terça-feira, 15 de setembro de 2015

passárgada

Fim de tarde, liga a minha irmã. Vocês tem irmã? Eu tenho uma, única, e não sei o que eu seria sem ela, sem as longas conversas dela por telefone quase todo dia. Eu não riria tanto, eu não teria tanto assunto, eu não seria tão resolvida.
- Ângela, tou mals. Escrevi ontem um inocente post no face sobre a lei que mudou a velocidade dos carros na cidade. Uma coisa que a gente conversou outro dia, que as pessoas tão mais calmas.
- Sim, tem até aquela amiga minha que disse que tá adorando voltar do sítio pra São Paulo, pois a marginal tá lenta quando ela chega, que o trânsito feroz não estraga o clima do campo que vem com ela.
- Pois é, mas teve um monte de gente que me criticou, pois acham que eu defender a mudança da velocidade é defender o PT. Meu post não era nada de política, era sobre desestressar, poxa.
- Eu vi, Lú. Nossa, você apoiou a atitude do prefeito e imediatamente virou maconheira, louca e cheiradora de lixo. A gente não pode abrir a boca no facebook e falar um “a” do PT que você vira o PT inteiro, você passa a ser a maior corrupta e todos passam a te odiar.
Tenho um amigo, que não preciso falar o nome dele aqui, que sempre comenta que eu, Lúcia, também conhecida como Franka, vivo na “Frankolândia”. Que eu só falo de assuntos que não causam polêmica al-gu-ma. Eu sei, eu escrevo umas coisas bobas de shampoos, de gente que sai lavando louça, de roupa, de celular bebezinho. Mas querido amigo, olha o que acontece quando eu apenas cito algo que um político fez. O simples fato de eu apoiar uma atitude do Haddad me transformou em maconheira, louca que preciso mudar de psiquiatra e cheiradora de lixo. Logo eu, uma senhora, uma mãe de família, sem muita grana, dona de um carro popular, honesta, limpinha. Hahaha. Gente. O que o fato de eu apoiar a velocidade lenta dos carros tem a ver com maconha? Com psiquiatra? Com o PT, afinal? Quer saber? Hoje em dia, em tempos de facebook, em tempos de comunicação rápida e acesso fácil às informações de todo mundo, é melhor não se meter em certos assuntos.
Vou é voltar pra Passárgada, digo, Frankolândia, hermana. Lá sou mais feliz. E gente, de boa, todo mundo perdoado, sem stress, calma, vamos todos a quarenta por hora, fazer o que.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

calma, franka, calma...

Já viu gente mudar de opinião? Eu mudo sempre e confesso.
Tudo começou quando mudaram a velocidade das marginais. Na primeira vez que sai de carro, para não ficar irritada, nervosa e ansiosa, evitei a Marginal Pinheiros e peguei a Faria Lima, e com ela, lá veio o maior trânsito, o que me deixou muito, mas muito mais irritada, nervosa e ansiosa.
De que adianta negar a realidade, pensei, pegando a fatídica via expressa marginal lesma no segundo dia. No começo, como todos, entrei na marginalzinha e estressei. Xinguei o tadinho do prefeito-que-eu-gosto, confesso, com aquela vontade de viciada de apertar o pé até o talo. Falei um monte sozinha na irritante marcha vagarosa, colocando o pé no breque de dez em dez segundos.
“Pô, isso é insanooo!”, “é muuuito devagar!”, “que saaaco, parece que tou de ré!”.
Semana seguinte, estressei igual nas ruas aqui perto, que viraram todas vias de cinquenta por hora e com lugares a quarenta.
Aaaaaaa!
Sessenta. Cinquenta. Quarenta. Dai o que virou um stress foi adivinhar a velocidade.
Mas adianta xingar? Adianta espernear? Não, resolvi, adotando o quarenta como velocidade padrão e que-se-dane. No primeiro dia, fiz de birra.
- Ah, é pra ser lenta? É? Então vou ser len-ta mês-mo - eu me disse sozinha no carro – vou a qua-ren-ta seus i-di-o-tas – resmunguei, bufando de desespero. Afinal, pensa gente, tirei carta aos 18 e ando na velocidade que quero nessas vias há 34 anos.
Mas adianta xingar? Adianta espernear?
- Não, vou a quarenta em tudo então - pensei, resignada na segunda semana - então vou colocar uma música. Bem lenta. Abrir o vidro. Cantar, sei lá. Respirar fundo. Relaxar. Fú, um, fú, dois, fú, um, fú, dois. Quarenta, quarenta, quarenta não dá nem pra ultrapassar, que desgraça – suspirei eu no carro.
Na terceira semana que me toquei sobre o lance da ultrapassagem. Ultrapassar era necessário quando se podia correr mais que os lentos, mas agora não faz mais sentido algum. Antigamente lá estava você na rua, e na tua frente aparecia um guincho. Você nem pensava, já pegava a esquerda de qualquer modo para não ficar atrás daquela mega tartaruga. Antes eu não aguentava um minuto atrás do guincho ou de caminhão cheio de tijolo, mas agora que eles tão na velocidade máxima que eu posso andar, que adianta reclamar deles?
Outra coisa que me irritava também mudou. Gente, eu tenho um carro popular, que é 1.0, e que às vezes não anda muito rápido, digamos. E se para mim os guinchos e caminhões eram irritantes, EU era muito irritante para carros com um super motor, que sempre colavam em mim, buzinando e dando faróis. Será que eles não sentiam agora o mesmo que eu diante do guincho?
Minha alegria master veio quando me vi na marginalzinha emparelhada com dois carros, um de cada lado, eu no meio com meu carro popular 1.0 que não anda quase nada. Do meu lado esquerdo, na mesma velocidade que eu, um puuuutis Land Rover. Do lado direito, na mesma velocidade que eu, um... caminhão de lixo. Ou seja, isso que é igualdade. Que legal, pensei, ouvindo a musica lenta e respirando fundo. Achei aquela parelha de carros um empate técnico, motoristas e carros sem diferença de classes, ops, digo, de velocímetros.
Que adianta hoje em São Paulo você ter um carro com um motor 2.0? Nada, somos todos iguais diante da velocidade permitida. Igualdade já. Nós três, eu, a mulher da Land Rover e o caminhão de lixo na mesma velocidade dizia tudo.
Hoje fui no meu psiquiatra que cuida do meu stress, e comentei com ele que a melhor coisa da redução da velocidade da cidade, melhor do que a falta de transito e a redução dos acidentes é essa. As pessoas são obrigadas a desestressar, gente. É ótimo não ter que ultrapassar, não ter que ser “o mais rápido”, é ótimo andarmos devagar. Não aguenta? Pega um metrô. Vai a pé. O prefeito tá ensinando a gente a não ser mais apressadinhos, isso é o mais importante pra nossa saúde.
Portanto, mudei de opinião. Se tem uma coisa que tou adorando é esse limite de velocidade de São Paulo que o Haddad fez. Adorando, não, mais que isso. Amando. Isso ai Haddad. Vamos acalmar o povo de São Paulo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

