segunda-feira, 19 de junho de 2006

a mosca do avião



Fui num almoço nesse feriado e acabei conversando um tempão com um ex-professor. Ele tinha acabado de voltar de uma viagem para o exterior, e trocávamos figurinhas sobre as suas impressões sobre os países que visitou. Foi quando no meio da conversa ele começou a me contar uma história fantástica, que não me saiu da cabeça até agora.
É a história da mosca do avião.
Eu tenho um impressão engraçada sobre algumas histórias que ouço. É que as vezes eu percebo o quanto algumas coisas que me contam são sensacionais mas não sei exatamente a dimensão daquilo para a minha existência. Essa história é uma dessas coisas. É uma história que transcende a história dela mesma, que vai além do momento que ela foi contada e da hora que a gente está na vida. A história da mosca do avião vai me perseguir por anos e anos, sei disso.
Foi o seguinte. O professor me contou da sua viagem, dos países que foi e do premio que recebeu, mas depois começou a me contar sobre a viagem de volta dele da Europa para a o Brasil.
- Ouça só, Lúcia. Preste atenção.
Disse que a viagem começou, ele comeu um lanchinho, leu uma revista, essas coisas. Estava a toa, descansando quando olhou para o teto e viu uma mosca.
Uma mosca dentro do avião.
Zuim, zuim.
Sim, isso acontece nas melhores famílias. Se uma vez num vôo da Bahia para cá eu fui totalmente picada por pernilongos, porque é que uma mosca não pode entrar num avião que vem da Europa? Ele conta que achou engraçado aquilo, e que ficou reparando na mosca.
Ela ia de cá para lá. Pousava na cadeira de um, sumia, ia para a cabeça de outro passageiro, pousava numa sacola, numa janelinha, no teto.
- Na maior – explicou o professor – Era impressionante.
- Como assim? - perguntei.
Ele explicou.
- Era engraçado, pois aquela mosca estava ‘se achando’, Lúcia. Ela ia de cá pra lá, decidida demais. Posava nos lugares, levantava vôo, pousava de novo, esfregava as patinhas, voava de novo.
Eu não estava entendendo coisa alguma. E daí?
- Ora, o problema é que ela não sabia de nada. Estava empolgada demais com aquela sua vida de mosca - Ele começou a gargalhar de rir - Mosca mais trouxa. Hahaha.
Hã? Porque a mosca era trouxa?
Diante da minha cara de interrogação, ele explicou.
- Lúcia, perceba. Ela não tinha idéia de que estava vindo para o Brasil. Estava toda empolgada com a sua vidinha besta de mosca, pousando, voando, comendo e, de um certo modo até trabalhando. E jamais imaginaria que estava indo para outro mundo, outro universo, outra galáxia. Aliás – ele completou – o mais surpreendente é que para uma mosca provavelmente não existe avião, nem país e nem planeta. Ou seja, a ignorância dela é tanta que a idéia dela estar indo para outro lugar nem pode ser compreendida.
Ele me olhou seríssimo.
- Você compreende a dimensão da coisa? Percebe que isso pode acontecer a qualquer um de nós? E percebe até que isso pode estar acontecendo exatamente agora, comigo e com você, por exemplo? Podemos estar aqui nesse almoço, conversando, falando e comendo, feito a mosca do avião. Nos ‘achando’. Mas podemos estar em qualquer tipo de avião que nem sabemos que existe indo para outro lugar.
Foi ai, nesse momento que eu percebi aquilo que falei ali em cima, que essa história não ia me sair da cabeça. Pois concordo com ele. É possível se perceber mosca, vez ou outra, é possível até perceber a existência de alguns aviões ou até apenas a sensação do vôo – como disse o Pecus num post auto biográfico e reflexivo que ele fez na semana passada “eu devo estar indo para algum lugar”, ele concluiu – mas são muitos os vôos que a gente está dentro e nem sabe que está voando.
Fiquei com a impressão que talvez fossemos todos um pouco trouxas, feito a mosca.
E confesso que fiquei confusa pra burro.
Franka, uma mosca de avião?

domingo, 18 de junho de 2006

iabadabadú!


Simples assim.
Nunca ninguém ouviu falar dele, a troco de nada ele é escalado para jogar no segundo tempo, ele entra em campo, dois minutos depois se vê na frente do gol com a bola, chuta e pimba.
Celebridade nacional.
Quer saber? São essas inevitabilidades do destino que me intrigam e me deixam encantada a cada vez que acontecem na minha frente. Para mim a idéia desse acaso delicioso vale tanto quanto a vitória do Brasil. Qualquer um de nós pode ter, a qualquer instante, uma bola e um gol no segundo minuto. O máximo isso.
Ora, Fréd!

sábado, 17 de junho de 2006

é só insegurança




Pode parecer complicado, mas para mim é facílimo de entender o problema do Ronaldo Fenômeno.
Ora.
Ele engordou e está inseguro.
Para a gente, que é mulher, isso sempre acontece. Se você está magra, normal, tudo corre bem, as coisas andam normalmente, tua vida é tranquila. Mas quando você engorda bate a maior insegurança. Você nunca se acha bem vestida, a sua performance nas festas e encontros sociais é um desastre e conquistar alguém parece impossível. E se para a gente, que não é vista por bilhões de pessoas ao vivo, engordar é tão complicado, imagine para um cara como ele.
Podem falar o que for.
Pra mim é só isso.
Insegurança pura.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

a literatura e o corpão

( desenho luisa cortesão)


Hoje de manhã eu fui andar no parque Vila Lobos. Radinho de pilha do ouvido (o meu iPod é pesado demais, infelizmente, e me atrapalha) e tenis velho, direto pela trilha que eu sempre faço. Essa coisa da repetição é super confortante principalmente quando você está com muito sono.
Mas eu queria falar de uma coisa que aconteceu enquanto andava. Eu estava toda empolgada com meus pensamentos, teorias, roteiros, personagens e textos, quando passam por mim três mulheres.
Correndo.
Um, dois, um dois, um, dois.
As três bem da minha idade.
Malhadas, correndo, animadérrimas.
As três com o maior corpão.
Ai.
Eu encolhi no mesmo instante. Não estava correndo, não sou malhada e nem tenho aqueles corpões, apesar de ser uma pessoa animada - o que não me confortou em nada naquele momento.
Foi quando me veio uma frase na cabeça.
- Ah, ora. Não dá pra fazer literatura todo dia e ter um corpão. São duas coisas completamente incompatíveis.
Mas será que eu estou certa? Será que são mesmo? Será que não é possível desenvolver as duas coisas ao mesmo tempo, o corpo e a mente? Aparentemente, pelas regras do nosso mundo eu faço muito pouco pelo meu corpo, mas na minha escala de valores e distribuição de tempo diária, a idéia de ter um "corpão" está lá no fim da minha listinha. Na verdade, a idéia de "saúde" para mim está mais ligada à uma alimentação normal e (hahaha) muitas horas de sono do que na tal "malhação". Gente que dorme bem, muito bem, tem cara descansada e é mais saudável, diz minha mente para meu corpo.
Bom. Um pouco verdade é, e eu adoro dormir.
Passei o resto do passeio tentando me lembrar de alguma escritora ou de algum escritor que tivesse um "corpão". Como não me lembrei de nenhum, resolvi esquecer as três mulheres e dormir muito bem. E vou deixar a idéia de ter um corpão para o dia que parar de mexer com as letras.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

eu gosto é do Cafu



Desde a copa passada que eu gosto é do Cafu.
Por que?
Porque ele é mais velho, porque é capitão, porque corre pra burro, porque é animado e, atualmente, talvez até porque é um pouquinho criminoso e pode ser até ser preso. Mas o "porquê" maior é outro.
Disse que não ia assistir ao jogo ontem, mas assisti. Aliás, foi pior. Na hora do almoço começei a me achar ridícula e fora do clima. Assim, saí de uma reunião, fui num camelô naquele inferno chamado "Teodoro Sampaio", comprei um monte de camisas do Brasil e bandeiras e resolvi torcer. Das camisetas falsificadas que comprei, de um monte de jogadores, tive que ficar com a do Ronaldo Fenômeno, pois ninguém aqui em casa quis.
Quem diria.
- Eu, hein. E ainda é camiseta de gordo – falou uma amiga da minha filha.
Bem, camiseta de camelô nunca é de gordo, eles usam o mínimo de tecido, todas são super apertadinhas. Dane-se, vesti eu, assisti ao jogo e vi meu Cafu com uma camisa nove.
O motivo de eu gostar dele vem de quatro anos atrás, quando ele fez uma coisa sensacional quando ganhamos a copa passada. Na época eu até escrevi um texto a respeito e mandei para todas as minhas amigas mulheres. O e-mail eu perdi, mas achei um rascunho, que coloco aqui.
E viva o Cafu.

