sexta-feira, 19 de novembro de 2004

atrás das montanhas 1



atrás das montanhas 1

Ah, que saudade do tempo que o arquiteto projetava tudo numa obra.
Explico melhor: hoje em dia, para se fazer um projeto e uma obra de uma casa, não basta um (1) arquiteto e um (1) engenheiro. Precisamos de mais de vinte profissionais especializados para fazer mais de vinte projetos e mais de vinte engenheiros especializados que tem que fazer obras paralelas. Ninguém se entende, a posição de líder se confunde, ninguém sabe a quem deve obedecer e o que acaba prevalecendo no processo todo é assitirmos a vitória daquele que melhor domina o grupo.
Muitas vezes o pobre do arquiteto passa longe, lá longe.
E perde-se completamente a idéia da obra, se é que ela existe ainda, nos projetos atuais.
Antes faziamos projetos assim (era bem simples, embora pareça que não - hoje que as coisas são complicadas): Você projetava a casa e a estrutura juntas. Assim aprendi com meus professores. Impossível pensar arquitetura x estrutura em dois tempos diferentes. A construção tinha que ser mágica e bela com a estrutura. Desprezávamos aqueles que faziam cenários. Aquilo era falso, era reles.
Assim, projetávamos nossos edifícios e suas estruturas, para depois estudarmos o programa, seus fluxos e relações, até chegarmos nos detalhes.
Tudo junto com o desenho da cobertura, com o desenho dos jardins, com a iluminação e com os forros da casa, tudo, absolutamente tudo dependia de você. Quanto precisamos de luz num quarto? Ora, era você que definia isso, afinal, você que sabia quem ia morar ali e o que se adequava melhor ao seu projeto.
Jardins? Você definia como seria, e até o que se plantaria ali.
Sei lá quando começou essa coisa da especialização e como as pessoas se adequaram a isso. Mas é triste ver um arquiteto parar a planta na soleira da porta, pois dali em diante é território dos paisagistas. É mais triste ainda ver profissionais se recusarem a desenhar uma planta de forro, ou não saberem palpitar sobre a posição de uma luminária. E é mais, muito mais desesperador ver arquitetos desprezarem a estrutura dos edifícios como se aquilo fosse uma coisa menor.
Tou berrando mesmo. Onde isso vai parar?

fontes-editore-setnof


uma turminha em 83 - santa cruz das palmeiras
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O Alexandre mandou um texto para todos nós, que nos reencontramos depois desses vinte anos e que desde então, não paramos de nos escrever e brincar. A Mona me mandou uma foto de uma viagem da época da faculdade, onde nós, na linha do horizonte, apontávamos o futuro. Olha que lindo.
Tá todo mundo ai de novo, e agora na escrita, onde, como diz o texto, somos todos mais próximos da verdade.
Obrigada, mais uma vez, Alexandre.
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"Lembro-me, adolescente, de ter trocado cartas com certa garota de quem estava perto todos os dias, no liceu, com quem falava, e, entretanto, as cartas formavam entre nós um laço mais essencial, mais profundo, mais íntimo. As vezes elas passavam pelo correio, as vezes de mao para mão, e isso nunca nos pareceu extravagante nem absurdo. Por que se escrever quando é possível falar-se, quando se fala efetivamente? Porque nem sempre se pode falar, nem de tudo, porque a fala pode criar obstáculo para a comunicacão, por vezes, ou condena-la a tagarelice, porque é preciso ter tempo de ficar sozinho, porque é doce pensar no outro em sua ausencia, ainda que se deva ve-lo no dia seguinte, dizer-lhe o lugar que ocupa em nossa vida, mesmo quando ele não está presente, em nosso coracõo, em nossa solidão, e é isso que a fala jamais podera fazer, uma vez que ela a suprime. A fala não nos aproxima de outrem, com muita frequência, senão nos separando de nós mesmos, e assim nos aproxima do outro apenas ficticiamente, apenas em supeficie ou pela vitrina. Numa carta, ao contrário, só atingimos o outro ficando o mais proximo de nós. Mas o atingimos, pelo menos isso acontece, e numa profundidade que as falas só alcançam raramente.
A escrita é mais próxima do silêncio, mais próxima da solidão, mais próxima da verdade. Ao menos pode sê-lo, e é isso que a justifica. Que adianta escrever, se é para fingir?"
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"Bom Dia, Angustia", de André Comte-Sponville.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

um dia em itacaré


sentada na piscina de pedras
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Pronto, cheguei, depois de uma viagem deliciosa com uma turma enorme e divertida, com a mala cheia de pedras lindas, com diversos cachos de banana que ganhei de um tal de Laurence, com quinze fitas do Bomfim (hum... não seria Bom Jesus da Lapa?) para dar para a filha e entupida de poeira da obra.
E com mais de vinte histórias absurdas de todo esse exército montado para acabar a casa do F. Mas o que ficou de melhor? O fim de tarde diante do mar, lá embaixo, na piscina de pedras.
O mar que vai e vem, envelhecendo as pedras.
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quarta-feira, 17 de novembro de 2004

a Fé e a Fê


e, para acabar o dia, uma foto do meu "pântano" de trabalho...

Era um encontro da catequese do João, na escola. Todas as mães foram até a classe para encontrar as crianças e rezarem o terço juntos.
A professora se chama "Fernanda". Na lousa estava escrito, com letras caprichadas: "Encontro de fé e da Fê".
Antes de começarmos a rezar, a Fernanda avisa as mães:
- Olha, as crianças resolveram mudar um pouco a Ave Maria. Ficou assim: ao invés de rezarmos "rogai por nós, pecadores", eles trocaram por "rogai por nós, seus filhos".
Uma menina explicou.
- É que criança não é pecadora.
A professora continuou.
- E no final, ao invés de "agora e na hora da nossa morte", eles trocaram para "agora e até a hora da nossa morte".
- É que vai demorar muito a morte - um outro menino explicou - até lá, demooora...
E assim rezamos o terço sem pecadores e com a morte lááá longe.
Foi muito mais alto astral.


Arte ou Arquitetura?


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o presente do PVP
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No dia do meu aniversário, o Paulo Von Poser me ligou.
- lúcia, não sei se vou conseguir ir te dar um beijo, mas estou fazendo um presente para você.
- Ô pena, Paulo. E obrigada pelo presente - eu disse - O que é?
- Olha. O presente não é assim... "arte", viu?
- Como?
- Não é uma "obra de arte", o meu presente - ele explicou.
- Ora, Paulo, acha que eu "vendo" os presentes que você me dá? Comercializo?
- Não, é que é estranho, estou fazendo e adorando, mas não é uma obra do PVP, tipo um desenho, uma pintura.
- Hum... É alguma coisa de tricot? Bordado? Um bolo? Biscoitos? Fala o que é, Paulinho!
- Não, lú, é segredo. Você vai ver.
- Hum... não é arte, nem uma meia de tricô...
Ele riu.
- Acho que é quase... arquitetura, lúcia! - ele completou, gargalhando sozinho - Isso! Arquitetura!
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Fiquei curiosa, e o presente chegou ontem. Maravilhoso. É uma casinha para uma familia passarinha, tem uma portinha para cada um de nós aqui de casa!
Adorei inspirar um vôo tão divertido e tão pouco "arte" num amigo. E, como não dava para colocar lá fora no terraço a noite, colocamos um passarinhos de brinquedo para testar.
"A casa da familia passarinha".
Genial.

Dona Baratinha


o casamento da dona baratinha, imagem do disquinho de 1970
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Olha o presente que recebi:
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DONA BARATINHA (para a minha amiga blogueira)
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Ele se comporta como barata . Cheira como barata . É aceito pelas baratas como uma delas, mas não é uma barata. É um robô e os cientistas dizem que a invenção é uma revolução na luta humana para controlar o reino animal. O robô, InsBot, desenvolvido por pesquisadores da França, Bélgica e Suiça, é capaz de se infiltrar em um grupo de baratas, influenciando-as e alterando seu comportamento.
Em uma década os inventores acreditam que o robô estará tirando suas "semelhantes" dos cantos escuros da cozinha para que possam ser devidamente eliminadas.
Saiu ontem no Estadão.
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Obrigada, Edu.
Um beijo da Dona Baratinha.