fim de festa

Gente, perceberam uma coisa? Quietinhos, quietinhos, sem nenhum alarde, to-dos os salões de festas dos prédios de São Paulo viraram salões de fitness. Raríssimo achar hoje um que não tenha mudado de gênero, grau e uso. Se fizessem uma lei acho que não conseguiriam tantas adesões.

Quem diria que a melhor coisa para você antigamente era ter um grande salão para dar festas, que esse era seu sonho de consumo. Mas era. Ter um grande salão, com um espaço que você não tinha na sua casa – essa obviamente a razão do salão – onde você podia convidar um batalhão de amigos, além da capacidade do seu apartamento, não pagar por isso e não usar banheiro e nem cozinha da sua casa. Um lugar de festa é um lugar de alegria, não é esse o significado de festa? Então era importante você ter um lugar comunitário de alegria, de festejos, de comemoração. Mas pouco a pouco os salões entraram em total decadência, assim, do nada, e foram ocupados por essas atividades silenciosas, com essa gente com seus fones de ouvido malhando, suando, correndo no lugar, um lugar esquisito, cheio de máquina e espelho.


Bom, academia é legal mas está longe de ser o lugar mais alegre que você vai, já festa, balada e farra ainda são – de longe - muito melhores que ginástica. Fiquei cheia de perguntas zumbindo na cabeça. Quando foi que o bem estar e a saúde superaram a alegria? Onde então as pessoas enfiam a alegria hoje? Onde dão festas? Não existe mais festinha de prédio? Será tudo culpa do PSIU? 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

arrasa, franka, arrasa, mas não gasta água

Final de semana passada fui tele transportada para uma “estação de águas”, o tipo de lugar que não vou há anos e que me lembra minhas avós. E já que estava em algum lugar do passado, resolvi tomar um daqueles banhos fedidos. Aliás, quero deixar claro que desde menina não acho que aquilo devia ser chamado de “banho”, imagina, uma coisa com aquele cheiro mais suja do que lava. Banho deixa a gente cheirosinho, não catinguento. Mas como “em Roma faça como os romanos”, porque não?, pensei.
Entrei numa sala de espera com um monte de velhinhas, esperando minha vez. Como vi que ia demorar um pouco, peguei uma revista. Chamava revista “Arraso”. Era uma publicação da região, a revista feminina “Arraso”. Rindo sozinha do nome, resolvi: “vou ler essa revista e arrasar aqui na estação de águas. Vou ar-ra-sar. Arrasa, Lúcia, arrasa”.
Bom, gente, vou contar como se arrasa numa estação de águas. Dizia a revista “Arraso” que o grande lance hoje é você ter uma “sala de banhos” na sua casa. Prestatenção. Não é mais só um bom e espaçoso banheiro que você precisa, aliás, pelo que entendi da matéria, o banheiro em si fica dentro da sala de banho, e não chama mais banheiro, e sim a “área de higiene”. É como ter uma terma romana particular em casa. O texto explicava que as "salas de banho" são um espaço de relaxamento, descanso e descontração, provavelmente a "única" coisa que vai realmente te desestressar das loucuras e da tensão do mundo moderno.
A quantidade de brinquedinhos que eles sugeriam colocar ali eram inacreditáveis. Uma mini piscina. Jardim vertical (quem rega?). Ducha de teto. Efeito cascata (não entendi do que se trata). Ducha de teto, que acho que é tipo uma chuva em cima da piscina. Aquário. Sauna. Parede de cachoeira. Fonte colorida. Cromoterapia de águas, um tipo de iluminação colorida. Área de descanso com música zen. Tenda de massagem (engraçado tenda num lugar fechado). Frigobar com bebidas leves. Espaço multimídia, com tv, wifi e computador. Tudo pra você arrasar dentro da sua sala de banho, mergulhada na sua água limpinha (a matéria não mencionava o uso das águas termais com cheiro fedido, claro).
Caraca, que mundo a gente vive? Não tá secando o Brasil? Não tão secas as torneiras? Que é isso de incentivar as pessoas a usarem mais e mais água para relaxar e arrasar? Arrase, gaste água até a tampa? Hein?
Cada uma. Olha, espero que as pessoas se toquem e não tenham esse sonho de consumo arquitetônico e decorativo. Desculpe revista Arraso, não vou arrasar o país gastando água. E bem, só pra completar, o banho fedido foi uma delícia. E gastou pouquinha água.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

pessoa "sai lavando"