“Falamos muito de copa do mundo e do penta nesses últimos dias. Mas acho que nós, mulheres deste Brasil, temos que prestar atenção em outra coisa: na Regina.
Da Regina do Cafu.
Porque gente, reparem só: naquela hora mais importante de todas, naquela que o capitão do time levantou a taça, que todos os brasileiros e todas as pessoas do mundo estavam nos olhando, bem nessa hora o nosso Cafu gritou:
- Eu te aaamo, Regiiinaaa!
Eu fiquei estatelada.
Hã? Regina? Re-gi-na? Eu quase cai para trás. Caramba, Regina? Quem seria essa Regina, que apareceu bem naquele momento estapafúrdio?
“É a mulher dele”, falou o Zé, meu marido. “Regina é o nome da mulher dele”.
Mulher dele?
Nossa.
Me respondam se isso não é uma imensa e esplêndida ode ao amor. Naquele momento, na hora mais importante e mais emocionante para o Brasil todo, o Cafu vem, aproveita a deixa e se declara para... a Regina? Já pensou o que significa isso? É ou não é a maior declaração que uma mulher pode receber de um homem? Existe amor mesmo, eu pensei naquele momento. E que mulher nesse mundo não queria ser essa Regina, essa amada e adorada e gritada Regina? E será que não ganhamos a copa por causa dela? Da Regina? Quer dizer, importa o futebol, claro, importa ganhar, claro, importa a nossa paixão pela copa, claro, mas no fim, na hora agá, importa que ele ama de paixão a Regina!
Eu não conseguia nem falar, de tão maluco que achei aquilo.
Que Cinderela que nada, isso já foi, é coisa do passado. Tenho certeza que depois de hoje, o sonho de toda mulher deste Brasil é ser uma... Regina.
E, cara Regina, todas nós, as brasileiras, também te amamos.
Um beijo grande,
lúcia (que também quer ser regina)”

Mandei esse e-mail para as minhas amigas. E logo em seguida começou a avalanche. Uma avalanche enorme de emails de Reginas e de mulheres querendo ser Reginas.
Era Beatriz Regina, Silvia Regina, Luciana Regina, Tais Regina, Denise Regina, Fátima Regina, Maria Regina, todas nos queredom ser reginas.
Foi super engraçado.
E uma delas me mandou o seguinte e-mail:
"Eu vi a Regina, e sabe o que? Bicho, ela não é a Gisele Bünchen, nem a Marilyn Monroe, nem a Malu Mader, nem a Xuxa, nem a Bruna Lombardi. Nem deu pra ver se é magra ou média. É apenas uma mulher, nem bonita ela é. É comum, loira pintada, de cabelo liso, cara norma, nariz normal, não pousou na Playboy, não é intelectual, nem professora doutora, é apenas uma mulher cujo marido a ama. E acho que deve amar pra cacete. Senão não se comprometia... tanto!
ass. Uma Mulher Não Regina”
Tá vendo?
E viva o Cafu.

terça-feira, 13 de junho de 2006

prioridades





Muito homem vai falar que não é assim, mas falo por mim, pois no meu caso é. Eu tenho, aqui nessa casa, que pensar em mais assuntos que o Zé. Não sei, exatamente, se são mais assuntos, mas são asssuntos mais disparatados que os dele. Enquanto os dele são trabalho, reuniões, algumas contas a pagar e consertos de carro; os meus são trabalho, comida, filho, funções leva e traz, empregados e contas domésticas.
Parece que é parecido, mas não é nem um pouco. Ele não precisa parar de trabalhar as quatro e quinze e pensar se fará filé de frango ou bolo de carne moída no jantar. Ele não é interrompido porque acabou o sabão em pó e nem precisa atender um celular numa reunião para apartar uma briga horrososa entre dois moleques se estapeando.
Não é reclamação não.
É apenas uma observação que faço a anos que diferencia um pouco o trabalho da mulher do trabalho do homem. Somos obrigadas as mudar de assunto muitas vezes ao longo do dia. É como viajar de São Paulo para a África e depois para Índia depois para a Inglaterra, enquanto seu marido faz um civilizado tour pelas Ilhas Gregas.
Mulher tem mais jet-leg, obviamente. A cabeça, vez ou outra, falha. A gente acaba pifando.
Assim eu, por um instinto de sobrevivência, adotei um sistema inconsciente de prioridades. Quando os meus filhos eram bebês, esse sistema era: 1) filhos alimentados; 3) trabalho bem executado; 3) casa provida; 4) filhos limpos; 5) eu feliz. A casa arrumada nunca esteve nesse esquema, nem nessa época e nem hoje. Fazer o quê.
Já o ‘trabalho executado’, por uma questão financeira particular minha, tem que ficar sempre no segundo posto, embora eu, confesso, muitas vezes finja para mim mesma que "trabalho muito" quando na verdade é apenas uma certa simulação.
Depois de um tempo, mudei o esquema. Os ‘filhos alimentados’ nunca saíram da posição de topo, obviamente porque "mãe é mãe", mas o ‘eu feliz’ subiu de posto. Primeiro foi para o lugar dos ‘filhos limpos’ – foi natural, uma vez que eles cresceram e cuidam dessa parte eles mesmos - e atualmente já substitui a ‘casa provida’, o que tem deixado os filhos, a Maria e o Zé um pouco decepcionados com a minha atuação nesse campo de ação. Já tentei explicar para eles que a ascensão do ‘eu feliz’ é essencial na felicidade da casa, que isso é outro tipo de alimento do lar, que evita muitas crises de TPM e a 'casa provida' pode ser resolvida de outras maneiras, mas mudanças sempre são mau vistas.
Agora, há dois anos, resolvi incluir o blog e os escritos diários nessa lista. Digamos que é um tipo de item 3) b) do ‘eu feliz’. E como blog vicia, e como escrever é bom e melhora o ‘eu feliz’, tenho me embaralhado toda nas outras funções.
Tudo para justificar que nessa esquisita escala de prioridades que estabelecemos na vida, algumas coisas são completamente esquecidas. Eu às vezes me culpo por isso, mas tendo que priorizar filhos, trabalho, blog, felicidade, compra de coisas para a casa e filhos e funções de leva e traz, é impossível lembrar de coisas com prioridades 75) ou 180) como de reuniões de escola, de festas de filhos, de aniversários de amigos, de pagamentos de viagens de escola e principalmente da devolução de filmes na blockbuster.
E quando os itens se embolam, nada mais a fazer a não ser correr atrás de um ou de outro, como hoje.
Fazer o quê...
Estou pensando seriamente em trabalhar no horário do jogo. Afinal, futebol não está entre os meus dez mais.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

ronronando na padaria





Fui ontem, domingo, tomar café da manhã com o meu filho João numa padaria perto do Itaim. Era muito cedo e não havia mais ninguém no lugar além de nós dois, da moça do caixa e de dois atendentes atrás do balcão.
- Um café puro, um suco de laranja e dois queijo quentes – pedi para um deles.
Sentamos numa mesinha de plástico ali do lado enquanto um dos atendentes foi providenciar o nosso pedido.
Ficamos em silêncio, eu e o João, esperando, pois estávamos morrendo de sono. Os dois caras do lado de lá do balcão, um mais velho e um mais novo, estavam animados, trabalhando e conversando.
Foi quando eu percebi. Conversa? O que eles diziam um ao outro não era propriamente uma "conversa". Não tinha lógica nem assunto aquilo. Era um tipo de código de companheirismo que denotava uma certa condescendência de um com o outro. Um tipo de companheirismo feliz, digamos. Não sei se me faço entender corretamente. Os dois, ali naquele silêncio matinal da padaria, faziam uma série de sons, quase não-humanos, apenas para demonstrar felicidade e camaradagem.
Digamos que eles... ronronavam.
Imediatamente peguei meu caderninho da bolsa para anotar o que eles diziam. É uma mania essa minha de anotar. Não ando sem meu caderninho.
- Amaro, Amaro... - falou um deles, balançando a cabeça e se referindo ao outro, que eu supus que chamasse, óbviamente, 'Amaro'.
- Fala, seu Pereira... – respondeu o mais novo para o mais velho, que supus que se chamasse, óbviamente também, ‘seu Pereira’.
- Amaro, Amaro.
- Seu Pereira, seu Pereira.
- Amaro, Amaro, ô menino.
- Issoaí, seu Pereira. Issoaí.
- Amaro, Amaro. Menino, menino.
- Seu Pereira, seu Pereira.
- Menino, menino, ô nenê.
- Nenê não, seu Pereira, nenê não hein.
- Nenê desse tamanho é fria, ô Amaro. Nenê desse tamanho é fria.
- Ô seu Pereira, nenê não, seu Pereira.
- Amaro, Amaro.
- Seu Pereira, seu Pereira.
E assim a coisa continuava.
Engraçado. Eu e metade do Brasil estamos cansados de ouvir esse tipo de conversa. Eu mesma sou a rainha de fazer isso sem perceber aqui em casa, com a Maria, minha empregada, na cozinha. Faço isso também em obras, com peões, eletricistas, empreiteiros, marceneiros, gesseiros e até com engenheiros, para estabelecer vínculos com algumas pessoas com quem é dificílimo estabelecer conversas. Também fazem isso comigo, e noto agora que adoro essas falas. Nunca tinha percebido que isso existia até hoje de manhã, olha que coisa. Era um ato totalmente inconsciente para mim, como é para o Amaro e para o seu Pereira.
E concluo. Sim, nós humanos, também ronronamos. Às vezes falar não resolve, é preciso emitir ruídos de camaradagem.
Não é genial descobrir isso?
- Amaro, Amaro...
- Fala, seu Pereira, falaí, seu Pereira...