FRANKA CANDANGA


é visita? entre, bem vindo!

blog, ploft!


ploft!
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- Gente, novidade – falei para a família na mesa do jantar - Fiz um blog, olha que coisa mais moderna.
O Zé arregalou olho. Os meninos, já adolescentes, bocejaram.
- Tá, mãe... – falou o mais velho – ...mas não exagera. Blog é a coisa mais normal do mundo. Todo mundo é blogueiro hoje em dia – ele esnobou.
- Hã? Blogueiro?
Ichi. Nem sabia que tinha um nome para isso.
Ah, adoro blogs. Encontrar um deles, cheio de frutos, é como achar uma jabuticabeira carregada: você pára e se delicia. Blogs são bancos de idéias. São espaços generosos, férteis, onde você pode compartilhar gratuitamente os pensamentos dos outros. Assim, três meses atrás, resolvi que teria um só meu.
Uma decisão como essa é terrivelmente séria. Assumir um espaço, virtual ou real, e tomar conta dele sozinha não é mole. É como um casamento, como ter um filho, como ter um cão: é você tem que cuidar, na alegria e na tristeza, na chuva ou no sol, nas férias ou durante o trabalho.
Um blog é coisa séria, gente.
Hoje, com a entrada dos sites de relacionamento como o Orkut e o Multiply, os blogs já estão um pouco desvalorizados. Nesses locais você também pode montar uma página só sua, mas não é a mesma coisa. É a mesma diferença de morar numa casa ou num hotel: num blog você tem a posse do endereço.
Lá fui eu. Escolhi um site de blogs e segui o“passo a passo”: me cadastrei, entrei e ploft, caí dentro do blog. “Frankamente”, resolvi que ele iria se chamar.
Francamente, pensei. Um blog.
A primeira fase foi fácil. Já tinha um lugar para escrever, um endereço e um nome. Perfeito. Mas mal sabia eu que a coisa estava apenas começando.
Resolvi colocar fotos. Mas como colocar imagens lá dentro? Comecei a fuçar, mas não sabia nem onde era porta da entrada. Instalei uns programas, não dava certo, eu perdidaça. Uma hora desisti, tomei coragem e fui até os filhos.
- Gente. Não consigo colocar fotos no meu blog.
- Mãe – eles disseram em uníssono, rindo – Isso é complicado, não é coisa para mãe. Desiste, esquece.
Como assim? Ora, virou uma questão de honra.
- Seus chatos. Tem blogueiro de sessenta, setenta anos – declarei, emburrada.
De birra, nem fui dormir, até conseguir.
O blog estava quase perfeito. Já tinha texto, fotos e nome quando, nos meus passeios nos blogs alheios, descobri uma caixinha de comentários que fica ao lado do texto. Era muito legal, eu não podia ficar para trás.
Ô saco. Lá fui eu achar como se coloca a tal “caixinha de comentário”. Foi preciso ir até as entranhas e colocar lá dentro, tipo uma operação. Dá o maior medo, juro. E, depois aberta a barriga do blog, resolvi colocar um monte de coisa: contador de visitas, número de pessoas on-line, reloginho e até fases da lua.
Ficou tudo pronto, o máximo. Mandei e-mail para os amigos visitarem, me sentindo a própria dona Baratinha, aquela da história infantil, com fita no cabelo, dinheiro na caixinha e blog vermelhinho.
Foi quando descobri mais uma coisa, essa terrível: blogueiro tem turma, e eu, como conheço pouquíssimos, estava sozinha! Sem uma turma jamais serei uma verdadeira blogueira. Um bom blog tem uma lista de outros blogs, e perto dos outros o meu é to-tal-men-te desenturmado. Caramba, como fazer? Existe assessor de imprensa de blog?
Bem, paciência... As coisas ainda estão no começo, e eu vou conseguir chegar lá. E, para quem quiser visitar o blog da dona Baratinha aqui, o endereço é esse: www.frankamente.blogspot.com.
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terça-feira, 16 de novembro de 2004

balangandãs


um monte de balangandãs
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Foi numa vernissage da Brito Cimino. Nota: a galeria Brito Cimino é da prima da Zé, a Luciana, e o projeto da galeria é do próprio Zé.
Bem, eu estava com a Luciana quando o vi.
- Luciana, aquele ali é o Nelson Leirner?
- É, num conhece ele? Vem aqui que eu apresento.
Antes que eu tivesse tempo de negar, ela me puxou e me colocou na frente dele. Me assustei. Nas fotos ele é aterrorizante, de longe é grande e de perto, enorme. Quando me dei conta, a Luciana se mandou e eu estava diante daquele gigante matusalênico com um monte de balangandã e não tinha a menor idéia do que falar.
Ele, gentil, falou para eu me sentar. Sentei, mas ao mesmo tempo virei minha bolsa no chão com tudo que tinha dentro. Foi uma vergonha. Minha bolsa, além de ter muita tralha, tem pedaço de tijolo e lixo.
Foi como ficar nua na frente dele.
- Se deixou cair, é porque queria que eu olhasse - ele provocou. E continuou - Posso escolher?
Nem tive tempo de dizer não. Ao menos ele não escolheu minha bolsinha de modess, pensei. Contentou-se com uma piranha de cabelo, a melhor que eu tinha, e colocou no bolso. Catei tudo rapidinho, me levantei e sorri, pronta para uma conversa inteligente e bem exibida. Mas ele foi mais rápido.
- Quem é você? - ele perguntou subitamente, se dar me tempo de começar o meu teatro.
Eu começei a gaguejar antes de começar a responder (vou tentar reproduzir minha catastrófica resposta nas integra).
- Ah, é, sou a lúcia, arquiteta, ah, mulher do zé, quer dizer, formei arquiteta, mas trabalho com obra, quer dizer, com coordenação e gerenciamento de obra, trabalho pra um milionário, coordeno as coisas dele, não sou assim arquiteta de desenho, mas já fui muito, ah, mas eu escrevo também, quer dizer, ainda não publiquei mas sou escritora, não, sim, acho que sou, e também sou cronista, quer dizer, um pouco cronista, médio, não escrevo no jornal ainda, tento, tento uma hora vai dar, tou tentando mesmo, o Prata me publicou nos livros dele um monte de vezes, e eu escrevo peças de teatro, minha paixão, ainda não deram certo, apesar de todo mundo ler e adorar, eu...
Ainda bem que ele interrompeu aquele mantra histérico e desesperador.
- Ah. Igualzinho eu.
E olha que delícia que ele falou para me salvar.
- Veja. Eu sou artista plástico hoje. Mas quando crescer, se tudo der certo, vou ser um fotógrafo.
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Desde então, eu tenho essa frase na cabeça todos os dias.
E descobri que quando eu crescer eu também posso ser alguma coisa.
Que tal dramaturga?

nani, parabéns!


parabéns a você...

Hoje é o aniversário da minha Nani.
Parabéns minha querida!


a frase da espada do lorca


santa juana de arco

O fim da peça no original
Bodas de Sangue, Garcia Lorca


Mãe -
Vizinhas; com uma faca,
com uma faquinha,
por um dia assinalado, entre as duas
e as três horas,
se mataram êstes dois homens do amor.
Com uma faca,
com uma faquinha
que mal nos cabe na mão,
mas que penetra tão fina
pelas carnes assombradas,
e vai parar lá no sítio
onde emaranhada treme
a escura raiz do grito.