Tem um tipo de pessoa que eu acho o máximo. É a pessoa “sai lavando”. Sabe aqueles amigos, amigas ou conhecidos que vão na tua casa, veem a louça na pia e saem lavando? O máximo conhecer uma pessoa “sai lavando”. Neste final de semana eu viajei, e o meu filho recebeu hóspedes. Cheguei aqui e tava tudo limpo, super organizado. Estranhei.
- Nossa. Arrumou tudo?
- É que a minha amiga é daquelas “sai lavando”, mãe. Não pode ver um copo usado que sai lavando.
Uma vez apareceu uma pessoa dessas numa festa da minha irmã. Tava aquela zona infernal na cozinha no fim da noite, aquela pilha de pratos, copos, talheres. Apareceu um cara do nada, namorado de uma amiga dela, que, sem ninguém pedir, enfrentou aquele caos na maior e “saiu lavando” tudo. Em menos de meia hora a cozinha estava tinindo, pois uma das qualidades de um bom “sai lavando” é lavar muito rápido, pois obviamente eles tem a maior prática, técnicas e método.
Isso não é, de modo algum, uma invasão da cozinha alheia, isso é um bem que a pessoa te faz. Um verdadeiro “sai lavando” não “sai guardando” nada, não fuxica em armário e gaveta. Essa maravilhosa pessoa, quando o escorredor fica entupido de pratos e copos limpos, geralmente estende uns panos de prato na mesa e coloca tudo ali, organizadinho, pra o dono da casa guardar. Acho que as pessoas “saem lavando” acreditam – e eu também acredito – que pias com louças sujas devem ser socializadas, ou seja, não são de ninguém, tampouco do dono da casa. E as pilhas de louça suja são como os isqueiros e tuppewares, precisamos aprender que todos eles devem ser socializados.
Eu consigo entender. Se uma pessoa “sai lavando”, se depara com uma “pia entulhada”, não há o que fazer a não ser... lavar. Para eles aquilo não é apenas uma pilha de louça. É uma missão na vida. Os dois se completam. E quando a gente encontra um “sai lavando”, a melhor coisa é cuidar muuuito bem dele, porque são uma delícia.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

a mulher do waze

Gente do céu, viajar virou um inferno. Antes a gente começava a aproveitar a viagem na hora que saia de casa. Depois de checar mentalmente se não tinha esquecido o carregador de celular, o maiô, a roupa de cama, tudo era só alegria. Agora, sei lá o que houve que não dá mais pra relaxar um minuto até você chegar no seu destino. O drama começa na marginal.
- Então, eu queria comentar que...
- Pera, Lúcia. Me ajuda aqui. Em que marginal a gente tá? Na pista dos 50, dos 60 ou dos 70 por hora?
- Sei lá, num dá pra ver. Vai a cinquenta pra garantir.
- Cinquenta é insano. Olha. Parece que a gente tá de ré.
- Cuidado, olha a placa dessa alça. Aqui é 40.
- Quarenta? Fodeu.
- Quer que eu coloque o Waze? – sugiro.
- Será que precisa?
- Talvez – respondo - É sempre é melhor colocar, porque o Waze avisa o radar, e vai que a gente erra a saída, sabe como é, a marginal é uma zona.
- Então é melhor diminuir a música, Lúcia. Senão a gente não ouve a mulher do Waze.
- Tem razão – resolvo, resignada – Vamos então colocar esse maldito ser, essa criatura wazeana aqui nesse carro. Mas ela tem que ficar falando a viagem toda? Eu queria ouvir música.
- Podemos conversar. Se ela falar a gente espera um pouco.
- Ótimo, eu tenho uma coisa super engraçada pra contar de ontem que...
- Peraí, desculpa te interromper, Lúcia. Eu vi uma placa de 90. Aqui não era 110?
“Radar reportado a frente” – fala a chata do Wase.
- Ai meu Deus, será que esse radar é de 90 ou de 110? Sei lá, reduz, reduz! – imploro, aflita.
- Pronto, Lúcia, tudo certo.
- A chata podia ajudar nesse lance da velocidade também, né? Bom, então – continuo, animada - Como eu estava dizendo...
“Em doze minutos pegue o acesso à direita e mantenha-se a esquerda”.
- Pera. Que foi que ela disse?
- Eu disse que...
- Não você, Lúcia, tou falando dela, a mulher do Waze.
- Não prestei atenção. Não dá pra ela repetir?
- Não.
- Então é melhor a gente não conversar tanto – concluo - Senão a gente erra a saída. Ai, cuidado, aqui é noventa!
- Mas eu preciso ultrapassar esse filho da puta desse caminhão!
“Radar reportado a frente. Cuidado veículo parado no acostamento”.
- Chega. Vamos desistir de falar também? – bufo, irritada com a chata do Waze – Parece que ela não quer que a gente converse também, fica interrompendo, um saco.
- Nossa. Que inferno esse Waze.
Ou seja, se “ela” fosse humana e honesta, diria: “Oi meu nome é ‘Mulher do waze’. Em duzentos metros você chegará ao seu destino. Consegui estragar toda a sua viagem, mas ao menos você não levou multa e nem errou o caminho”. E daria uma risada de bruxa má no final.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

parabéns frankinha!!!