sábado, 10 de junho de 2006

os sanduiches de pernil



Passei o dia hoje na festa junina na escola dos meus filhos. Todo ano eles fazem uma enorme festa onde todo o dinheiro arrecadado vai para uma instituição de caridade. Todos os brindes e produtos são doados e quem trabalha na festa são os pais dos alunos – tanto nas barraquinhas quanto na organização.
Vou nessa festa há onze anos. Durante oito anos tivemos, eu e o Zé, uma barraquinha de sorvete nossa, que organizávamos, montávamos e vendíamos. A nossa barraca dava um bom lucro para a festa, apesar do trabalho que nos dava. Em alguns anos choveu muito e em outros estava o maior frio do universo, e vender sorvete, no frio e na chuva e ao livre era terrível. O pior era que, nem chuva, no frio e ao ar livre as pessoas deixavam de tomar sorvete.
Um dia, desistimos. Eu e o Zé achamos que a nossa cota de ajuda estava encerrada e que, depois de oito anos de dedicação total, deveríamos descansar e, afinal, a aproveitar a festa junina.
- Imagine, Lu, poderemos comer! Nunca comemos nada nessas festas juninas – ele me disse, animado.
- Uau. Poderemos passear na festa – falei – nunca tivemos tempo de passear!
- Poderemos sentar nas mesinhas e tomar quentão – animou-se o Zé – Nós nunca tomamos um quentão numa festa junina! Vai ser genial!
Bom, chegou o primeiro ano sem barraquinha e sem trabalho. Acordamos tarde, descansados, dispostos a aproveitar. Chegamos na festa na hora do almoço – “horário de gente grande” – disse o Zé, e começamos a rodar. Olha. Foi super estranho. Depois de uns quarenta minutos, já estávamos na maior sem-graceza. Já tínhamos comido, passeado, jogado uma cartela de bingo e tomado o tal quentão na mesinha.
- E agora? Fazemos o que?
- Sei lá, Zé.
A questão é que não tinha graça nenhuma não trabalhar. Era estranho não fazer nada. Não sei, parecíamos muito a tôa, muito desocupados. Tivemos até uma certa vergonha de estarmos tão descansados no meio de amigos tão cansados. Foi uma das festas mais esquisitas que eu já fui e nunca me senti tão ridiculamente descansada. E quando, no ano passado, uma amiga me convidou para ajudá-la numa barraquinha, topei na hora.
- Olha lúcia, mas é para vender sanduíche de pernil. É preciso trabalhar pra burro, cansa demais, pois é das barracas mais cheias da festa. Quer assim mesmo?
Óbvio, respondi. Lá fui eu. Passei a festa inteira mexendo uma panela imensa de pernil, ajudando a montar os sanduíches. Canseira total. Dores musculares, roupa suja. Maravilha.
E esse ano, quando ela me ligou de novo e me convocou, lá fui eu. Hoje passei o dia na beira de uma panela de pernil de porco, sentindo um cheiro delicioso que está até agora impregnado em mim (assim que postar isso aqui vou tomar banho, juro, pois tenho uma festa daqui a pouco) e super feliz.
Fiquei pensando muito sobre essa coisa de se cansar, de se exaurir e reclamar. É mais ou menos como eu me sinto aqui. De vez quem quando eu também me canso de escrever todos os dias, de postar, de vir aqui, e alimentar esse blog. Algumas coisas cansam sim, mas cansar-se não é ruim. Sério. E aqui também eu não sei se quero estar do lado de lá.
Muito mais legal estar do lado de cá dessa minha barraquinha e vender esses meus posts de sanduíches de porco.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

fala, nelson rodrigues


“Eis a verdade: - a fome varre, a fome raspa qualquer sentimento forte. O ódio exige boa alimentação e repito: - para odiar, o sujeito precisa de um sanduíche, pelo menos de um sanduíche.”
nelson rodrigues

quinta-feira, 8 de junho de 2006

bandeide



Acho muito engraçada essa história do Ronaldo Fenômeno com as bolhas nos pés. Ontem até vi uma foto de uma das bolhas dele, o que tornou a coisa mais absurda ainda.
Outro dia fui para o Rio e, na saída do aeroporto Santos Dumont, dei de cara com essa mulher ai da foto. Gente. Repara. A de saia. Vejam que ela usa um sapato chique, desses de executiva, mas que tem os saltos de... ferro. Sério. Olhai. De ferro! Dois espetos, duas espadas, duas facas. Uma arma em cada pé. Resolvi registrar esse absurdo. A mulher fazia o maior barulho ao andar e eu parecia uma louca com meu telefone atrás dessa assassina.
Mas vejam.
Consegui a foto.
Meta é tudo nessa vida.
O incrível foi reparar que ela não tinha bolha alguma no pé. Andava na maior desenvoltura de mulher de sucesso. Óbvio que qualquer ser humano com um pé razoável não agüentaria andar dez metros em cima daquilo, mas a mulher caminhava toda pirilampa sobre os espetos de churrasco. É, a gente não deve brincar com o destino. O cara anda de tênis o dia todo e pimba, tem bolhas, e uma assassina dessas cruza meia pista de pouso com saltos de ferro absurdos e tem o maior pé de princesinha.
A vida é muito injusta mesmo.
É horrível bolha no pé. Que mulher que já não teve, falaverdade. As piores para mim são aquelas na parte de trás, naquele ossinho que tem acima do calcanhar. Sapato duro sempre me faz bolha ali, principalmente esses sapatos de festa. É horrível quando começa a acontecer. Minha vida por um bandeide, você pensa. No desespero já coloquei até durex. E na falta de outra solução, o negócio é andar na pontinha dos pés, com o calcanhar mais alto que o sapato. Quem é mulher sabe. Nessas horas, sorria e se vire com aquele estranho treco que vira um sapato quando ele machuca seus pés. Andar com ele é como correr uma corrida de obstáculos. Um trem fantasma.
Comigo a pior bolha aconteceu numa das melhores festas da minha vida. Era numa casa bárbara, com pessoas bárbaras, com música bárbara, com clima bárbaro, eu estava com uma roupa bárbara, com cabelo bárbaro e me sentindo bárbara. Tudo bárbaro até que ela veio. A bolha. Tentei de tudo, até colocar um pedacinho de guardanapinho entre o calcanhar e o sapato, mas ele escorregava. E sem bandeide, sem durex e sem vontade de andar e dançar na pontinha do pé, passei a festa sentadinha.
Sério. Espero que o Ronaldo não tenha que passar por isso.
Deve ter muito bandeide por lá.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

duas perguntas



São duas coisas que estão todos os dias nos jornais e que me incomodam muito. Duas perguntas.

A primeira é por que os jornais daqui de São Paulo vendem a primeira página da Folha Ilustrada ou do Caderno Dois para propagandas imensas de shopping centers, que ocupam a página toda com fotos de rapazes e moças magros, com olheiras e ares blasé e nós, leitores, temos que ler o assunto dessa primeira página nas margenszinhas. Dos ladinhos.
Além disso, me pergunto quem é aquela gente vestida tão estranhamente e agindo de modo mais estranho. Reparem que eles estão sempre jogados no chão, largados, escondidos nos cantos. Esquisito demais. É como senta num restaurante para almoçar, pedir um filé bem bacana com batatinhas na manteiga e, quando o teu almoço chega, você olha e vê no meio do prato uma propaganda de celular e, ao redor, espremidinho nas bordas, o seu filé e as suas batatinhas na manteiga.
Óbvio que sabemos que a propaganda paga muita coisa, mas não precisa exagerar, gente. A página principal do caderno de Cultura.
Ah, vá.

A segunda é por que uma quantidade absurda de propagandas de lançamentos imobiliários tem fotos de pessoas pulando, correndo e voando, um logotipo do prédio e nenhuma foto ou desenho do lançamento imobiliário. Nenhuma! Em geral são mulheres que pulam, mas já vi propagandas com famílias inteiras pulando. Eu me pergunto se as pessoas que olham aquilo – como eu – entendem o que estão vendo. Se sabem o que está sendo vendido ali. Tenho uma grande desconfiança que esse tipo de propaganda não funciona nada.
Hahaha.
Aliás, queria conhecer alguém que comprou um apartamento porque viu alguém pulando no jornal.
Alguém conhece?

terça-feira, 6 de junho de 2006

as pessoas que gritam




Como eu já disse um monte de vezes aqui, os tipos de divisão das pessoas do mundo são inúmeros. O mundo sempre pode se dividir em duas partes. Já falei das pessoas que usam bidê e das que não usam, das que correm e das que andam, das que implicam e das que não implicam, das que dão muitos foras e das que nunca dão.
Ontem, depois de uma experiência nada agradável, dividi o mundo em mais duas partes.
Das pessoas que gritam e das que não gritam.
É que gritaram comigo, foi isso.
Não posso dizer que eu seja uma pessoa que nunca gritou na vida. Já tive fases bem nervosas, principalmente na adolescência, quando eu morava numa casa só com mulheres e onde os hormônios tepeêmicos corriam soltos. Não vou atirar pedra nenhuma. Já fui a maior gritona e também já levei muito grito.
Mas falaverdade. Horrível gritar e ser gritada.
Essa pessoa em questão é famosa pelos gritos. Todo mundo que trabalha com ele já levou um gritão em alguma hora do processo de trabalho. Isso faz, de um modo esquisito, que o cara seja respeitado e que tenha se tornado, ao longo dos anos, um tipo de líder. Por causa do seu temperamento sanguíneo e explosivo, todos em geral são cautelosos. O interessante é que, além dele adquirir uma posição de destaque no grupo, os poucos que o desafiaram acabaram sendo eliminados, e os restantes tem receio de serem também.
Desde que percebi isso – e eu tenho que trabalhar com essa pessoa – que fiquei encasquetada. Noto que cada um reage de modo diferente. As mulheres choram. Quase todas. Até eu, obviamente - um dia ele gritou tão alto comigo por causa de uma porcariazinha que eu chorei feito bebê. Olha que coisa, eu! E a coisa nem era importante. Fiquei super envergonhada, mas foi inevitável. Ontem, ainda bem, não chorei, mas fiquei aterrorizada.
Já os homens reagem de formas diferentes. Já vi alguns chorarem, o que o deixa completamente desarmado, não é comportamento esperado para a guerra que ele gosta de fazer. Outros ficam indignados, outros se desculpam até de coisas que não fizeram, outros ficam aparvalhados e muitos partem para a briga. É isso que o deixa mais satisfeito, a briga, afinal, tenho dúvidas se ele está trabalhando ou apenas jogando o jogo do machão, do mais forte. E se a guerra começa e ele ganha, o outro sai para nunca mais voltar.
Já os mais espertos sabem. Aquilo é um jogo de poder. Esses, os craques, não nem se alteram com os gritos e nem entram na brincadeira: conseguem manter o ritmo da conversa dentro do assunto até o fim. E estão com ele até hoje.
Sem medo.
É complicado pra burro conviver com uma pessoa assim. Óbviamente que a melhor maneira de resolver a gritaiada é ignorar e manter a conversa dentro do assunto conversado, mas o corpo reage de forma inesperada à uma agressão física. E grito é agressão física. Além disso, um comportamento racional demais às vezes parece covardia, e muitos homens têm receio de estarem se diminuindo diante dos demais.
No meio dessa enorme discussão entra uma outra coisa importante, que é a sua posição social dentro do grupo. Se você não é o chefe nem é o líder do processo, a sua tolerância com a humilhação acaba sendo maior. Num dos seus livros, “Trilogia suja de Havana”, o escritor Pedro Juan Gutierrez fala o seguinte: “O pobre, ou o escravo, tanto faz, não podem complicar demais sua moral, nem ser muito exigentes com a sua dignidade, sob pena de morrer de fome. ‘Se você me dá um pouco já está bom e eu amo você’, só isso.As mulheres geralmente compreendem isso desde muito pequenas e aceitam. Mas os homens complicam um pouco mais com a rebeldia, a retidão dos princípios e tudo isso. Afinal, entendemos um pouco mais tarde.”
Dizem os entendidos que todos temos muitas características animais dentro de nós, que ficam enclausuradas e mascaradas pela nossa evolução, pelas nossas conquistas civilizatórias e pela nossa inteligência. Mas que essas características voltam, e volta e meia o nosso comportamento mostra esse lado selvagem. A história primitiva ainda está dentro do mais urbano cidadão, eu acho. Se na natureza muitos animais que urram mais alto são mais poderosos, noto que no meu grupo de trabalho esse homem também se destaca.
Roooooarrrr.
Ai, ai, ai.
Eu, hein...