(tradução de cecilia meireles)
Obrigada, J. Vamos começar o dia com uma punhalada.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

fim de feriado, um monte de idéias e pensamentos


"Um pouco de kitsch não faz mal a ninguém...", falou a Sheila.
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1) Lorca, ainda...
Noiva:
"E eu dormirei a teus pés
para guardar o que sonhas.
Nua, contemplando o campo
como se fosse uma cadela.
E é o que sou! - Pois, se te te miro,
me abrasa tua beleza"

(Bodas, página 139)
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2) Um grito
A Silvia veio aqui hoje com uma questão complicada na cabeça. Sentamos para tomar um café e ela me fala:
- Onde foram parar os gritos, lúcia? Os gritos que nós, seres humanos, temos que dar? Nesse processo civilizatório todo, onde é o lugar de gritar?
Eu ia sugerir a ela que gritasse ali mesmo, ao meu lado, mas ela continuou.
- Eu acordei noite passada com um grito na garganta. Eu não podia gritar de modo algum, e aquilo me incomodando. Tive que desenhar aquele grito. Mas não pude gritar.
Sim, minha amiga. É irritante mesmo. Você desenha, eu escrevo, nós duas somos duas moças civilizadas, articuladas, organizadas, sabidas, que não podemos dar um berro em lugar algum.
Foi quando eu tive um clic.
- Silvia! Já sei onde! No jogo de futebol! Que time você torce? Vamos lá! Vamos reunir uma turma de mulheres quarenteens sussurantes e vamos todas berrar num jogo qualquer!
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3) A casquinha
O Jefferson me disse que toda a civilidade que existe na humanidade é só uma casquinha.
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4) O uísque
"Nunca é tarde para você ser o que poderia ter sido", fala um cartão do uisque Johnnie Walker aqui na minha frente. A frase é do Churchill.
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5) O comentário do Edu
O Edu me escreveu esse comentário depois que lembrei da minha infância falando de Dogville. Sabe, acho que são essas coisas que nos unem a alguns amigos na vida: essa percepção da magia de alguns momentos.
"Lembrei de outra coisa, essa bem esquisita. Eu estava sentado na mesa da cozinha, era a casa da Hans Nobling, a mesa era de fórmica azul e tinha uns desenhos ameboides. Eu devia ter uns cinco anos, no máximo.
O sol entrava através da tela da porta e dava pra ver aquelas poeirinhas voando. Minha mãe estava no quintal conversando com o papagaio. Acho que eu estava comendo alguma coisa muito gostosa, porque tudo parecia absolutamente perfeito.
De repente me veio uma daquelas certezas inapeláveis de que fala o Nelson Rodrigues: um dia eu vou esquecer essa cena! Foi um pouco angustiante meu primeiro contato com esse mistério, e, claro que eu não tinha fumado nenhunzinho. Mas ai eu disse: Essa eu não esqueço, vou lembrar pra sempre.
E não é que anos a fio, quando eu ficava meio assim, eu me lembrava dessa tarde. Tinha me esquecido e voce me lembrou.
Grande Lucia, valeu.
Edu"
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E eu ainda me lembro do Lorca de ontem. Maravilhoso.

LORCA = MEGADEUS


garcia lorca II

Depois de um longo tempo ser ver um palco pela frente, ontem o meu amigo Jefferson me chamou para ir com ele assistir uma peça do Lorca, lá no Sesc: Bodas de Sangue, uma montagem do Ventoforte.
Ele me disse que eu entenderia essa peça, que se parece muito com o meu teatro (ahhh, quem me dera...). Ele só estava assim-assim com a montagem, se seria boa ou não (achei linda, o batuque tinha tudo-a-ver).
Não costumo largar a familia domingo-a-noite, mas nesse caso não deu. E lá fui eu descobrir o meu novo ídolo.
Caraaamba, que texto maravilhoso!
Estou em transe até agora.
Desde a última montagem de uma peça do Nelson Rodrigues que fui ver (com a Leona Cavalli, há dois anos, também foi lindo) que eu não via um texto tão legal. Tão forte. Tão-tão. É denso, é pesado, é dolorido, é triste, é carne viva, é poema.
As duas horas e meia se passaram em segundos, eu mergulhada nas palavras daquele homem. Onde estava eu nesse tempo todo que não conheci nada do Lorca? Que burra que eu sou!
Cheguei em casa ofegante, peguei meu bloquinho de notas e tive que escrever imediatamente três frases:
1 - "Quando a coisa chega no sangue, não há o que fazer"
2 - "Uma boda é uma cama reluzente, um homem e uma mulher"
3 - "Eu quero entrar no seu peito para me esquentar"
E a frase mais linda de todas, a frase da espada e do grito, que, como não vou me lembrar exatamente, preciso do J. para me ajudar.
Assim, a partir de hoje, declaro que serei fã incondicional do Garcia Lorca, e que lerei todos seus livros e peças eu conseguir.
Como diz meu filho Chico, de quinze anos:
Lorca = MegaDeus.

domingo, 14 de novembro de 2004

ôba, hoje eu vou ao teatro


garcia lorca

O POETA PEDE AO SEU AMOR QUE LHE ESCREVA

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita e penso,
com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
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O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
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Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.
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Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

( tradução: William Agel de Melo )

sábado, 13 de novembro de 2004

andando pela cidade


valverde, anatomia feminina

Que dor no corpo. Caramba.
Acho que eu já posso falar sobre isso: parar de fumar. Enquanto eu não tivesse certeza que tinha parado mesmo, achei melhor ficar caladinha. Agora, quase dois anos depois, acredito que devo ter parado de fumar. Ainda tenho algumas dúvidas, mas espero estar enganada.
Bom? Não, foi bem ruim parar de fumar. Eu adorava aquilo, e perdi uma coisa que eu adorava. Isso nunca é bom, desculpaí os que acham diferente, mas foi péssimo. Foi como perder um amigo, e isso nunca é bom. Não houve nada que substituisse o prazer de fumar, tive apenas que dar tempo ao tempo, esperar a vontade passar e esquecer o cigarro.
Foi quando eu dei aquela "engordadinha". Olha, não passei a comer muito mais não. Acho que cigarro emagrece e muito, só pode ser isso. Ao longo de um ano, além de perder meu amigo cigarrinho de todas as horas, perdi, lentamente, todas as minhas calças jeans (o caso que contei no livro do Prata é verídico), todas as saias e vestidos. Muito? Não, uns cinco, seis quilos, o suficiente para me deixar arrasada e mal vestida.
Relutei uns seis meses para acreditar que aquilo estava acontecendo comigo, até o dia que a calça apertada passou a me machucar. Fazer o quê? Regime? Ginástica?
Regime eu faço na medida do possível, sempre. Que mulher que não faz? Pensei em começar uma ginástica também, mas achei que deveria ir com calma, pois tendo fumado tanto tempo, tive receio de ter um treco e cair dura na primeira corridinha. Achei que deveria deixar meu corpo, um corpo de fumante, se acostumar a ser um corpo não-fumante antes de exigir muito dele.
Olha que idéia ridícula para uma preguiçosa como eu.
Uma hora num deu mais. Tava me dando falta de ar para subir no andar de cima da casa, e, mesmo falando para mim mesma que corpo de mulher não é feito para fazer ginástica porque os peitos balançam muito, resolvi tomar uma atitude. Era bunda na cadeira, bunda no carro, bunda no sofá, mas tava tudo travando, desengrenado, eu com aquelas roupas apertadas, com aquela falta de ginástica, com aquela pele meio mole.
Tive a maior aflição, parecia que eu tinha um corpo desintegrado, com umas partes meio perdidas aqui e ali.
Um, dois e já. Comprei três calças um número maior, comprei umas batas indianas mais folgadas, um tênis e uma calça de ginástica. E sai pelas ruas para andar, andar, andar.
Tou toda dolorida.
Quer saber? Parar de fumar também dá isso: dor no corpo todinho.