Tem umas coincidências muito loucas na vida. Sério. Acabou de acontecer uma agorinha e tive até um arrepio.
Tava aqui escrevendo como é morar em cima de mim mesma, lembrando da época que era menina e morava num prédio na Haddock Lobo. Nessa época, eu deitava na cama e pensava quantas pessoas estavam dormindo em cima de mim. Quantas pessoas estavam dormindo em baixo de mim. Quando eu almoçava, pensava quantas pessoas almoçavam em cima de mim. Em baixo de mim. Quando tomava banho, pensava em quantos chuveiros tinha em cima de mim. Em baixo de mim. Por ai. Eu me lembro que quando entendi aquela verticalidade repetida, eu, menina de tudo, fiquei assustadíssima. Já agora eu moro em cima de mim mesma, num sobrado, e me imagino em duplicidade, eu dormindo em cima de eu mesma escrevendo, eu no quarto do João em cima de mim mesma vendo TV, era algo assim que eu escrevia.
Foi quando tive um clic. Clic. “Ora bolas, mas já escrevi sobre isso no blog”, lembrei. “Crônica repetida e requentada não pode, Dona Lúcia”, eu me disse, me dando uma bronca.
Resolvi vir aqui pro “frankamente...” e checar se já tinha a crônica, para não fazer repeteco. Lá fui eu procurar, e realmente já falei disso (http://frankamente.blogspot.com.br/…/…/dentro-dos-canos.html).
Mas sem querer descobri que hoje, justamente hoje, dia 27 de agosto, é o aniversário do meu bom e velho blog. Parabéns querido “frankamente...”! Eba, você tem 11 anos de vida, está com saúde e vivo! Muitas felicidades querido blog, pra você e pra frankinha, um beijo grande da Lúcia Carvalho do Facebook.
E olha eu em duplicidade falando de mim mesma como se eu fosse duas. Hahaha.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

pobres formiguinhas, pobre frankinha

Gosto de andar na grama. Dizem que o certo é isso, que andar ou correr na grama é melhor do que no asfalto para amortecer a pisada. Então, nas minhas caminhadas diárias, ando sempre pelas gramas do parque, pensando na vida e distraída pra burro. Acho até que a trilha da grama quem fez fui eu. Mas hoje eu notei que nessas horas eu faço uma coisa horrível, assustadora, assombrosa, e nem percebo. Uma coisa mínima, que quando analisei a fundo, fiquei apavorada comigo mesma.
Gente, eu destruo sem dó todas as trilhas de formigas que cruzam meu caminho. E pior, faço completamente por querer e de propósito. Sou literalmente uma serial killer de formigas, porque a coisa é recorrente. Lá estão elas, todas organizadamente em fila na graminha sulcada, na maior labuta, sem a menor noção do perigo que correm. E eu, giganta, monstra, todo dia, absorta nos meus bons pensamentos, vou lá e choft. Choft mesmo. Piso em cima, e pra destruir até chuto a fila para estragar de vez a carreira delas. E não é só com uma trilha, são to-das. E pior ainda, quando erro a pisada e não consigo aniquilar pelo menos umas dez criaturas, eu volto para finalizar a matança e fazer as coitadas perderem o rumo. E confesso: ah, como é gostoso. Que prazer que sinto.
É bem estranho notar em mim esse meu comportamento tão animal. Bom, eu mato lesma, abelha e vespa, afinal eles entram na minha casa, e pra isso acho que tenho um motivo lógico. Mas as formigas do parque eu mato sem razão nenhuma, provavelmente só para mostrar à elas minha superioridade de humana na grama. Se é que elas entendem o que é um ser superior, não tenho ideia do tamanho do cérebro de uma formiga. Mas talvez eu faça bem à elas. Talvez elas aprendam que existem terríveis predadores na terra e fiquem mais atentas. Talvez a próxima geração das formigas do parque aprenda a não fazer mais trilhas na pistinha. Ou talvez eu aprenda algo com isso. Afinal, eu, como elas, estou numa pistinha de grama, andando em fila com outros e...
Nossa, as coisas que eu escrevo.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

zigzag

Cruzei de novo com o carteiro da minha rua, que é meu amigo, o Roldão. E só hoje me toquei que o cara anda todo dia, o tempo todo, em zigzag. Entrega uma carta no lado ímpar, atravessa a rua, entrega a do lado par, atravessa de novo, vai pro lado ímpar, rua, par, rua, ímpar, rua, par, rua, ímpar. Bem, ele poderia separar todas as cartas do lado ímpar da rua, entregar, e depois voltar para o lado par e entregar em ordem decrescente. Mas talvez não seja ele que coloque as cartas da ordem, e a coisa de entregar na volta bagunce a pilha toda. Fiquei me perguntando se ziguezaguear é uma norma trabalhista obrigatória ou se andar em zigzag é uma escolha pessoal de cada carteiro. Ou se é mais fácil nas ruas sem muito trânsito. Só sei que deve ser uma loucura andar o dia todo em zigzag, rodando no mesmo lugar. Talvez Roldão nem seja o nome dele de verdade, pensando bem, deve ser um apelido para os carteiros que rodam em espiral para entregar cartas. E imagina a alegria que ele deve sentir na hora que acaba o trabalho e ele pode andar em linha reta. 