segunda-feira, 5 de junho de 2006

charutos, busca detalhada

clic*
Sábado, tarde da noite. Estávamos no com um casal amigo nosso aqui em casa, o Zé contando pela milionésima vez sobre a viagem de Cuba, quando lembrei.
- Zé, os charutos!
Além da mala de rum, que aniquilou um grande número de amigos nossos, ele trouxe uma quantidade absurda de charutos. Esquecemos completamente deles.
- Ah, é mesmo. Pega lá, Lu – ele disse animado, olhando para os nossos amigos – Vamos fumar charuto?
A V. , nossa amiga, foi a primeira a confessar.
- Olha, gente, nunca fumei isso.
- Bem, nem eu, obviamente... – confessei.
Foi quando o marido da V., o M., riu.
- Eu também não, se vocês querem saber.
Olhamos os três para o Zé.
- Já ganhei um monte, mas eu nunca...
Foi quando a V. declarou, tirando o cachecol e o casacão.
- Então vamos resolver isso já. Vamos todos fumar charutos pela primeira vez. Hoje ou nunca.
- Tá tirando a roupa porquê? - perguntou o marido dela, estranhando.
- Charuto dá o maior cheiro. Se fosse vocês tirava também.
O Zé tirou o casaco. O marido da V., o M., protestou.
- Que é isso, que frescura. Querem fumar nus? É um tipo de ritual cubano?
Peguei a caixa. Colocamos um charuto enorme no meio da mesa. Nos entreolhamos.
- Vamos todos fumar um só? – perguntou o Zé.
- Se der certo a gente pega mais – falou o M.
- Onde é a parte da frente e onde é a de trás? Tem um lado tapado – falou a V.
O M. explicou.
- Esse lugar tapado é justamente por onde se fuma. Um tio meu fazia assim: ele ficava com o charuto apagado na boca, babando nele um tempão. Quando amolecia bem, ele mordia essa ponta e cuspia bem longe. Pra qualquer lado, sem rumo. Um cuspão.
- Cuspia? Eca. – falou o Zé.
- Faça isso, M., vamos – pedi.
A V. ficou brava.
- Não cuspa no chão da casa dos outros, meu bem.
- Eu deixei, sou a dona da casa – argumentei – Vai, faz.
- É nojento, mas charuto é nojento – o M. explicou – quando eles falam na caixa “hecho a mano”, não é bem “hecho a mano” e sim “hecho a língua e cuspe”, porque os cubanos lambem e colam essas folhas de tabaco com o cuspe da boca deles. Sabiam?
- Pára com isso, M., que assim eu não fumo – declarou o Zé – Colocar baba de cubano na minha boca. Urgh.
- Vamos M., morda e cuspa logo!- ordenei.
M. suspirou, me olhou, mordeu a ponta do charuto e cuspiu bem longe. Todo mundo gritou.
- Argh!
- Agora acenda – falou o Zé.
Estávamos todos ansiosos.
O M. fez um grande esforço, usou um monte de fósforos, ficou quase roxo.
- Pronto - ele disse, me passando rapidinho o charuto aceso.
- Eu? Já? Mas você nem babou.
Tentei. Aspirei de leve. Nada. Médio. Nada. Mais forte. Nada. Aspirei muito forte, com toda a força dos meus pulmões. Consegui fumar um pouquinho. Mas chupei tão forte, mas tão forte, que traguei tudo e tive um acesso de tosse nojento.
- Você tragou! – gritou o Zé, bravo - Não podia tragar, Lu!
- Sem querer! Desculpa!
Lá foi o Zé. Igualzinho eu. Fraquinho, médio, forte, muito forte, vulcânico e arrghh. Nada.
- Não sai nada dessa coisa, pô.
- Conheci um cara que molhava o lado da boca no licor – disse a V. – Quem sabe assim amolece e sai mais fumaça?
- Já sei. Vamos molhar no rum – falou o Zé, indo buscar a garrafa – Rum é melhor que licor nesses assuntos cubanos.
A V. foi a primeira a fumar com o rum na ponta. Fraquinho, médio, forte, muito forte, vulcânico. Ficou roxa, espremida e chupada, baforou exibida.
- Que acham? Consegui ou não?
- Não vi fumaça saindo da sua boca, V. – declarei.
- Vou tentar de novo, você fotografa.
Peguei a máquina.
Clic*.
- Saiu um tiquinho, mas não tenho certeza se foi da sua boca – eu disse.
- É que tá horrível esse charuto com gosto de rum e me deu ânsia – ela disse, dando o charuto ao marido e rindo.
Ele tentou de novo, não conseguiu. De raiva, mordeu um pedaço enorme da parte de trás e cuspiu mais longe ainda. O charuto ficou todo esgarçado.
- M.! – falou minha amiga, brava – Pára com isso, está estragando.
- Tá me dando ódio desse charuto entupido. Coisa mais travada pra fumar!
- Vai ver que a gente tá sem paciência... – eu disse.
Foi quando o Zé percebeu. Suspirou fundo e balançou a cabeça.
- Gente. Vamos assumir. A gente não sabe fumar.
- Como não sabemos? – falou o M. – Acha que tem técnica?
- Claro. Não sabemos fumar charuto, estamos fazendo coisas erradas - ele levantou - Perai que eu já volto.
- Aonde você vai, Zé? – estranhei.
- Ué. No Google. Vou colocar “charutos”. E depois, na busca detalhada, “como fumar”.
O Zé é engraçado.
- Ahahaha. Tente clicar no “estou com sorte” também, Zé – disse o M..
Tivemos um acesso de riso absurdo. Foi quando o Joãozinho entrou na sala.
- Mãe. Pai. Gente. Que foi? Que é isso que vocês estão fumando ai?
- Charuto cubano, filho – eu disse.
Ele olhou para todos nós bem devagar.
- Charuto cubano. Tá. Tá bom. Charuto cubano. Essa é boa...

Obs.1: Para quem quiser saber, tem 66.500 resultados no Google para “charutos - como fumar”. E mais: 98 resultados para assuntos acadêmicos. Uau. É coisa séria.
Obs. 2: Não conseguimos, nem com ajuda do Google. Desistimos em seguida, depois que todo mundo ficou muito enjoado.


domingo, 4 de junho de 2006

mulheres zorro



Foi num sensacional almoço de blogueiras no sábado, organizado pela Márcia. Desta vez, consegui tarjar todo mundo a tempo. O ruim foi que assim, tarjada, não tenho a mínima idéia do que almoçei e nem onde era o tal restaurante.
E aTones, o fotochoppe colorido e bem laranjão é em sua homenagem, já que você tá todo tristonho no seu post de hoje.

sábado, 3 de junho de 2006

estratagemas do amor


Olha. É um livro que li há anos atrás e sempre gostei. Coincidentemente ganhei na época de presente do Edu do Itamambuca, pois conheço o Edu há muito tempo.
Uma amiga aminha achou o filme, comprou e me deu essa semana. O filme não é tão legal como o livro, mas adorei o presente.
Porém nada supera esse poema que é citado no livro. Maravilhoso.

Love's Strategems
Donald Justice


But these maneuverings to avoid
The touching of hands,
These shifts to keep the eyes employed
On objects more or less neutral
(As honor, for time being, commands)
Will hardly prevent their downfall.

Stronger medicines are needed.
Already they find
None of their strategems have succeeded,
Nor would have, no,
Not had their eyes been stricken blind,
Hands cut off at the elbow.


Estratagemas do amor
Donald Justice


Mas essas manobras para evitar
O contato das mãos,
Essas mudanças para manter os olhos ocupados
Em objetos mais ou menos neutros
(Como a honra, por enquanto, ordena)
Não poderão evitar a sua queda.