um sábado, uma pizza


Foi há dois anos:
"Proteja-me do que eu quero", falou o Fernandinho no jantar.
Ele me disse que adorava essa frase. Eu imprimi e colei ao meu lado.
Pra me proteger - eu quero muitas frases.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Dogville, Michele e as casinhas de carvão


dogville I

Ontem assisti Dogville. Não vi no cinema, não sabia do que se tratava, e vi o filme como um cego que abre o olho e se depara com uma coisa inédita.
Bem. Tenho um certo receio de falar dos filmes que assisto. É que conheço tantos críticos, jornalistas e entendidos que sempre acho que minha opinião é meio boboca (... apesar de eu sempre ter uma, pois tá cheio de gente que nunca tem nenhuma, ou que usa opiniões alheias ou de jornais).
Acho que eu tenho opinião de "foco quebrado", ou de "orelha" de livro. É que sempre eu me interesso por alguns detalhes, pelo cantinho, pelo jeito da moça respirar, pela foto da orelha do livro, pela lembrança que me trouxe a cena menos interessante. Essas coisas.
Bem, sobre o Dogville, que tanto se falou.
Perdões, ML, JDR, LH e RD, mas vou dar aqui a minha humilde opinião.
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Impossível não gostar de um tema tão bacana como a psicanálise de um grupo e as reações desse grupo com a chegada de um intruso. Quem não tem medo da moça loira linda que chega para atrapalhar a estabilidade da vida medíocre que a gente leva no dia a dia? Quantas vezes, eu mesma, nos meus anos de "pântano pós filho", não me chafurdei pelos mesmos pensamentos maus que todos ali tinham? E não fazia maldades, inconscientes mais reais com tanta gente que me rodeava?
Ah, isso incomodou demais. Me deu raiva daquele filme. Pra que me lembrar disso? Para que trazer a tona o medo que temos de perder nossos lugares, medo que nos torna tão fracos e invejosos?
Saco de Dogville, pensei. E ainda tinham que colocar aquela voz monótona e sonífera falando sem parar?
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Mas que lembrei de uma coisa ótima (hoje eu estou falando muito da infancia, pensando bem). Lembrei do quintal da casa dos meus avós, no interior de SP, onde ficava a jaboticabeira do outro post.
Bem, passávamos as férias nesse quintal, cheio de árvores, com uma casinha com um tanque (chamávamos de "ranchinho") e com um quarto cheio de segredos lá no fundo. O chão do quintal, que antes era de terra, foi cimentado a mando do meu avô quando eu era pequena.
Minha avó adorava escrever nomes no cimento, perpetuando assim a familia na solidez do piso. A cada nascimento de um neto ela pegava um galho e escrevia os nomes de todos, com maridos e filhos. Tudo no chão, impresso, posto, nascido da terra. Túmulos de nascimentos, tumulos de vida.
No banheirinho do fundo existia um saco de estopa cheio de carvão. E é ai que começa o meu Dogville. Meu maior divertimento era pegar aqueles carvões e rabiscar o quintal todinho, junto com minha irmã e minhas primas. Faziamos cidades, com casas, ruas, florestas, montanhas, nas nossas tardes de férias. Entrávamos ali e brincávamos de viver. Respeitávamos as casas de todos, levávamos alguns móveis, abríamos portas, exatamente como no filme. E sobre as letras da minha avó, sobre os nossos próprios nomes.
Sei o que é o cenário desse filme. Olha, acredito em brincadeiras de crianças mais do que em críticas cheias de triquitraques. E essa "idéia" do Lars von Trier, tida como "sensacional", de desenhar as casas no chão, me pareceu pra lá de boba. Ora. Se nós esquecíamos da vida lá no quintal, nada mais certo que os atores se esquecerem das vidas deles lá no estúdio. É uma idéia legal, mas nada de excepcional.
Sobre a maldade? Sim, há maldade e há vingança no mundo. Muita. E tem gente que não se arrepende mesmo. Não há como julgar. As vezes acho que não somos só uma raça. Somos um monte de bichos que querem sobreviver, cada um com seus medos.
Ah, e o cachorro?
Existia a cachorrinha do meu avô, a Michele (isso lá é nome de cachorro?). Era uma cadelinha vira lata, meio pequinesa, que entrava no meio do nosso Dogville de casinhas de carvão como uma cadela-fantasma: atravessava as paredes sob nossos protestos, desrespeitando todo o nosso "filme".
- Pára, Michéleee... sai daí!
Mas um dia meu avô ficou cego, e foi a Michele que passou a o guiar pelas ruas, sem entrar em nenhuma parede. Nenhuminha. Um dia ela morreu, e também foi enterrada no chão cimentado do quintal, com seu nome.
Aqui jaz a Michele, minha avó escreveu, sem citar que ela era cachorra...


dogville II

as jabuticabas do blog



Era isso que eu queria postar, um monte de jabuticaba no pé, como as da minha infância no interior, na casa dos meus avós.
Escrevi uma crônica para o site agora, falando de jabuticabas e blogs. A crônica é sobre blogs, mas de manhã, durante o banho, começei a pensar em jabuticabas e a associação ficou perfeita. Eu não podia esquecer das jabuticabas, dai me pus a escrever "jabuticaba" no vidro do box, todo vaporado. Depois escrevi no espelho "compatilhar gratuitamente".
Jabuticaba.
Compartilhar gratuitamente.
Isso mesmo.
Depois coloco a crônica aqui. Ficou engraçada.

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

escrúpulos


ah, é apenas o meu mundo...

O Chico, meu filho mais velho, quando tinha uns... onze anos, me perguntou, seríssimo:
- Ô mãe. O que são “escrúpulos”?
Quando vou começar a responder, o João, que na época tinha seis, se adiantou:
- Você não sabe, Kiko?
Todo mundo olha para ele. Ele continua.
- Eu tenho alguns, mas a Luciana tem muito mais do que eu. Um montão de escrúpulos.
- Como assim, ô Joãozinho - eu indaguei - Você tem um monte de... escrúpulos?
- Tenho sim - ele disse, balançando a cabeça afirmativamente - Aqui, olha. Nesse joelho.
E ele calmamente exibe umas casquinhas de ferida, já meio secas.
- Olha aqui. Escrúpulos. A Luciana tem muito mais que eu porque ela caiu da bicicleta fazendo acrobacia. Vocês não sabe, Kiko? Escrúpulo é isso aqui, olha. Passa a mão...

caramba, como chove!


o melhor presente? um email só pra gente.

a sky e o circo


Chagall - Le Cirque - Plate II

Vez ou outra tenho que falar de arquitetura, de obra e trabalho. Afinal, trabalho com isso o dia todo. Mas impossível pensar só nisso: a vida é muito maior.
Fui correndo para a casa do F., para resolver mais um problema de instalações: esse meu cliente adora equipamentos eletrônicos. Compra todos que existem, tem consultoria com uns americanos malucos e liga tudo com tudo: computador com som com telefone com tv com dvd com receiver com luz com lutron com cortina com creston com antena sky com teve a cabo com servidor e com central telefone. Acho que um dia ele vai ligar tudo isso com a geladeira, o fogão e as máquinas de lavar e secar, que (sério) são mais modernas e cheias de recurso que o meu pobre computador.
O problema é quando aparece um aparelho novo na casa. Nessas horas ele me convoca para ajudar, e é preciso chamar uma turma de 10 pessoas, desmontar armários, reenfiar os cabos, refazer instalações e reprogramar tudo. E foi isso que houve: apareceu um novo aparelho da Sky+.
Depois de uns 20 telefonemas, organizei a "festa" e fui encontrar com minha turma para resolver o problema. Fuxica aqui, olha em planta, abre tomada, entra dentro de estante, abaixa debaixo da mesa, resolve por onde vamos enfiar, ufa, enfim, resolvido. Eu estava ajoelhada ao lado do eletricista. "Bom, é isso", ele me disse, "vamos agora começar o trabalho". Eu suspirei e me sentei no chão daquela sala de TV para acompanhar a obra. Foi quando olhei para o lado.
Lá estava ele, no chão, encostado na parede.
O quadro do Chagall.
Era um verdadeiro Chagall, ali, parado ao meu lado, e ele quase escapou aos meus olhos por causa da quantidade de fios. Esse meu cliente coleciona obras de arte, a casa dele parece uma galeria. Era um quadro azul, grande, em papel, parecia um gouache. "Le Cirque", dizia uma etiqueta dourada, abaixo da pintura.
Eu estava muito perto dele, daquele enorme universo mágico criado por um homem no começo do século. Havia muita gente naquele quadro, muita gente dentro do picadeiro, artistas a cavalo, um apresentador, bailarinas, malabaristas e palhaços. Era deslumbrante. E todos, literalmente todos, voando pelo espaço da tela. Ninguém, abolutamente ninguém criado por aquele homem tinha os pés no chão.
Isso que ficou na minha cabeça.
O vôo.
Ah. Para criar um circo desses, a gente precisa saber voar, querer voar e viver voando. Só assim podemos criar voando.
Olhei para os lados, para o meu circo, cheio de eletricistas, instaladores, marceneiros. Estava a maior bagunça no apartamento. Tive vontade de rir.
Eles não sabem, mas subitamente vi todos voando ali também, naquele sky+. A gente se vira como pode, não?