nhic, nhic, nhic

Ontem, na hora sair, acabei escolhendo a mesma roupa de sempre. Escolhi, pesquisei, avaliei uma, outra, até que novas, até que bacanas, mas que não uso nunca. É que, repara, a gente sempre tem umas roupas que tem um defeitinho que incomoda, a gente implica, não usa e demora pra jogar fora, porque sempre acha que pode dar um jeito. Por exemplo, eu tenho um tênis que é muito confortável. Mas quando coloco e ando, ele faz um barulhinho. É um mini barulhinho, uma coisa mínima, mas o barulhinho tá lá. Nhic. Nhic. Nos dois pés. Nhic. Na rua a gente não percebe, mas em casa sim. Nhic. Sempre que coloco aquele tênis, desisto no quinto degrau da escada, nhic, nhic, nhic, nhic, nhic, não, não vai dar, não vou aguentar ouvir esse gemido o dia todo. Outro exemplo: tenho uma calça ótima, jins, nova, sem furo em tudo quanto é lugar, que me cabe perfeitamente. Sempre me lembro dela, visto, mas uns cinco minutos depois lembro que ela não é legal comigo. A costura da cintura pinica. Não, não vai dar, avalio, dali a duas horas sei que estarei toda ralada. E por ai vão meus “quase” amores pelas roupas que eu abandono, incapaz de ter por elas uma paixão total. Tem sutiã rosa que levanta quando eu coloco os braços pra cima. A camiseta que aperta minha barriga. A calcinha que entra no bumbum. A saia que gira na cintura ao longo do dia. O cinto com os furos errados. O sapato de salto que me faz torcer o pé. A malha de lã que coça no pescoço. Roupa fica pertinho demais, é convivência íntima. É como conviver com gente. Por mais tolerância que a gente tenha, as vezes não dá liga. Gente que pinica, que geme demais, que me faz sentir gorda, que me dá incômodo, que me faz cair, que me confunde, por mais que tente, não consigo conviver. Pessoas, assim como roupas, tem que ser confortáveis.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

as dez palavras mundiais

- Eu falo muito mal inglês, francês, espanhol, mas isso não é problema pra mim – disse minha irmã – Aliás, eu consigo me virar em qualquer país porque tenho um... truque.
- Truque? Como assim, Ângela?
- Não é bem um truque, é um tipo de kit de sobrevivência. Um vocabulário de sobrevivência.
Ela explicou, muito séria.
- Você não precisa, a princípio, falar a língua. Mas tem que saber ao menos dez palavras, pra, digamos, não “morrer” no país. Sabendo essas dez, pode ir para a Inglaterra, pra Alemanha, para França, até mesmo para a China. Aprendendo as “dez palavras”.
- E quais são?
- Vê se eu não tenho razão – ela disse, contando com os dedos - As três primeiras e mais importantes são “quero”, “comer” e “beber”. Isso a gente precisa saber sempre, senão morre de fome e sede. Depois vem o famoso “quanto custa” e o “onde é”, senão babau você comer, beber ou achar de novo seu hotel, pensa, pode morrer congelado na rua. A sexta palavra é “me ajuda”, caso as anteriores não funcionem, afinal você pode falar tudo errado e ter algum problema. Em seguida, claro, “sim” e “não”, essas são essenciais, “sim” para o caso de você ser convidada para uma puta festa com tudo de graça, e “nããão” para o caso de um cara péssimo te convidar para dormir com ele. E as duas últimas são, claro, “por favor” e “obrigada”, porque se a gente não é educado não consegue nada em país nenhum. Sério. Já fiz o teste em muitos lugares e sempre deu certo.
Nossa, concordei na hora com ela e repasso aqui o kit de palavras da sobrevivência em viagens pelo mundo da minha irmã: "quero comer beber quanto custa onde é me ajuda sim não por favor obrigada". Ou, Wǒ xiǎng Chī Hē Yào huā duōshǎo qián Zài nǎlǐ Jiù jiù wǒ Shi de Bù Qǐng Xièxiè, pra quando eu for pra China. Hahaha, brigada Hermana.

o errador automático

Decidi. Eu vou tentar, mexer e fuçar até conseguir tirar essa droga de “corretor automático” do meu celular. Gente, aquilo não é um corretor. Aquilo é um errador. Alguém me explica porque os celulares, com essa tecnologia tão avançada, vem com um lance que faz você escrever errado? A porcaria do corretor me atrapalha, me envergonha e me faz gastar horas para escrever um reles "chego em dez minutos".
Eu acho que escrevo super direitinho e não preciso que ninguém me corrija. Olha só, por exemplo. Um dia me ensinaram, e nunca mais usei “há” e “atrás” na mesma frase, sei que devo escrever “há muitos anos” ou “muitos anos atrás”. Erro sim, volta e meia, os malditos “porque por que porquê por quê”, pois já me explicaram tanto que confundi, deve ser coisa da minha dilexia. Não costumo erras grafia de palavras, e, na dúvida, troco por outra.
Mas quando vou escrever um reles dum torpedo, ou um whatsapp, ou qualquer mensaginha no telefone, eu viro praticamente uma analfabeta. Não é somente o lance das palavras erradas, como já falei aqui. O que me irrita é que o errador me faz escrever a gramática toda errada. Os plurais errados. As conjugações erradas dos verbos. O gênero errado. Tudo fica mal escrito, pareço uma criancinha de pré primário, um estrangeiro que não sabe português ou um torpedo de índio.
Lá vou eu. Alguém sabe como eu tiro isso?