São necessários remédios mais fortes.
Já descobrem
Que nenhum estratagema teve êxito,
Nem poderia, não,
Nem que seus olhos se cegassem,
As mãos cortadas pelo cotovelo.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

modess e bloguess



Tentei (meio em vão) explicar para a minha mãe o que é um blog. Ela não entendeu absolutamente nada. Explicar uma coisa que não existe, que nunca fez parte da vida de uma pessoa é difícil. É fazer nascer uma idéia. Terei que insistir muito.
Imagino como deve ter sido complicado explicar o modess na época que ele foi criado. Olha a quantidade de explicações da propaganda.
Bloguess e modess.
Não precisam lavar, são descartáveis, seguros e confortáveis.
Engraçado.
E hoje tem crônica na paradoXo: açucar ou adoçante?

quinta-feira, 1 de junho de 2006

números, fichas e painéis



Eu sou filha de médico.
Neta de médico.
E tomara que mãe de médico também. Quem sabe?
Isso para dizer que entendo um pouco da coisa. Não de diagnósticos, obviamente, mas do funcionamento da medicina. Tanto meu pai quanto meu avô, que já faleceram, tiveram consultórios e trabalharam em hospitais. Meu avô tinha consultório em casa. Na varanda da casa dele existiam duas portas, uma para a casa outra para o consultório. Já meu pai tinha uma clinica na avenida Angélica. Era ortopedista.
Naquela época tanto para mim, filha e neta, quanto para qualquer paciente, a coisa era super simples. Você não tinha que marcar nada. Você ia ao médico, sentava, esperava um pouco e ele te atendia.
Pronto.
Juro que não entendo porque hoje as coisas não podem ser assim. Quer coisa mais complicada do que ir ao médico?
Minha filha está com febre desde ontem, e eu estou atrás de um médico para cuidar dela. Liguei para a pediatra à noite, mas não tinha ninguém no consultório. "E será que ela teria horário hoje? Tsc. Vou levá-la no pronto socorro de uma vez", pensei. Acordei bem cedinho e lá fomos nós duas.
Sim, deu tudo certo, fomos atendidas, ela já está bem e medicada, antes de qualquer coisa. Mas o que eu percebi e queria falar é a complicação que é atender um paciente hoje em dia. E não tem jeito. Ou você marca uma consulta com uma semana de antecedência – e olha lá – ou entra no esquema das fichas e números e salas de espera do pronto socorro. Gente, que zona.
Chegamos, eu e ela. Uma moça nos atendeu e nos deu um papel com um número. Mandou a gente sentar e esperar o número aparecer num painel eletrônico. Tv ligada, máquina de refrigerante e revistas. O engraçado é que não tinha mais ninguém na sala, o pronto socorro estava vazio naquela quase madrugada, mas a gente tinha que olhar o painel. Óbvio que a gente viu a enfermeira chegar, vimos quando ela entrou na sala, vimos ela apertar o botão do painel. E só ai pudemos entrar. Depois que o painel acendeu. Essa é a regra.
Era a triagem. Depois da triagem ela deu outro papel com outros números nos mandou para a sala de espera ao lado.
- A senhora tem antes que fazer um “cadastrozinho” - ela explicou.
Fazer um “cadastrozinho” é mostrar a carteirinha do plano de saúde e assinar um papel dizendo que, se o plano de saúde não pagar a conta, você vai dar todo o seu dinheiro para o hospital. Todinho, porque falaverdade, hospital é caro demais.
Sentamos. Esperamos. Como estava demorando para chamarem nosso número, como só tinha a gente ali e como todos os guichês estavam vazios, fui reclamar.
- É que quebrou a impressora que faz a pulseirinha, senhora.
- Pulseirinha?
- Aqui o paciente só entra no pronto atendimento de pulserinha... – ela explicou – a senhora senta e espera que já vamos consertar a máquina, o seu número vai acender no painel eletrônico. Quando acender a senhora vem aqui.
Tv ligada, máquina de refrigerante e revistas. Chegou um moço para consertar a tal impressora de pulseirinhas, demorou mais um pouquinho. A moça me olhou de longe, e, ao invés de me chamar, apertou o botão. Plim. Meu número apareceu em vermelho. Sorri e fui até ela.
Ficha e cadastro e assinatura.
- Agora a senhora vai para a sala do lado, coloca essa pulseirinha com esse número na sua filha e espera. Eles vão chamar ou pelo número da pulseirinha ou pelo nome.
- Desta vez não vai ter painel eletrônico não?
- Não senhora. Agora é nome ou número.
Sentamos de novo. Mais tv ligada, máquina de refrigerante e revistas. Esperamos até que uma mulher chamou o nome da Nani. Olhou a pulserinha.
- Ah. Você é a médica? - perguntei, aliviada.
- Não. Sou a pessoa que encaminha os pacientes até a sala da médica.
E era longe mesmo. Olha. O negócio é tão complicado que tive a impressão que teríamos que tomar uma van.
Enfim, lá no fundo de um dos corredores apareceu uma médica que atendeu e medicou minha filha. Nessa brincadeira, de uma hora e meia, foram três salas de espera, dois tíquetes de números fora os do estacionamento, uma pulseirinha, diversas fichas, um monte de enfermeiras e atendentes. Quando saímos pelos mesmos corredores, vimos a Ana Maria Braga na Alemanha com o papagaio dela em todas as inúmeras tvs.
Vixe. Coisa mais complicada que é ir ao médico. Meu pai e meu avô cairiam pra trás.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

o cataclunqui universal




Meu carro estava fazendo um barulho estranho na parte de baixo. Alguma coisa quebrou, estava na cara. Além disso, um caminhão entrou na traseira dele na marginal na semana passada e amassou o porta malas. E, para completar, o rádio parou completamente de funcionar, como se tivesse morrido. E pior – com o meu disco novo da Marisa Monte dentro.
Está lá enterrada viva, a Marisa, coitada.
Embora ele estivesse andando, não agüentei e, apesar de estar meio sem grana, levei para o mecânico na segunda. E como tem o vai vem dos filhos, nesses dias fiquei com o carro do Zé e ele a pé.
Acontece que o carro do Zé é bem melhor e mais novo que o meu. Não é um carro sofisticado ou metido, é bem pé de boi, mas tem uma coisa que o meu não tem e que eu adorei. É um botãozinho no chaveiro que tranca o carro de longe, tipo um controlinho remoto. Caipirice minha, tá na cara, mas fazer o quê.
Eu sei que é até meio bobo falar de uma coisa que quase todo mundo usa, como esse chaveirinho com botão que tranca, mas aquilo me deixou encantada esses dias. Fiquei doida pra ter um daquele no meu carro, mas é acessório absolutamente inútil e sei que jamais vou colocar. Aliás, no meu carro eu preciso trancar porta por porta. E não reclame dona lúcia, eu sempre penso, dê graças a Deus que você tem carro.
Mas voltemos ao botãozinho. Nesses dias que usei o carro do Zé, me exibi o que pude com aquele botãozinho. O legal é fazer a coisa como se fosse a coisa mais normal do mundo, dando as costas para o carro. Assim, eu, bem metida, dei as costas para o carro do Zé e cataclunqui no estacionamento do shopping, cataclunqui na porta da obra, cataclunqui na frente de casa da minha amiga, até cataclunqui na minha própria garagem. Ô barulhinho bom esse da trava das portas.
Cataclunqui.
Foi quando eu pensei como seria legal ter um desses na porta da minha casa também. Ontem, quando olhei a maçaneta e a fechadura da minha velha porta de madeira, notei como aquilo era obsoleto. Afe, que absurdo, uma porta sem botãozinho de cataclunqui. Depois pensei em todas as portas da casa e em todas as coisas que a gente abre, inclusive a geladeira, o fogão, o microondas, os armários. E em todas as coisas que a gente liga, como o computador, a televisão, o Ipod, o celular. Fiquei um bom tempo pensando como seria bom se as coisas todas essas coisas tivessem esse maravilhoso e sensacional botão do cataclunqui. Me imaginei poderosíssima com um chaveirinho universal, trancando o carro de longe, abrindo a porta de casa de longe, destrancando a geladeira de longe, ligando o computador de longe, cozinhando de longe, ouvindo música de longe, numa sucessão de cataclunquis comandados pelo meu controlinho. E o melhor é que é obvio que esse pensamento não é absurdo, pois todas essas coisas são factíveis de serem executadas por um controlinho.
Só postar que eu não sei como seria. Talvez se eu deixasse os posts prontos, eu poderia dar as costas para o computador e...
Coisa mais idiota, eu sei, mas me pareceu o máximo.
Cataclunqui.

terça-feira, 30 de maio de 2006

the dark side of cajuína



Estávamos num restaurante no domingo à noite. Foi aniversário do meu filho mais velho no sábado, ele estava num acampamento da escola e não pudemos comemorar. No dia seguinte, quando ele chegou, fomos jantar fora.
Ele estava feliz da vida e, logo que sentou na mesa, começou a cantarolar batucando na mesa. Eu olhei para ele e ri.
- São as músicas do acampamento, mãe – ele explicou – ... fizemos uma fogueira, um dos monitores tinha um violão, aquelas coisas meio cafonas, você sabe... O problema é que quando o violão não é da gente não dá pra escolher as músicas...
Ele fez uma cara desanimada.
- E as músicas eram ruins?
- Eram todas MPB, que eu gosto médio. Você sabe.
- Não dá pra cantar Pink Floyd na fogueira.
- Tá, mas não precisava cantar tanto Lulu e os litorais desse oceano Atlântico, né?
- Há. Eu adoro – declarei.
Ele riu e balançou a cabeça.
- E é justamente por causa disso que eu não gosto. Dã. Cantar a música da mãe?
- Aposto que tocou Drão.
- Claro. E Cio da terra e É cedo ou tarde demais para dizer adeus e jamais.
- Previsível.
- E ainda teve a pior – ele parou e me olhou fixo – Você não sabe qual a pior que tocou
- Qual?
Ele respirou fundo.
- Cajuína, mãe.
- Ai – eu disse.
Eu sabia. Mesmo que naquele momento eu implorasse para que ele não fizesse aquilo, seria inevitável. Ele ia cantar a música ali na mesa e naquele momento e eu estaria perdida, pois aquela música entra na cabeça e não sai mais.
Nunca mais.