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

mais lembranças da festa do parmesão


êêê isaura!

hipa gargalhando, mais uma vez

um brinde a todos nós, JR

Mona e seus presentes

Ganhei de presente da Mônica um CD com todas as fotos da festa de 20 anos da FAU, inclusive as recusadas, onde as pessoas estavam meio tortinhas, de olhos fechados ou borradas. Adorei o CD. É fantástico, ainda mais para uma moça-sem-máquina como eu. Desde o dia do assalto que eu, uma grande clicadora de cenas cotidianas, não clico nada por falta de máquina.
E, tá, eu ainda não comprei um celular com máquina fotográfica, apesar da crônica a respeito e da vontade.
Adoro foto meio errada. Principamente porque eu sempre saio errada em foto. Dificil eu não estar de olho fechado, torta, fazendo careta ou cena. Quando eu era pequena, minha mãe adorava usar o termo "fotogênica". Ela sempre falava:
- Não, não tira foto minha que eu não sou fotogênica!
Como se na hora do clic ela mudasse de cor, ou tivesse algum tipo de alergia a foto e começasse a se coçar... Nunca acreditei e nem entendi esse negócio de fotogenia. Melhor a gente encarar a realidade, sabe? Acho que, se minhas fotos saem tortas, eu devia estar bem torta naquela hora; se eu saio de olhos fechados, é melhor abrir bem o olho; e devo ser a maior careteira do mundo, porque sempre estou com a maior cara exagerada.
Que fotogênia que nada: melhor eu parar de matraquear e me comportar.
Adorei essas 3 fotos ai em cima. São lindas, querida Mona, e são as escolhidas de hoje.
1. A Isaura, se desintegrando de alegria e estabanamento,
2. Franka de perfil, pensativa, e Hipa gargalhando,
3. E um belíssimo recorte num JR fazendo um brinde a todos nós.

o banheiro da arquiteta lucia (eu!)


Foi assim que muita coisa começou na minha vida: na coluna do Mário Prata, em 2001, com a crônica dos banheiros. Para quem quiser lembrar, ai vai de novo a famosa crônica do banheiro, na íntegra, postada pela autora...

O Estado de São Paulo, 25 de julho de 2001, Mário Prata
O banheiro da arquiteta lucia

Há duas semanas, escrevi aqui sobre banheiros e arquitetas. Pois uma arquiteta, chamada Lúcia Carvalho, me mandou o texto abaixo. Na minha crônica eu dizia que gostaria de ser arquiteto, se não fosse escritor. Pois a Lúcia só não será escritora se não quiser.
"Eu li tua matéria sobre banheiros. Este assunto me intriga, também sou arquiteta e fiquei pensando um pouco mais sobre isso e resolvi te contar mais umas coisas sobre este lugar completamente clandestino e indiscutível.
Pensa bem. Existe um grande respeito das pessoas por duas situações. Uma delas é o banheiro. É assim. Cadê o fulano? Tá no banheiro. Pronto. Ninguém fala mais nada, ninguém bate na porta, ninguém atrapalha. Claro que, se o tal fulano demora, as pessoas riem um pouco, mas um homem no banheiro é digno de respeito total. É a mesma coisa quando alguém vai para a Europa.
Ninguém discute, sempre te cobram, te acham em qualquer canto aqui neste país, te solicitam o dia inteirinho com trabalhos para ontem, sempre, mas quando você fala que não pode porque vai para fora do país, todo mundo aceita, resignado, sensato, e você fica importante. Estar na Europa e estar no banheiro, quase a mesma coisa.
Mas o assunto, o assunto são os banheiros que hoje em dia na nossa profissão são talvez a parte mais importante. Horas e horas de reunião com o cliente discutindo cada detalhezinho deste lugar. Posso estar exagerando, mas cada vez mais tem acontecido assim. Não sei o que houve com as pessoas, sinceramente. Quando eu era menina, a gente tinha só um banheiro em casa, fora o da empregada. Quase todas as casas eram assim, o banheiro da família, o banheiro da empregada. A gente, às vezes, até usava o banheiro da empregada quando precisava. Depois inventaram que cada casa, apartamento, por mais "ovo" que fosse, tinha que ter um lavabo. Como se as pessoas que vão te visitar não pudessem ver o teu banheiro, como se fosse proibido, tivesse segredos por lá.
Hoje em dia, quando uma casa não tem lavabo, eu fico até envergonhada. É tão raro entrar no banheiro dos outros que inconscientemente eu acho aquilo meio enigmático, misterioso, fico verificando os produtos de beleza, os shampoos, os armários, a marca da toalha. Acho que para ver se é igual, pior ou melhor que as nossas, que também ninguém deve ver. Não tem por quê, mas a gente acaba olhando mesmo. Quando eu me formei, é, foi mais ou menos nesta época, que começou a aumentar. O negócio de "quarto suíte". Quarto com banheiro, individual, cada um tem de ter o seu, nem que seja um bebezinho. Todo mundo queria o seu banheiro próprio, ninguém ia saber do seu cheiro, da sua bagunça, ninguém vai usar sua pasta, nada. Era só seu e inventaram que aquilo era o máximo. A maioria das casas de hoje em dia tem mais privada do que gente morando, pode reparar.
Mas tinha um problema ainda naquela época. O casal. O casal tinha de dividir o banheiro, e geralmente "o casal" significa os "donos da casa", e os donos da casa, bem eles, os mais importantes, eles tinham de dividir o banheiro.
Pimba! Tiveram uma idéia. O banheiro do casal ia ser maiorzão, bem grande mesmo, com duas pias, uma para cada um. Foi assim por muito tempo, era um grande luxo ter duas pias, uma do ladinho da outra. Mas não estava bom, tem casal que não é tão desencanado que um escova o dente e o outro usa a privada, assim junto. Resolveram (acho que na verdade quem resolve e dá as idéias são mesmo os arquitetos, nós, infelizmente) que era melhor então separar as duas pias das privadas e bidês e chuveiros, começaram a parecer umas cabininhas com o vaso, bidê (esse então dá o maior assunto em reunião...) e chuveiro longe das pias.
Mas um dia acharam que era melhor cada um ter o próprio banheiro, separado.
Olha os prédios de luxo de hoje como são. Tem o banheiro da mulher, esse geralmente tem banheira, tem cara de mulher, mármore rosa, muito espelho, essas coisas, e do marido, austero, clássico, menorzinho, mas separado. Na verdade, acho que a gente quando vai projetar para uma família a gente quase que só faz banheiro. É uma quantidade sem fim, imensa, estúpida. Se procriaram. Agora até deixam de ser banheiros, são "salas de banho". Pois é.
Nas reformas então, nem se fala, a maioria só quer mexer nos banheiros. Toda vez é assim: a gente vai na reunião com o casal, moderninho, filhos, o cara já vai falando: olha, nós queremos reformar o apartamento/casa, a reforma é a seguinte: queremos fazer um outro banheiro para nós (a mulher já vem nesta hora com um monte de revista recortada), queremos fazer outro banheiro para as meninas (mais revista), queremos um banheiro para a babá, mas precisamos muito mesmo de um para o motorista e um para o guarda na guarita nova, e, claro, queremos reformar o lavabo (mais revista e o cara já fica bravo com a mulher) e reformar os outros, antigos. Só banheiro? E o resto da casa, eu pergunto? Só banheiro, o resto da casa tá ótimo, ele fala. Quando eles acabam de falar, já tem de comprar pelo menos umas setes privadas, cinco bidês, um monte de cubas, cada uma de um jeito, e chuveiros, e aquele monte de revista me olhando.
Somos agora arquitetos higiênicos, é um grande símbolo de status ter privadas em excesso, vai entender... O assunto dentro do mundo dos arquitetos vai crescendo, é uma maluquice, não acaba nunca, as casas daqui a pouco serão uns banheirões com umas salinhas adjacentes. E num outro dia dei até entrevista para uma dessas revistas, só pedi para não tirar foto, credo.
Mas o pior, o pior é que as pessoas nunca experimentam antes, entende?
Ninguém compra privada e bidê sentando neles, eu não entendo por quê.
Deveria sentar, claro, verificar se é cômoda, se é alta, baixa, fina, se o posicionamento das pernas (isso no caso dos homens, em pé) é bom, essas coisas. Mas ninguém faz, também, pensa bem, fazem uma lojas lindas de banheiro, todas chiques, brilhantes, parecem o palácio das mijadas (palavrinha mais feia, perdões), colocam (literalmente) os vasos sanitários como tronos, quem tem coragem de posar de rei na frente da vendedora-simpática-de-preto?"