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

nana nenê

Hoje que me toquei que a gente trata os celulares da gente feito uns bebês. Pensa se não é idêntico. Todo dia a gente dá comidinha na bateria deles e depois os colocamos pra dormir no carregadores quentinhos, sempre do nosso lado. A gente anda grudado neles o dia todo, leva pra todo lugar que vai, porque se eles chorarem a gente precisa estar por perto. A gente passeia com os celulares com o maior cuidado, pra eles não riscarem e não baterem em nada. Quando, sem querer, eles caem no chão a gente se apavora, e, se eles se machucam ou ficam doentes, a gente corre e leva no médico. Compramos roupinhas coloridas e acessórios. Enchemos os nossos bebês de brinquedinhos pra nos divertir com eles, toda hora brincamos um pouco até que eles se cansem. As vezes somos pais desleixados, esquecemos nossos nenês em casa sozinhos, nos sentimos super mal. Quantas vezes a gente não volta pra busca-los, e que alívio que dá tê-los novamente ao lado. Compramos cadeirinhas para andar com eles no carro. De quando em quando, ligamos a tela só para ver se ele ainda respira, ou se precisa de alguma coisa. Sussuramos nossos segredos para ele, colocamos dentro deles os melhor de nós. Ensinamos eles a falar, a cantar, a sorrir. E como é triste quando eles são sequestrados ou, pior, se eles morrem. Tou olhando pro meu aqui do lado. Cadê o androidezinho bunitinho da mamãe? Cadê? 

outros muros

Já que estou ainda no meio da pintura do muro lateral daqui de casa, como contei uns dias atrás, tenho reparado muito neles. Hoje, mais uma vez, fui andar no parque. E percebi como estou rodeada deles, os muros, em todos os sentidos. Primeiro que para chegar no parque ando 3 quarteirões cheios de muros verdadeiros e altíssimos, com cercas elétricas, portões com alta velocidade de fechamento – que parecem guilhotinas - e câmeras que acendem uns puta holofotes quando você passa. E, por causa deles, fica impossível saber o que acontece dentro de qualquer uma das casas. Nem se existe gente mesmo lá dentro, o que me intriga.
É que sou uma pessoa que adora fazer amigos, e nesse bairro é quase impossível. Ando pela rua sempre pensando, “será que dentro dessa casa não tem um vizinho legal?”, ou “bem que eu podia conhecer as pessoas atrás desse muro e chamá-las pra jantar”, ou “bem que alguém dai de dentro podia ir no parque comigo”, mas não sei nem como é a cara do meu vizinho de frente. Consigo, no máximo, ficar amiga das moças que varrem a rua, dos guardinhas, do cara que conserta a calçada, do segurança da escola.
Dai no parque, a mesma coisa. Sempre chego e me animo “oba, é hoje que vou fazer amigos”, mas nunca dá muito certo. O povo do parque também se isola, a metade fechado em si com seus iphones de ouvido, a outra metade com seu personal, o resto falando no telefone, ou seja, entre todos e eu sempre tem um tipo de “muro”. Acho uma loucura isso. Passo mais de uma hora na rua e no parque, e não converso com viva alma, quase todo dia.
Ô mundo murado esquisito para uma pessoa tagarela como eu.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

o muro

O muro estava todo descascando, feito cobra descamando. O lugar que a gente mais fica aqui em casa é na copa, e a janela da copa dá justamente para aquele muro, com a caiação velha e despencada. Eu precisava dar um jeito, mas como nunca sobra grana para chamar o pintor, a coisa piorava cada dia mais.
Uma vez alguém comentou comigo que caiar é uma coisa super simples, barata e que rende muito. Aproveitei que meu filho topou ajudar, vi uns tutoriais no Youtube e sai as compras sábado de manhã. Cal, cola, pó xadrex, brochas. Eu e ele, animadíssimos, raspamos a tinta velha, fizemos a meleca – porque a tinta é meio uma gosma, parecida com uma sopa de tomates, digamos – e partimos para a pintura. Naquela super disposição, mandando ver na brocha primeiro na horizontal, depois na vertical. Direita, esquerda, lá em cima, lá em baixo. Avançamos meio muro, paramos para almoçar, eu pronta para reiniciar os trabalhos depois da louça, quando... quando...
Gente, começou a doer tudo. Fazer ginástica todo dia não adianta pra nada, pensei, parecia que tinha passado um caminhão em cima de mim. Ou melhor, parecia que o meu muro tinha caído em cima de mim. Hahaha. O esforço que na minha animação passou batido, aquela coisa de mandar ver o pincelzão pesado de cal de cima pra baixo acabou comigo. Nossa, que dor, que desastre corporal. Com muito esforço, depois do almoço e sem lavar porcaria de louça nenhuma, consegui chegar até a cama, onde despenquei, moída e arrebentada. Socorro, dolorida até hoje. Pior que ainda falta meio muro, sei que preciso acabar, mas talvez, depois do muro, quem despenque de vez sou eu.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