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina.

- Não, filho, ah que droga!
- Hahhaha. Já fiz. Agora não tem mais jeito, né mãe?
- Não.
- Como você sabe disso? A gente nunca falou sobre essa música na vida, eu e você!
- Pra você ver... Não precisa falar. Cajuína é um problema universal. Não sai da cabeça por dias. É insuportável. Ela gruda, fixa, cola. E é interminável. Horrível.
Pedimos o jantar, a sobremesa, o café a conta. E saímos do restaurante cantando.
Fazer o que.

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina...

segunda-feira, 29 de maio de 2006

olhos fechados


Odilon Redon
Les yeux clos, 1890

Eu não sou boa de ginástica, não faço quase nunca. Mas tenho certeza que não é para sempre, é que apenas a minha hora de esportista ainda não chegou. Quando crescer um pouco mais, eu sei, vou ser maratonista.
Aguardem.
Enquanto isso, eu ando. Duas ou três vezes por semana eu vou até o parque Vila Lobos, que é aqui perto de casa, e ando durante uma hora e meia. Já alguma coisa. O parque é o máximo e está cada vez mais bonito, ainda mais agora que está sendo ampliado. Nos finais de semana fica apinhado de gente, é bárbaro ver um espaço público que funciona, que as pessoas usam, que está bem cuidado.
Legal.
Mas não era isso que eu queria falar. Eu queria contar uma coisa que eu faço há anos e que me dá o maior prazer. É uma coisa esquisita de fazer e ainda por cima confessar, mas vamos lá.
Eu sempre entro por uma entrada lateral do parque, que fica mais perto da minha casa. Tenho um roteiro da minha andada lá dentro, como se eu fosse um carro de fórmula um dentro de Mônaco, e sei que aquele roteiro dá a tal hora e meia da minha caminhada.
Bom, no meio desse roteiro eu passo na frente ao portão principal, que é um espaço enorme, cimentado, plano e vazio. É uma espécie de praça da apoteose quadradona e imensa, sem árvores no meio. É um lugar lindo, na minha opinião, pois a quantidade de céu que se vê ali é enorme. Em São Paulo é difícil você ver um ceuzão e é quase impossível você ficar no meio do nada. O máximo aquilo.
Bom, aquele lugar imenso está bem no meio do meu caminho. E ali eu faço uma coisa estranha. Eu ando de olhos fechados.
É maluquice, mas basta chegar naquele lugar enorme e cimentado que eu fecho os olhos e ando sem ver para onde eu estou indo um tempão. Acho uma delícia fazer isso. Gente, pensa. Onde a gente pode andar de olhos fechados com segurança um tempão, sem perigo?
Tanto faz se eu andar um pouco torto, aliás acho que ninguém nunca reparou que estou de olhos fechados. Eu adoro isso, me dá um enorme alívio. Por algum motivo muito estranho, sinto que posso me atrever a essa maluquice, pois ali não há abismos para cair, não há perigos eminentes, não serei atropelada, não serei assaltada, não serei julgada.
Ali pode, essa é a questão.
Não sei direto o motivo dessa esquisitice ser uma coisa tão legal pra mim. Acho que é porque é muito complicado ser mulher, mãe, dona de casa, profissional e morar nessa cidade tão confusa. Tudo meio que não pode, o mundo de uma mulher é cheio de “nãos”, de obrigações, de coisas a fazer, de funções a cumprir. A minha vida, assim como a vida de um monte de mulheres, é, na maior parte do tempo, colocar uma complicada máquina para funcionar, com funções que vão desde abastecer a casa, educar e alimentar a família, planejar os horários dos filhos e da vida profissional (afe, como eu detesto isso), trabalhar como se fosse a única coisa que você faz, cumprir funções sociais e ainda ser saudável, pois sem saúde as coisas não funcionam direitinho. Eu consigo (não sei como) e minha vida anda, com os olhões bem abertos. O que me aborrece são os “nãos”. Depois de cumprir todos esses “sins”, vem um monte de “nãos”. Não pode sair à noite sozinha, não pode dar chilique, não pode comer muito, não pode dançar muito, não pode beber muito, não pode rir muito, não pode não programar, não pode não fazer, não pode, não pode.
Não pode nada de olho fechado.
Acho que é por causa disso que aqueles cinco minutos são legais. Aquilo, gente é quase uma morte. Passos permitidos para o nada, para o além, para o perigo. Pois no meio disso tudo, naqueles cinco minutos eu posso quase morrer, andando sem saber para onde de olhos fechados, que pode.

sábado, 27 de maio de 2006

mosca cubana


O Zé foi pra Cuba.
Voltou, descarregou as fotos no meu micro. No meio delas, achei essa.
Uma mosca?
O Zé é engraçado.
Trouxe um monte de rum na mala.
Tomamos morritos ontem.
Nossa.
Vixe.
Afe.
Rum é forte demais.
Inutiliza.

sexta-feira, 26 de maio de 2006

o skype e as botas


- Alô. Lúcia?
- Alôôô. Sandra?
- Não tou ouvindo nada. Esse skype hoje tá horrível... tá ouviiindo?
- Mééédio, Sandra... parece que você está dentro de um balde.
- E parece que você está dentro da água. Tua voz tá borbulhando. Vamos desligar e ligar do telefone normal, Lúcia.
- Nem pensar! - eu disse - Você acha que eu vou fazer um interurbano e pagar? Vamos falar de dentro do balde e da água mesmo que é grátis, ô Sandra.
- Tem razão... - ela concordou, com voz de balde.
- Você não sabe o quanto eu economizei no mês passado - argumentei, com voz de afogada - Quase trezentos reais!
- Nossa...
- Sandra, dá pra comprar uma bota. Custa esse preço uma bota legalzona, eu vi no shopping ontem.
- É mesmo, vamos aguentar.
- E depois...
- Botas! - ela disse, rindo, com a maior voz de balde.
Gente, falaverdade, o skype é muito legal.
É propaganda sim: mesmo com voz de balde ou borbulhada, depois dá pra comprar botas.

E falando em falaverdade!, hoje tem crônica nova na revista paradoXo, podem ir conferir: perca aqui, ache ali

quinta-feira, 25 de maio de 2006

a bolinha de chiclete



Foi numa outra reunião de trabalho. Estávamos em seis pessoas, todos numa grande mesa retangular, discutindo os encaminhamentos de uma obra quando uma das engenheiras abriu a bolsa e pegou um chichetinho. Reunião sempre me dá a maior fome. Acho que é culpa do meu inconsciente, que vê “mesa” e pensa “comida”. Óbvio. Imagino que se tivéssemos que fazer reuniões de trabalho em “camas”, eu morreria de "sono".
Associação, ué.
- Quer? – ela perguntou ao notar o olho gordo.
- Hum. Aceito.
Ninguém mais quis, só eu. Coloquei o chicletinho na boca e comecei a mascar. Em questão de segundos aquilo ficou mínimo. Chiclete esquisito, mas como o ditado diz que à cavalo dado não se olha os dentes, fiquei caladinha.
Depois de um certo tempo, entrou na sala uma copeira com um bandeja de café.
Oba. Café.
Chegou a minha vez.
- Açúcar ou adoçante?
- Puro – respondi.
A moça me deu a xicarazinha.
Não dá para tomar café quente com chiclete de hortelã na boca, certo? Olhei ao redor e tirei o chicletinho da boca com os dedos, discretamente. Legal. Fiquei com o negocinho na mão. Onde colocar? Não tinha um único papelzinho por perto. Olhei ao redor. Nada. Nem um lixinho à vista na sala, e eu com aquela bolinha grudenta na mão. Resolvi colocar aquela bolinha de goma no cantinho da xícara, bem discretamente. Afinal, era uma bolinha mínima de chiclete.
Tentei uma primeira vez, mas a bolinha não desgrudou do meu dedo. Estava mais interessada em mim do que no pires. Alguém me fez uma pergunta sobre a reunião.
- Hã? Como?
A pessoa repetiu. Eu paralisei com a bolinha nos dedos, disfarçando, como se ela não existisse, e me pus a falar. Logo que acabei, voltei à bolinha. Nada, ela não desgrudava. Dei uma sacudidinha. Neca. Fiz a burrada de me aproximar da xícara quente, o que deu uma derretida na bolinha e tornou-a mais melequenta e mais grudada no meu dedo. Saco. Ela não saia da minha mão de modo algum, embora eu fizesse a maior dança ao redor do pires. Foi quando falaram comigo de novo. Virei estátua mais uma vez.
Falei direitinho, suspirei e, quando deu, voltei à ela. Embaixo da mesa não dava para colocar, pois parte do tampo era de vidro. Resolvi enrolá-la mais ainda com o dedo e o dedão, para ver se com a fricção eu tirava um pouco do grude. Foi quando a bolinha grudou nos dois dedos. Raiva. Voltei ao pires, por cima e por baixo, e quando falaram comigo de novo eu já não prestei mais atenção alguma, pois aquilo estava me irritando muito e eu só conseguia olhar aquela porcaria de bolinha, o pires e meus dedos. Pra que que eu fui aceitar aquela droga? Quando vou aprender a não ser criança? Parei a rolar a bolinha e, nervosa, esqueci o tudo e passei a sacudir a mão. Dane-se. Até que uma hora, meio sem perceber, dei um safanão violento para o nada e um urro.
- Urghhh! Saco!
Quando olhei ao redor, a sala estava em total silêncio. Sepulcral. Vergonha.Todo mundo me olhando, pasmo. Acho que eles pensaram que eu estava tendo um ataque. Parei e mostrei a bolinha para todos. Nem assim ela tinha descolado de mim.
- Grudou – eu disse, muito envergonhada.
Afinal, uma adulta, né.
A engenheira, sem achar graça nenhuma, me deu o papelzinho usado do adoçante dela. Desgrudei. Ufa.
Mas fiquei sem café. Gelado. Fazer o quê.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

tá, guarulhos...