Olha o perigo

Ontem a noite, meu amigo Charles explicou (e mostrou, na pré estréia da montagem do filme da festa que ele exibiu), que nas filmagens com infra vermelho, a tintura de cabelo muda de cor e fica branquinha, braquinha.
É a maior bandeira. Dá para perceber direitinho quem pinta e quem não pinta o cabelo.
O meu tava normal (ufa!). Mas meninas, olha o perigo.
Fujam das câmeras.

terça-feira, 9 de novembro de 2004

Meninos e camisinhas


corra franka, corra!

Pobre Luciana!


Eu, a mãe dessa casa, estava trabalhando aqui no escritório no início da tarde de hoje. Chega o Chico e o Juliano, um amigo da classe dele. Os dois tem quinze anos e aquelas vozes grossas.
- Falaí, mamita. O Juliano veio aqui porque a gente tem um trabalho de biologia para fazer. É um tipo uma experiência.
- Tá bom, filho. Legal. Já almoçaram?
- Já, fica fria. Tem mais uma amiga nossa que também vem daqui, a Luciana. Ela também é da equipe. Você não conhece.
Os dois subiram para o quarto carregando um monte de tralha: uns pedaços de isopor, cartolinas, papéis, saquinhos, plantas, sementes e outros materiais. Depois de mais ou menos uns vinte minutos, os dois batem na minha porta.
- Mamita...
- Fala, filho.
- A gente vai sair um pouquinho e já volta. A gente precisa comprar uma coisa coisa no supermercado.
Eu olhei, curiosa. Ele continuou explicando.
- Temos que comprar camisinhas, ô mamita - E ele me olhou sério - Para a experiência, você sabe.
Eu não falei nada. Ele pigarreou, seríssimo, e continuou.
- Rammm... e, se a Luciana chegar, pede para ela subir e esperar a gente lá no quarto, tá? Fala que a gente foi só até ali e já volta.
- Tá filho. Se a Luciana chegar eu aviso: "Oi Luciana, olha, sobe lá no quarto do Chico e espera um minuto, que ele foi só comprar uma camisinha e já vem". É isso? - perguntei, rindo.
- Ah, num me enche, mamita. Tchau.
***



sobre o messenger

Cadê as regras para a gente usar o messenger???
Assim como na adolescência tínhamos crises de indentidade, não sabíamos como nos comportar nos locais publicos e festas, não sabíamos como abordar os outros e tínhamos que aprender as regras dos grupos, agora passamos pelas mesmas questões no mundo virtual.
Quanto aos emails, acho que todos aprendemos que não podemos escrever muito, nem mandar muito spam e nem gritar. Mas o messenger, que é mil vezes melhor que email e que vai acabar com esse antiquado método de envio de mensagens, ainda não tem muita regra, e se eu não estabelecer alguma minha vida vai ficar cada vez mais zoneada.
É maravilhoso saber quem está on-line e quem não está: isso soluciona muito o problema da solidão dos que trabalham a noite (como eu). É confortante estar exausto e cansado à uma da manhã e ver um amigo trabalhando, como você.
E é ótimo receber "ois" e "olás" ao longo do dia, inesperadamente. É como se você encontrasse a pessoa na rua. Oi, tudo bem? Bom dia!
Mas o problema é que algumas pessoas não conseguem encerrar o diabo do diálogo. E isso tem se tornado cada vez mais comum, pelo menos comigo. Você só vai dar um alô e tem que ficar na maior conversa mole.
Muitas vezes, é coisa de trabalho, ou um assunto importante, você conversa, esclarece e resolve que vai desligar. Depois que você já despediu e já falou tchau, a pessoa continua a falar. Você tenta dar um toque, mas lá vem aquele tururu de volta. Você fala tchau, e lá vem tururu. Mil vezes. Tururu. Mais um tchau. Tururu. Figurinha de beijo. Tururu. Uma flor. Tururu. Um smile. Tururu. Tchau. Tururu. Bacccio, kisses, bj, té, fui, tiau... Passa um tempinho, lá vem.
Tururu.
Ô saco.
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Isso é um aviso a todos os meus amigos. Eu, franka, não sou uma dessas pessoas.
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Declaro que a partir de hoje, a franka será uma moça-contato de messenger de um único "tchau". Só me despedirei uma vez, e depois dessa vez, não voltarei à caixinha de mensagem.
Ou, se eu entrar apenas para dar um bom dia, falarei um bom dia e depois e falarei tchau.
Darei um oi e falarei tchau.
Podem me testar.
Tururu, coraçãozinho a todos.
Um beijo.
Um tchau.

Cabritinhos e cabritinhas


pobre sementim...

Hahaha, de um dia para outro a novela II da confraria do queijo parmesão virou a maior bagunça. Agora, olha que divertido, somos 3 autores!
Juro!

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

O livro-crônica-presente do Edu


um grande presente que eu ganhei do Edu
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Passei uma grande parte da manhã do domingo me deliciando com o livro que eu ganhei de presente do Edu. Depois de olhar, olhar de novo com o Chico e olhar de novo, cheguei a conclusão que o Lartigue era nada mais, nada menos que um... BLOGUEIRO! É, é isso mesmo.
O livro tem um quê de crônica, de tirar poesia do cotidiano, de falar fácil com as imagens, de achar "graça nas coisas que não tem graça nenhuma", como diz a Silvia, minha melhor amiga.
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Acho que ele via a fotografia como eu vejo a literatura: como quem cata pequenas pedrinhas, folhas e flores ao longo dos dias, na rua que você anda, no seu caminho, no meio da tua vida; e faz delas a mágica e a necessidade da existência.
Apenas isso e tudo isso.
Tá meio lispectoriano esse post, mas é assim que eu vi as fotos desse homem que, em 1905, clicava sua familia, sua prima, seus pais e seu quarto.
Cada foto é uma cerimônia, dedicada à sua familia e ao seu cotidiano. E em toda cerimônia clicada com amor as fotos ficam para sempre.
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Agora, é necessário colocar o Rilke. Afinal, foi assim que tudo começou na minha vida literária:
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“Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, ninguém. Não há senão um caminho.Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza - relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente.”
R. M. Rilke, "Cartas a um jovem poeta"
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Legal, não é? E aqui embaixo vai a foto da prima saltando, voando, sem pensar no enorme tombo que vai levar.

é... o que a gente mais precisa é dar uns pulos assim.

CATWOMAN


yeeeesssss!

hehehe, no final das contas, eu sempre quis ser a mulher gato!