hahaha

 Já percebeu que a gente ri diferente no Whatsapp? – um amigo comentou comigo – Eu e você?
- Como assim – estranhei – A gente ri do quê?
- Não interessa “do que” – ele explicou – Estou falando “de como” a gente ri na hora que escreve. Você sempre ri “hahaha”, e eu sempre rio “rsrsrs”.
- Ah, é verdade... – concordei – Há tempos que eu optei pelo “Hahaha”, e desde então sempre uso o “Hahaha” tanto nas mensagens como nos textos. Foi uma questão de escolha minha, eu acho.
- Hoje em dia existem muitos tipos de risada – ele seguiu no raciocínio – Além dos nossos risos, tem também o “kkkkk”, que é muito usado. Louco né?
Gente, realmente isso é muito doido. Porque se a gente pensar bem, existiu um dia, há pouco tempo atrás, que todos nós, inconscientemente, escolhemos uma “risada escrita”, que usamos até hoje. Quando apenas escrevíamos cartas, não me recordo de usar nenhum termo parecido – você tinha que explicar muito cuidadosamente o tom do texto, a história, o fato, sei lá, para o leitor achar alguma graça. Já hoje basta começar com um “kkkkk” ou “hahaha” que a pessoa já sabe que você tá rindo ao escrever.
Muito difícil para mim, por exemplo, que uso o “hahaha”, usar o “kkkkk”. Quase impossível, pois além do seu sorridente cérebro nem lembrar do “kkkkk”, nem tem essa risada no cérebro do corretor automático do seu telefone. Aliás, eu, que sou da turma do “hahaha”, também costumo usar umas variantes, como “hehehe”, quando quero dar uma de espertinha, ou “hihihi”, quando estou tirando um certo sarro do que eu mesma falo. Já as pessoas que usam o “rsrsrs” também usam o “risos” quando querem, de um certo modo, mostrar que gostam muuuito da piada alheia. E, ainda nessa linha de raciocínio, penso que a turma do “kkkkk” é bem mais limitada na demonstração do tipo de risada, pois só conseguem – e olhe lá, é raríssimo – variar para “kakakakaka”, o que, no final das contas, quer dizer a mesma coisa usando mais letras.
- Mas isso é só aqui no Brasil, eu acho – esse amigo ainda notou.
- Como assim?
- Eu tenho uma amiga espanhola que ri “jajaja”. Como será a risada na comunicação digital no Japão? Na Alemanha? Na França? Meu Deus!...
Hahaha, gente. Sei lá. Será que o google sabe?

quinta-feira, 30 de julho de 2015

pausa para almoço

Adoro seriados, aliás, nesses tempos de Netflix e Now, quem não adora.
Um dos problemas dos seriados é que cada amigo seu está em um momento da história, e não é sempre que você pode comentar a respeito para não estragar o divertimento alheio. Diferente de novelas, que passam todo dia naquele horário, e que quem assiste pode conversar com qualquer pessoa, que ninguém ainda sabe o fim.
Claro que os meus preferidos são os preferidos de todo mundo, nem preciso contar aqui quais são. Mas o problema maior é quando acaba. Você, espectador e viciado, fica completamente sem chão.
- Meu Deus. Socorro. Acabou Breaking Bad. Meu Santo Antônio. É o último episódio do Hannibal. Que? Como vou viver sem as meninas do Orange is the New Black, sem a Piper. Não, não, só tem mais dois Masters of Sex!
Hahaha. Fala a verdade, para os apaixonados, o fim de uma temporada, ou, pior, o fim do seriado é uma perda irreparável e desesperadora. Sei lá. Dói no fundo da alma. É quase como ser abandonada pelo namorado, como perder um cachorro, como levar um fora, perder o emprego ou levarem teu iPhone. Dá aquele puuuta vazio e, na ansiedade de preencher o buraco, você se desespera para achar outro e quase destrói o controle remoto de tanto apertar o treco.
Foi num desses vácuos que comecei a assistir outros, não tão sensacionais mais interessantes de detetives, crimes, serial killers, policiais, investigadores e advogados. E em quase todos esses tem sempre a tal hora do tribunal. Ah, a hora do tribunal, eterna cena que se repete... Aquela salona toda de madeira, o juiz ou a juíza lá no altar, aqueles caixotinhos onde sentam as testemunhas que sempre tem que falar a verdade e somente a verdade, e os advogados zanzando pra lá e pra cá. Mas notei uma coisa engraçada. Na maioria dos seriados que tem tribunal, a cena começa, tem uma ou duas conversas, e pimba, lá vem o juiz, que bate o martelinho e diz:
- Vamos fazer uma pausa para almoço.
Gente do céu, porque essa gente de tribunal almoça tanto? Em todos os episódios que eu vejo, pimba, martelinho, a tal pausa do almoço. Será que na vida real é assim? Será que todo juiz é guloso? Ou será que todo roteirista sabe que cena de tribunal é chata e acaba logo com aquilo?
Hahaha. Fica a dúvida. E pimba.
- E vamos fazer uma pausa para o almoço enquanto não começa outro seriado para eu me apaixonar.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