Ontem fui numa reunião de trabalho. Foram convocadas, além de mim, mais três pessoas.
Seria no escritório de uma delas. Duas e meia, lá na Vila Olímpia, falava o e-mail.
Lá fui. Sempre chego um pouco atrasada, não sei o que acontece. A arquiteta e o engenheiro da obra já estavam lá, mas ainda faltava o engenheiro do ar condicionado chegar. O tempo foi passando. Conversa, cafezinho, vamos para a sala de reunião, tá frio aqui, quer que desligue um pouco o ar, e nada do cara chegar. Depois de meia hora, a arquiteta resolveu ligar para ele. O que acontecia?
- Alô? Edson? Estamos aqui te esperando, você vai demorar? Já são mais de três horas, combinamos duas e meia.
Não ouvimos a resposta dele, mas pudemos perceber, pela expressão dela, que alguma coisa estava errada. Ela ia exclamando, discordando, interrogando, mexendo a cabeça como se não entendesse nada. Depois fez uma cara aborrecida e pediu um minuto.
- Ele não vem. Ele disse que se enganou, que a secretária disse para ele que era amanhã – ela tapou o bocal do telefone e cochichou – Eu acho que ele esqueceu...
- Droga – falou o outro engenheiro – Fez a gente vir até aqui.
- Olha. Fala para ele vir agora que a gente espera – eu sugeri – já estamos aqui, podemos esperar uma meia hora mais - todos concordaram - Vamos. Fala para ele vir.
Ele destapou o telefone e começou a falar. Mas percebemos, pela cara dela, que não ia dar certo. O cara não queria vir. A arquiteta, irritada, despediu-se e desligou.
- Ele não vem? – perguntei.
- Não – ela desabafou – Ah, disse que está em Guarulhos, que é muito longe, está chovendo, que não vai dar.
Fomos todos embora, fazer o quê. Mas eu vou dizer uma coisa que pensei naquela hora sobre essa coisa de Guarulhos. Tá na cara que é mentira que o cara estava em Guarulhos. Guarulhos é, na verdade, uma ótima desculpa. Canso de ouvir essa desculpa de “Guarulhos”. Guarulhos é um lugar de São Paulo onde todos podem estar, óbviamente, pois é até o onde fica o aeroporto internacional, mas é completamente fora de mão para chegar e voltar. Numa situação como essa, onde você é solicitado imediatamente, a melhor desculpa é essa: “tou em Guarulhos”. Não dá para chegar a tempo estando em Guarulhos, ainda mais com chuva. Uma grande desculpa, Guarulhos. Coisa de gente esperta, rápida.
- Cara astuto, mas a mim ele não engana - comentei com a arquiteta.
- Guarulhos... boa essa... – disse o outro engenheiro – Vou adotar. Guarulhos...

terça-feira, 23 de maio de 2006

aprenda a desenhar mulheres com orelhas



Foi na saída da exposição do Fernando Stickel do aqui tem coisa (muitíssimo legal, fotos fantásticas), onde além de conhecer o Stickel eu conheci a Márcia Kawabe do Namastê, de quem sou super fã. Podem ir conferir lá no blog deles, um absurdo, eles me destarjaram toda.
Tsc. Logo eu, uma das tarjadas mais famosas da net, ser desvendada assim. Da próxima vez tomarei cuidado e sairei tarjada de casa.
Fui com a minha filha Nana, e, quando entrávamos no metrô para voltar, ela ganhou esse folheto de um curso de desenho. Ficamos horas analizando, eu e ela. O impressionante não é só como o desenho do "depois" é ruim. O interessante é o "antes".
Gente, póde uma coisa dessas?
Olha esse "antes"!
Porque no desenho do "antes" a pobre mulher tem que ser vesga e não ter orelhas ?
*ps.: já sei! De castigo pela falta de tarja, eu vou desenhar a Márcia e o Stickel vesgos e sem orelhas... hehehehehe...



segunda-feira, 22 de maio de 2006

o código da fila



- Mãe.
- Oi.
- Vamos ver Código da Vinci hoje?
- Chico, você tá doido? Tem mais fila no Código da Vinci do que quilômetros de congestionamento naquela segunda do PCC. Não vou nem morta, domingo é dia de descansar e não de micar. Podemos até ir ao cinema, mas no Código nunca. Jamais.
- Ah, vá. A gente compra na Internet e ...
- Não. A gente não vai conseguir. Esquece.
Escolhi um outro filme num cinema lá na Paulista. Eles pegaram o jornal, fuxicaram e a minha filha se adiantou.
- Mãe, nesse mesmo cinema mas em outra sala está passando o Código... vamos supor que tenha ingresso. Se tiver a gente pode ver?
- Não vai ter. Domingo de estréia.
- E se tiver?
Suspirei. Eles não tem noção.
- Se tiver a gente vê, gente.
- Legal.
Fomos para a Paulista. Almoçamos numa lanchonete na rua Augusta aonde eu ia quando era criança e morava na Haddock Lobo. Depois do almoço, como era cedo, fomos andar pela avenida. Eu morei por ali por vinte anos, adoro aquele lugar. É estranho ter familiaridade com um lugar tão cosmopolita e urbano, mas eu tenho. Adoro aquela avenida e as redondezas. A Paulista acolhe os pedestres. Nunca vi ninguém exaltar a Juscelino ou a Santo Amaro. E a Faria Lima, embora seja generosa, tem edifícios que oprimem o pedestre. A Paulista não. A Paulista aceita, convida.
Chegamos no cinema. Faltava meia hora para o meu filme e uma hora e meia para o Código. Lugar lotado. Entupido. Os meninos se empoleiraram no guichê.
- Tem ingresso pra o Código?
- Ainda tem – falou a bilheteira.
Eles pularam de alegria.
- Viu mãe? Ahá. Viu?
Vi.
Compramos.
- E agora? Olha esse lugar que inferno.
Eles me olharam.
- Ora mãe. Agora a gente vai para a porta e ficamos por ali, pois vamos ser os primeiros a entrar.
- Os primeiros? Impossível. Vocês são completamente malucos. Não sei porque eu topei vir. Vai ser um inferno. Vou acabar brigando com alguém.
- Mãe, menos. Vai até a banca, compra um sudoku pra você, toma um café e volta daqui a pouco. Sossega e deixa com a gente.
Dito e feito. Comprei um sudoku, tomei um café, sentei para ler na sala de espera.
- Mãe! Vem!
Levei um susto quando vi o tamanho da fila. Aquilo devia lotar uns cinco cinemas. Uma fila enorme e larga, pois não existia vivalma sem um balde monstruoso de pipoca e uma copo com dois litros de refrigerante. Cadê meus filhos? Não era possível. Hã? Os primeiros?
- Aqui mãe!
- Como conseguiram?
- Essa é a graça mãe. Essa é a graça. Temos cara de losers? – eles me disseram, triunfantes – Esse é o divertimento, não é só ver filme. É ser o primeiro da fila, ahá!
Os três sorriram. E fazia parte da vitória entrar correndo na sala, antes de todo mundo. Ou seja, fomos os primeiros a entrar na sala e assistimos em lugar nobre. É engraçado o bem que um trunfo (ainda que ridículo desses) faz nas pessoas. Sério, até eu me senti super poderosa e entrei de nariz empinado. Afinal, era a primeira da fila! Que domingo vitorioso. Nossa. Uau.
O filme? Maravilhoso, eu adoro filmes de aventura onde as pessoas quase morrem a cada cena e não traumatizam, não precisam de antidepressivos e nem de analistas.
Mas que filme o quê.
O melhor foi desvendar o Código da Fila.

sexta-feira, 19 de maio de 2006

a frase do japonês



Aconteceu num restaurante japonês que abriu no shopping aqui ao lado. Fui com um amigo na hora do almoço para experimentar. Veio um garçon japonês sorrindo e me perguntou o que eu queria beber.
- Uma tônica diet.
Ele fez uma cara engraçada, sorriu, fechou mais os olhos e falou a frase mais engraçada do meu dia.
- Ah. Tônica num tá tendo, né.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Zuuupt!