Os Dípticos


os dípticos

Segunda feira de manhã. Despencou uma das persianas daqui do escritório. São duas peças para completar a janela, e uma delas veio abaixo na sexta. Como a janela fica atrás de mim, agora a luz do dia faz reflexo na tela e eu quase não enxergo. A tarde as coisas vão piorar, pois virá o sol... Bem. Pelo menos o que vejo aqui na frente, junto com as letras, são plantas e um tom de amarelo bonito.
(Reinaldo! Help!)
Achei aqui na mesa o caderninho dos "dípticos", meu e da Silvia. Peguei para mostrar para alguém no sábado e esqueci sobre a mesa. É um caderno pequeno, onde em casa página existe dois desenhos, um meu e um dela. Eu a desenhei e ela me desenhou, simultaneamente, durante alguns meses, em encontros regados a cerveja e cigarro na área de serviço aqui de casa (um altelier improvisado, cheio de roupas e baldes), e depois juntamos os pares, fotografamos e montamos o caderno.
É maravilhoso.
São cinquenta desenhos-pares, que chamamos de dípticos, que se completam e que conversam como nós conversamos naquela noites de 2001. Falávamos das cores, dos abismos, das risadas, das rosas, das pedras, dos sais e dos desejos - tudo, menos das agruras do cotidiano.
O caderno, todo preto e branco, foi a conclusão da nossa conversa. Selamos mais uma enorme brincadeira, entremeamos os desenhos com algumas frases e pensamentos, fizemos apenas 3 exemplares (foi um tipo de numerologia instintiva) e guardamos essa parte da vida.
*

domingo, 7 de novembro de 2004

E é esse é o vaso da minha amiga Bê


vê? tá todo escrito! o vaso tem nele um conto inteirinho da Clarice Lispector, chamado "as águas do mar"!

Tortinhas


hipa, franka e bê, tortinhas.
*
Oquei, oquei, a gente tava meio tortinha sim. Em todos os sentidos. Mas qual o problema? Era um sábado, a gente se conhece há anos, e o dia estava divertido e engraçado.
Fiquei bastante chocada com o presente da Bê: aquele enorme vaso que contém aquele enorme conto da Clarice Lispector. Um conto num vaso!!! A Bê sempre me surpreende: o vaso, o conto, 56 rosas (quer coisa mais Lispectoriana?), as letras escritas (perfeitinhas!), a área do cone toda completa, o começo que se encosta (delicadamente) no final do conto.
Um começo se se encostar no final é demais, né? Não que o "meio" não interesse, não é isso. É apenas para lembrar que temos que tomar muito CUIDADO: não podemos nos perder no caminho, Silvia Bê, não podemos. O fim é o objetivo, o começo é o desejo, e o meio é o desfrute, o gozo, a alegria. E ai, nesse meio, que sempre está o perigo.
*
Iii. Parece complicado, mas não é não. Nada é complicado depois que você entende os conflitos no Oriente Médio. E talvez as coisas se simplifiquem depois que eu colocar uma foto do maravilhoso vaso que a Bê me deu.
*
Bê. Sei que existem significados que a gente só descobre anos depois. Beijo procê.
*

O cozido de sábado!


todo mundo rindo, vê?

Ontem, sábado, o Zé me deu de presente um almoço delicioso, feito por ele. E o dia foi ainda mais gostoso quando vieram muitos amigos aqui!

Uma tarde muito feliz, gente.
Com a maravilhoooosa comida do Meu Zé;
Com as 56 rosas brancas da Silvia, no vaso-conto-Clarice Lispector;
Com o parabéns-seios-de-chantili da Monica;
Com mais autógrafos e aquele monte de personagens;
Com as frases "Tucumã" com duplo sentido do Passarinho e suas risadas;
Com um monte de vinho Ribolla e Casillero do Diablo;
Com o sorriso da pequena bruxinha Dora Gemada adorando Nemo;
Com a piada gargalhada sem meio nem fim do Zé da Carmem;
Com o livro de fotos-crônicas do Edu e aquela moça saltando da escada;
Com o ácido sulfurico do Francisco Primo e os 14 kgs de mercurio da Monica;
Com a simpatia do Editore e suas danças de salão com o Mário no passado;
Com uma orquídea única da Maria Helena, florida como nunca;
Com a piratarias da nossa Drake e seu filho Matias;
Com o querido Dok, que prometeu escrever os dois novos capitulos da novela (!!!);
Com a nossa Condessa, encontrada, achada, e presente, enfim!;
Com a Maina, o Mário, Caconde e as mandiocas todas;
Com o Fernandinho, suas bençãos, sua flor e a nossa liberdade;
Com a Lu, o disco do Djavan e tudo sobre agentes secretas;
Com a Renata e o livro de crônicas maravilhoso;
Com a Carmem, seus verdes olhos e um disco delicioso;
Com meus filhos todos, Chico, Nana, Juquinha, minhas paixões;
Com a ajuda da Maria e suas meninas, com muita risada, gargalhada e carinho.
Brigada, gente. Brigada, Zé.
*

o cozido do zé, parte 1... hummm...

o cozido do zé, parte 2... hummmhummm...

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

Eco



Quem gosta de abismos, tem que ter asas.

BARÁ III diz:

Se Adoniran Barbosa compusesse o "Trem das Onze" hoje, na era do telemarketing de manual, a canção ficaria assim:
"Não posso estar ficando
Nem mais um minuto com você
Vou estar sentindo muito, amor
Mas não vai estar podendo ser
Moro em Jaçanã
Se eu estiver perdendo este trem
Que vai estar saindo agora, às 11 horas
Só amanhã de manhã."
Da coluna do Arnaldo Bloch, publicada hoje no jornal O Globo

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

um dia cheio de histórias de cachorros


o mamu, filho da bela e do bug

Cheguei no escritório final da tarde, e, ao abrir a caixa de mensagens, achei mais de trinta mensagens sobre cachorros. Era uma conversa enorme entre meus amigos do grupo da FAU, e como nesse grupo todos falam com todos, a cachorrada veio a tona.
Para ilustrar esse post, escolhi essa foto do Mamu, um dos filhos da Bela, de minha autoria. Tirei essa foto quando ele tinha um mês. Um dia achei, achei bonitinha (pois ele está muito melancólico) e mandei para o Mário, o dono. O dono mandou minha foto para o concurso de fotos de "pets" da Folha de São Paulo. E não é que a minha foto ganhou o terceiro lugar? E foi publicada na revista?
Mais uma: franka, a também fotógrafa premiada.
Mas vamos falar de cães.
Tenho uma cachorra, a Bela. Eu não gostava muito dela quando ela veio morar aqui: além de dar o maior trabalho e ser hiperativa, ela era uma fêmea muito carente. Imagine uma "quase" quarenteen como eu, tendo que conviver com uma cadela carente dentro da mesma casa. Ela se arrastava aos pés de qualquer um, lambia os dedos de qualquer pedreiro de havaiana, implorava carinho e se humilhava. E gemia.
Ela se humilhava e gemia.
Ai que aflição.
Um dia o Zé declarou: devia ser falta de sexo. "A cadela precisa cruzar, gente", ele falou. E nessa mesma hora ele pegou os meninos e saiu em direção a pracinha, me dizendo que ia arrumar um marido para a Bela. Foi quando ele viu o Bug.
O Bug é um border collie lindão, com uma enorme franja na testa. Era o chefe da pracinha. O "maior roberto-carlos", descreveu o Zé quando chegou em casa, animado. Ele contou que viu o Bug e abordou o dono, sem mais nem menos.
- Escutaqui, tá afim de cruzar esse cachorro? Tenho uma pastora com boder collie em casa, é vira lata, mas é semi de raça e é linda.
Acho que ele se deu bem de cafetão, pois em menos de dez minutos apareceram aqui em casa o Bug e os donos. Tiramos até foto, o cachorro era premiado. Beleza canina. Traçou a Bela em questão de segundos, mas ficou lá dentro hoooras e emporcalhou meu quintal inteiro. Foi o festival do semem canino.
Dai a Bela ficou grávida. Mais essa. Se uma cachorra carente era dificil, imagina com filhotes, eu pensava. E nem grávida ela parou de se humilhar para qualquer humano.
Foi quando um dia, sem mais nem menos, a Bela deu cria. Sozinha. Caladinha. Sem falar para ninguém. Sem reclamar, sem resmungar, sem chorar, nada. Eu olhava aquilo, pasma. Eu, que só reclamava de filho essa época, fiquei olhando para ela de queixo caído.
Que heroína.
Como ela conseguia aquilo?
Passei a olhá-la com outros olhos. A respeitá-la. Que mulher, a Bela. Que mulher valente, corajosa, destemida. E que trouxa, que frouxa e resmungona, eu.
Como eu podia ser tão carente?
Que mãe incrível essa Bela. Passei a adorá-la.
Tudo pode mudar na vida.
Ah, atualmente estamos vivendo a maior crise aqui. O Zé acha que devemos cruzá-la de novo, mas a familia ainda não entrou num acordo quanto a questão da fidelidade canina: o Zé quer cruzar com um pastor lindo e preto que ele achou (já acertou até os detalhes com o dono), mas os meninos dizem que ela não pode trair o Bug de modo algum. Dizem que o Bug é o marido dela, e ficam indignados, raivosos.
- Pai! Não!
- Que horror!
- Queria que a mamãe tivesse um filho de cada um?
Enquanto isso aqui está ela, lambendo os pés de todo mundo.
Careeeeeeeeente como nunca.