descabelada

Eu e duas amigas numa viagem de fim de semana na praia. Resolvemos ir almoçar em um restaurante bacaninha, nos arrumávamos para sair. Praia é aquela coisa, o cabelo da gente sempre fica uma gosma, eu tentando desembaraçar o meu. Uma delas pergunta se quero passar um tal produto.
- Que faz esse produto?
- Esse produto dá uma "desorganizada" legal no cabelo.
- Que?
- Uma desorganizada boa, bonita. Uma "bagunçada", entende?
- Não entendi mesmo, mas vamos lá – estranhei, passando o creme exatamente como ela mandou, embaraçando todos fios.
Me olhei no espelho e levei o maior susto. Nunca estive tão descabelada na vida, mas as duas elogiaram tanto que me convenci que com aquela nova imagem eu ia abafar e conquistar mil caras com a tal "bagunçada" nas minhas madeixas. E lá fui eu almoçar com aquela cabeleira alucinada, me sentindo um dos Jackson Five.
Como as coisas mudam, né? Por exemplo, acho muito louco quando vou comprar uma roupa e ela vem rasgada. Quanto às calças que já vem rasgadas nas pernas (ainda bem que ainda não é moda calça rasgada na bunda), até já comprei umas, pois a coisa mais difícil hoje é comprar calça sem rasgo. Mas elas tem um problema chato na hora de vestir, pois minha perna sempre sai pelo furo e não pelo pé, o que aumenta o rasgo cada vez mais. Nos dias de frio, entra o maior vento gelado.
Outro dia vi um colete super bonito, mas além de ter um monte de furos, estava todo desfiado. Olhei a vendedora.
- Tem outro desse? Esse está com defeito.
- Não senhora – ela me olhou como se eu fosse uma caduca – o colete dessa nova coleção é assim mesmo, todos são assim.
Gente, eu penso que se ao invés de 52 anos eu tivesse 12, o susto que minha querida e falecida mãe levaria se eu aparecesse com o cabelo bagunçado do creme da minha amiga, com a calça esfarrapada e com um colete todo desfiado, podre e furado, feito uma mendiga. E pior, me achando linda.
- Para de brincadeira, menina, vá se trocar e se pentear.
Hahaha.

terça-feira, 28 de julho de 2015

não veio ninguém?

Sempre adorei receber gente aqui em casa, seja para fazer jantar, seja para tomar um vinho, seja para as visitas que quiserem cozinharem aqui. Nesses dias de encontros, como moro num bairro tranquilo, uns anos atrás a frente da minha casa ficava cheia de carros, pois aqui é daqueles lugares inacreditáveis e maravilhosos de São Paulo onde sempre tem-vaga. Mas como tudo na vida muda, outro dia dei um jantar e aconteceu uma coisa muito engraçada.
Chegaram dois amigos, um casal. Abri a porta, eles me cumprimentaram.
- Somos os primeiros a chegar?
- Sim – respondi – E ainda bem, pois já tava morrendo de tédio sozinha aqui. Não vieram de carro?
- Não, de taxi. Sabe como é, a lei seca...
Campainha de novo. Uma amiga.
- Ué, Lúcia, fui a primeira?
- Não, já tem gente aqui. Ué. Não veio de carro?
- Claro que não, Lúcia... os comandos, você sabe...
Um tempo depois chega um amigo.
- Ué, não chegou ninguém ainda?
- Claro que chegaram, estão ai o fulano, a namorada, a sicrana... – olho ao redor – Ué, veio de táxi?
- Não, ônibus. Vou é voltar de táxi, sabe como é, esse negócio de beber e dirigir...
E assim foi, um por um, todo mundo chegando sem carro, vendo aquela rua vaziiiia e achando que o minha festinha tinha micado, até que chegou o último convidado. Abro a porta, ele todo animado de bicicleta, capacete e um vinho na mochila. Olha a rua completamente vazia e me pergunta a mesma coisa de todos os outros, crente que meu jantar era um verdadeiro desastre e que ele ia pagar o maior mico sozinho comigo.
- Ué, não chegou ninguém ainda?
Hahaha.
Vamos aprender, então. Gente, um jantar sem dez carros de convidados na porta hoje é mega chique, não é cilada não. E hoje em dia nem é tão sensacional morar num lugar que sempre tem-vaga.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

a senha louca


Pra facilitar pras visitas, sempre escrevo a senha do wifi aqui de casa na lousa da copa. Sempre foram senhas facinhas, tipo uns números, o endereço, ou meu nome, essas coisas. Eu sempre impliquei com senhas complicadas, dessas com números e letras, com hifens, com maiúsculas e minúsculas. 
Bom, no mês passado, do nada, tudo que tinha a ver com a internet começou a ficar zoado aqui. O computador, lento, não abria página nenhuma, e, quando abria, apareciam propagandas em russo, o telefone também, até a netflix travava. Chamei o técnico, ele veio, examinou e deu o diagnóstico: "o roteador foi hackeado". 
Que?
Bom, como eu já tinha tentado de tudo, me entreguei às instruções do cara, mesmo achando isso muito estranho. Ele arrumou o micro, zerou o roteador, finalizou o serviço e me chamou. Foi quando ele me deu um papel com a minha nova... senha. Gente do céu. Não parece senha. Parece um hieróglifo. Um código de barras para pagamento. Letras e números alternados, underlines, uma coisa assustadora. E mais. Tão comprida que tomava a lousa toda.
- Mas eu não quero isso! – argumentei – quero uma senha facinha, por favor, sou contra senhas imensas!
- Quer ser hackeada de novo? É isso? – ele respondeu, rindo de mim.
Bom, que remédio. Realmente agora – sei lá se por causa da senha louca – tudo funciona, e mesmo com vergonha, adesivei aquele monte de símbolos na parede da cozinha, liberando a lousa para escrever o menu, a lista de compras, telefones, sei lá.
Outro dia vieram amigos aqui jantar, e uma amiga minha estranhou.
- Lúcia, o wifi não funciona?
- Funciona, é que mudou a senha.
- Eu já tentei duas vezes colocar a senha – ela me disse apontando a lousa – mas essa senha “ketchup suco guardanapo” não está entrando.
Hahaha.