de uma empresa concorrente da antiga empresa onde trabalhou. Na propaganda vê-se um executivo gordinho ridículo dando depoimentos, assim tipo enaltecendo a empresa. Ele fica puto e comenta com a família que era ele que deveria estar ali, no lugar daquele cara, que ele é muito melhor e mais competente que o fulano gordinho. Logo em seguida ele começa a pensar que, se aquele cara morresse, ele entraria no lugar do cara, e começa (é engraçado) a planejar a morte do cara. Mas ele conjectura que, mesmo assim, depois da morte do gordinho, ele teria outros concorrentes para conseguir o emprego, então resolve primeiro descobrir quem seriam eles. Inventa uma empresa fictícia de reciclagem de papel, cria uma caixa postal no correio e coloca um anúncio falso oferecendo um bom emprego. Recebe assim um monte de currículos e seleciona os melhores, que são cinco fulanos - que ele define como seus inimigos em potencial. Assim decide, antes de eliminar o executivo gordinho, eliminar aqueles cinco homens que podem ser escolhidos no lugar dele depois que o cara morrer. É um roteiro muito genial, falaverdade. Obviamente que ele tem todos os dados dos caras - endereços, telefones, etc., o que na cabeça dele torna a coisa fácil. E assim aquele homem normal, super renato, morador de uma casa bacana de subúrbio, com cara de executivo, familia bonitinha, papai-mamãe-dois filhinhos, resolve cometer crimes horríveis a luz do dia, matando cada um dos concorrentes a sangue frio. Se ele sente culpa? Sente, mas não é uma culpa absurda, e é ai que o filme é maluco. Ele chega a tremer e ter xiliques quando mata os caras, a adrenalina corre solta, mas ele logo se recupera e a sensação que temos é que a coisa não é tão horrível assim. Olha. É sensacional o filme e completamente politicamente incorreto. A chave da questão, na minha humilde opinião, está num diálogo em família. No meio do filme o filho mais velho rouba um computador e vai preso. O pai, então já o maior 'bandidão' da paróquia, rapidamente descobre e destrói as provas haviam na casa dele contra o menino para a policia não perceber. Assim o menino recebe uma pena pequena, presta trabalhos comunitários e consegue ser libertado rapidamente. A família sai para almoçar para comemorar a soltura do moleque e dá-se o seguinte diálogo na frente do pai, que se mantém calado:
"Os fins nunca justificam os meios", diz o menino.
"Bom, menos para tirar o filho da cadeia...", fala a menina, irônica.
"E menos em tempos de guerra", conclui o garoto.
"Na verdade, a escolha dos meios é luxo de uns poucos privilegiados", conclui a garota.
"Mesmo em tempos de guerra", fala a mãe.
"As provas é que são um lixo", fala o menino.
"E a filosofia também não é?" pergunta a menina.
Hehehe. O fim do filme eu não vou contar, mas fiquemos aqui com essa impressão sobre essas malditas filosofias de vida...
Mas Franka, você não tinha parado de escrever aqui?
Nunca, jamais...


sexta-feira, 1 de setembro de 2006