Oi, Edu


itamambuca
Recebi uma mensagem divertida no Orkut. O Edu, meu amigo que se mudou pra Ubatuba, leu sobre a história do Paulo Autran aqui no blog e me escreveu.

"Que legal o Paulo Autran hein? Quando voce for da Academia Brasileira de Letras não esquece de me convidar para um chá. Me lembrou do Nelson Rodrigues, que quando leu a crítica do Manuel Bandeira achou que já podia morrer, e ja via no túmulo dele:
AQUI JAZ NELSON RODRIGUES,ELOGIADO POR MANUEL BANDEIRA.
Aliás, porque voce não escreve no Caderno Dois?"
Pois é, Edu. Posso mesmo colocar isso na minha lápide "Aqui jaz a Lucia Carvalho, elogiada pelo Paulo Autran", e isso, para uma candidata a dramaturga como eu é o auge. Resta agora representar a tal peça, o que, apesar de ser a parte mais complicada, é a que menos me aflige. Como a peça está escrita e posta aqui ao lado, até impressa e encadernada, o tempo muda. Ela, como tantas outras histórias, passa a ter a uma espécie de vida própria. Não sei se você me entende. é que ela pode esperar a sua hora de ser encenada, e para ser encenada, acho que qualquer texto precisa de um preparo. Assim, o velho Barabai esperará, a Ana Lídia esperará, e a autora, a lúcia, também esperará mais um pouco. O texto é bom, eu sei, e esse descanso para as palavras é importante, até para ser revisado novamente com olhos um pouco mais críticos.
Cortar, cortar, cortar, me fala o maqui-prata.
Cortar, cortar, cortar, eu obedeço.
Quanto ao Caderno Dois, Edu, seria um sonho. Mas só depois que eu souber cortar muuuito bem...
*

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

as cerejas da sheila


as cerejas da sheila

De uns tempos para cá, tenho ficado estafada a cada vez que me sento em frente ao computador. É que além de trabalhar, escrever as crônicas, escrever a novela da Isaura, responder todos os emails, escrever a peça de teatro nova e escrever aquela avalanche de idéias diárias nesse blog, ainda invento de fuxicar o Orkut (que não gosto muito), o Multiply (que eu adoro de paixão) e os Blogs alheios.
Acabei caindo, não sei como (sempre me esqueço de perceber como cheguei nos locais por onde ando no mundo virtual. Isso me lembra uma história infantil... seria João& Maria?), num blog para lá de legal e interessante chamado "Quando, Onde, Como", da Sheila. Frases deliciosas, pequenos comentários sobre arte e sobre a vida e idéias divinas.
Ah, como é bom encontrar pessoas semelhantes no meio do nada. Apenas uma mulher como eu, casada e mãe, que pensa coisas e se maravilha com o mundo. Deixei uma mensagenzinha para ela, e hoje, quando voltei lá, ela tinha postado essas incríveis cerejas para mim.
(nossa, hoje eu estou a rainha dos adjetivos exclamativos)
Peguei e trouxe para cá, pois encarei como um presente.
Um presentão!
Eram para mim, não eram, Sheila?
*

É esse o livro dos milionários e os macacos


História Natural dos Ricos, Richard Coniff


"O jornalista Richard Conniff passou os 20 últimos anos transitando entre dois mundos. Ora estava em Botsuana observando como se comportavam os babuínos e escrevendo para a revista Natural Geographics, ora transitava nas mansões de ricos e famosos para fazer reportagens da Architectural Digest. Nesse vai e vem, algumas familiaridades entre esses dois grupos começaram a intrigar Conniff. O comportamento dos nativos de Mônaco, por exemplo, era tão exótico como os de qualquer outra tribo montanhesa. “Assim comecei a me perguntar se não seria possível pensar nos ricos sob um novo prisma – ou seja, como animais”, escreve. Surgiu assim o livro “A História Natural dos Ricos” onde Conniff aplica estudos sobre a teoria evolutiva para entender os costumes dos abastados. Com a simplicidade do jornalista experiente e sem querer fazer uma tese sobre o tema, o autor prende a atenção do leitor a cada página, reproduzindo costumes e diálogos que, como ele próprio define, descambam muitas vezes para o surrealismo. Como diz o autor: “quer eles queiram, quer não, a dinâmica da riqueza invariavelmente os separa das pessoas comuns”. E como. "

O Poderoso Chefão


os dvds do poderoso chefão e o feriado de finados


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Passei o feriado de finados assistindo O Poderoso Chefão. Fiquei totalmente obcecada pelo filme e pelos personagens. Só consegui assistir aos dois primeiros, e mal posso esperar até o sábado que vem quando vou mergulhar no terceiro. Depois acho que vou ver de novo. E depois mais uma vez, tudo isso para tentar entender como funciona o poder de um homem sobre outros.
Ver esse filme logo depois de acabar de ler "A história natural dos ricos" foi impressionante. O livro traça um paralelo muito maluco entre a vida dos multi-milionários e os machos alfa dos macacos. Segundo o autor, um jornalista, existem diversas semelhanças (fisicas e de atitude) entre ambos os líderes. Claro que nos humanos a coisa é extremamente mais complexa, mas é interessante pensar a existência com o foco na relação entre homens com o dinheiro e sem dinheiro.
A bajulação, a hierarquia, as trapaças, as organizações familiares e até os urros leoninos dos milionários (que eu conheço muito bem).
Foi ai que entreou o Dom Corleone, bem depois que eu acabei e fechei o livro dos milionários e dos macacos.
Além do Brando ser maravilhoso, a idéia do mal me fascina. Acho que fascina a todos. E vê-la assim, em estado selvagem e puro, é deslumbrante.
Pobres mulheres. A nós nos resta a conformidade diante do cotidiano. Não é reclamação não. Mas jamais conseguiremos mudar.
Existe uma cena onde o Al Pacino entra em casa, e dentro de um completo silêncio, vê sua mulher costurando na máquina de costura. Apenas o barulho da máquina e ele olhando para ela. O homem matando, tramando, vingando, esfaqueando, atirando, colocando a honra acima de tudo.
E a mulher costurando.
Costurando.
Costurando.
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terça-feira, 2 de novembro de 2004

A festa que a aniversariante não foi


Ô Monica, mil vezes obrigada!

Magoo, saudades imensas.

Hahaha, valeu, Marqueta!

Putz, olha que bolo mais bárbaro (bárbaro é pouco...um bolo peitos como esse é demais pra minha Frnaka...) meus queridos fizeram para mim e para a maína e eu não fui na festa... ô tristeza... como é chato ficar doente.