Esse final de semana passada aconteceu um fato inédito. Consegui ir ao cinema com meus três filhos. A última vez que isso aconteceu foi há dois ou três anos atrás, no primeiro dia do ano, numa estréia do Senhor dos Anéis - um filme que vi, adorei e não entendi patavina. Aliás, vi todos os Senhores dos Anéis sem entender direito quem era do mal, quem era do bem e onde eles iam chegar com aquilo.
Ver um filme em família é ótimo, pois é como compartilhar de uma história em conjunto. Isso torna o grupo familiar mais unido - o que, no meu caso, significa termos em comum mais uma lista enorme de gracinhas e bobeiras. É como viajar em família, coisa que adoro também, apesar de sentir que nas viagens, como o tempo é maior, as idades mentais minha e do Zé caem muito - acabamos nos transformando em duas crianças, brigando pelas coisas mais inúteis e tirando sarro um do outro.
- Hahaha, Zé, você se ferrou! – eu disse um dia à ele num restaurante.
Afe. Absurdo uma esposa falar isso.
Mas voltemos ao cinema. Agora que os meus filhos estão maiores, podemos ver filmes bons junto e nesse sábado fomos assistir 'Caché'. Apesar da implicância com o cinema de rua que eu escolhi – eles gostam de cinema de shopping, onde obviamente podem consumir mais um monte coisas além do ingresso e da reles balinha – e da implicância com o filme – eles preferem comédias que falem asneiras, ainda mais quando estão juntos - fomos.
Chegamos, o cinema estava vaziíssimo.
- Ichi. A mamãe trouxe a gente pra ver um filme mó-mico.
- Aposto que é tosqueira.
- Tem quatro estrelas no livrinho da Folha, gente.
- Dá um dinheiro preu comprar pão de queijo, plis.
- Quero uma coca.
- Pra mim frutela.
Não vou aqui fazer crítica do filme. É legal, mas concordo com tudo que falou o Caio, um amigo que fez uma crítica legal no recém fundado blog dele, podem conferir. Fico somente com a idéia de que certos traumas de infância a gente simplesmente não esquece – e que a nossa vida pode ser totalmente norteada por isso, como mostra o filme. É uma idéia bastante doentia, mas intrigante.
Mas que eu queria levantar é que, tendo ido com os filhos adolescentes e compartilhado com eles a história, mais esse filme passou a fazer parte da nossa vida e nosso imaginário familiar – tanto a trama quanto algumas cenas. E – é engraçado – os meus três filhos, desde sábado, a toda hora me olham e zuuupt – passam o dedo no pescoço, em alusão à cena horrível onde um dos personagens corta a goela e esguicha sangue pra tudo quanto é lado. Eu grito, eles morrem de rir. Repetidamente. Repetidamentee. Repetidamente. Olha, eles já cortaram a goela umas duzentas e quarenta mil vezes aqui dentro de casa desde o final de semana.
Olho para eles e...
Zuuupt!
E – engraçado também – na manhã de domingo eu fui pegar o jornal lá fora, abri a porta e achei esse desenho ai em cima no chão.
Bem, quem assistiu o filme entenderá...

quarta-feira, 17 de maio de 2006

e ai, macarrão?


- Chico.
- Oi mãe.
- Olha os nomes dos caras do PCC – eu disse, mostrando o jornal para ele – Leia.
Ele leu.
- Tá, e daí?
- Que você achou?
- Nada. São os nomes dos caras.
- Muito bons, não acha?
- Mãe, você tá doida?
- Olha pra isso: Marcola, Julinho Carambola, Pateta, Macarrão, Gegê do Mangue... Olha esse Chico, Magaiver! Olha como escreve Magaiver, filho. Tem mais uns... Cesinha. Geleião! Eu não acredito. É muito bom isso.
Olha gente, eu sei que a gente não pode achar nada bom no PCC e nessa história toda que houve aqui em São Paulo, mas desculpa. Desde que o João, meu filho menor, me perguntou que nome eu teria se eu fosse traficante (vide post anterior) que estou com essa coisa de nome de bandido na cabeça, e hoje de manhã fiquei absolutamente deslumbrada com os apelidos da gangue do PCC. São maravilhosos. Tá, achar uma coisa boa no PCC é totalmente politicamente incorreto, vocês me perdoem mesmo, mas digamos que minha admiração é em prol da literatura.
Sou muito ruim de nomes. Posso ser boa de crônica, boa de história, mas de nomes sou uma desgraça. Fico horas para achar o nome certo para o personagem e geralmente faço escolhas horríveis. Leio, releio, mudo diversas vezes. Peço ajuda para amigos, para os filhos, para a Maria.
- Mariiiiá.
- Oi, lúcia.
- Fala um nome de uma vizinha sua.
- Hã? Porque?
- Por nada, só me responde. Como chama a sua vizinha?
- Qual delas, lúcia? Como assim?
Às vezes o pobre do personagem das minhas histórias fica dias sem nome, desbatizado, nulo, inexistente. Procuro nomes em jornais, revistas, livros, outdoors. Para mim é das partes mais difíceis da escrita, essa, de descobrir o nome do personagem. Um nome errado pode avacalhar uma boa história.
Saber dar nomes é uma arte, gente. Uma arte, sem dúvida alguma. E nada como a realidade para nos mostrar que os nomes bons estão ai na frente.
Marcola, Julinho Carambola, Pateta, Macarrão, Gegê do Mangue, Magaiver, Cesinha, Geleião.
Sério, eu seria incapaz de fazer tão bem feito.

terça-feira, 16 de maio de 2006

não teve graça nenhuma



Embora eu seja exagerada com um monte de coisas, odeio exageros de pânico. O que aconteceu ontem foi uma coisa perigosa demais. O medo é uma coisa que vai aumentando, o clima de terror contagia e, embora adultos normais tenham noção do perigo, é fácil perder o controle. Fofoca de medo para mim é uma coisa detestável. É claro que temos que saber dos perigos que corremos, mas não devemos aumentar o perigo. Tenho a tendência, sempre, a minimizar o medo. Talvez seja um modo de se defender, talvez um característica de mãe que precisa ter o controle da situação. Mas as pessoas em geral não são assim. Sei lá, parece que gostam de aumentar. Podem falar que é perigoso ser como eu sou, mas eu acho o contrário - é perigoso exagerar.
No meio da tarde tive vontade de desligar a Internet e as televisão que falava sem parar as mesmas notícias. Vi um tal ônibus incendiado umas trinta vezes. Os amigos ligavam que iam para casa. Bomba no aeroporto, me disse um. Fecharam o Itaim, um festival de tiros na João Cachoeira, falou outro. Foi interditada a rua aqui do lado onde mora o secretário. Me liga uma mãe: nenhuma criança deve ir na Cultura Inglesa hoje, ligue para todas suas conhecidas. Não, não faço isso, pensei. Não espalho medo. Não sei bem porque, mas não faço isso.
E faço campanha: não espalhem também. Coisa ruim a gente digere e esquece.
Começaram até uns boatos esquisitos. Troca de tiros na Oscar Freire. Uma arquiteta de ligou dizendo que metralharam uma loja de decoração na Gabriel. Ameaça de bomba no Shopping Iguatemi. Será possível que o PPC tenha resolvido acabar com todos os lugares chiques de São Paulo? E a Daslu, esqueceram?
Porém a gente filtra, mas criança não. E assim, enquanto todos já estavam chegando em casa, tive que sair pelas ruas para resgatar o João que sobrou, em pânico total, fora da porta do clube fechado no começo da noite. “Mãe, tá escuro, estou sozinho e me falaram que se eu sair daqui vou levar um tiro. Estou num orelhão, me ajuda. Estão dizendo que fecharam a Faria Lima e a Marginal”. Absurdo, mas os seguranças do clube falaram isso para o menino antes de ir embora. “Eu vou ai agora, João. Fica onde você está que eu já chego”. Não teve graça nenhuma. Peguei todo esse transito ai, cheguei duas horas depois mas salvei o menino do medo. É disso que eu tenho medo.
Do medo.
Quando cheguei em casa, desligamos a TV e o computador e colocamos uma comédia bem boba no DVD. Chega. Sem comentários. Tem coisas que não tem graça nenhuma.

segunda-feira, 15 de maio de 2006

van, teatro e biritas



- Saiu ontem à noite, mãe?
- Sim, fui ao teatro com a turma da van.
- E ai? Peça boa?
- Maravilhosa, recomendo. Banco do Brasil, lá no centro. Uma peça chamada Molly Sweeney, com a Júlia Lemertz fazendo um papel de uma moça cega – e ela me deu um folheto que estava sobre a mesinha de centro – Essa peça você precisa ir ver. Ela trabalha muito bem.
- Legal.
Eu gosto das dicas da minha mãe. Mesmo sem ser uma super entendida de teatro, ela tem uma ótima noção de roteiros e interpretação.
- Depois fomos jantar numa pizzaria, chegamos tardérrimo. Fechamos a pizzaria, foi outra noitada daquelas.
- Que horas? Duas da manhã?
- Que duas que nada. Acho que três e meia, a madrugada entra e as senhoras bebem e bebem. Uma pede uma cevejinha, outra uma caipirinha, outra um campari, outra uma taça de vinho e a coisa não acaba – ela contou, rindo - Tem uma senhora, chiquérrima, que fica ali no choppinho, discretíssima, mas, quando vemos, elas já tomou mais de meia dúzia. Na hora que levanta, anda zanzando, tortinha. A organizadora da van sai correndo para ajudá-la.
- Ah, é assim é?
- É. E é uma pena eu não poder beber por causa dos meus remédios, filha, as senhoras se divertem tanto... O seu Loreto, o único homem da nossa turma, chega nos restaurantes e já pede uma garrafa de vinho para começar. Ele adora ser o dono do vinho e distribuir para as senhoras, nem sei quantas garrafas ele paga no final. Ele bebe e enche o copo de quem está do lado o tempo todo. Geralmente quem se senta ao lado dele sai completamente bêbado. Eu e uma amiga notamos que algumas senhoras disputam a tapa os lugares ao lado dele.
- Sempre achei esse seu Loreto um perigo – eu disse, caçoando.
- E cada dia mais as senhoras estão preferindo o jantar ao teatro, sabe? Antes saíamos para ir ao teatro, agora assistimos a peça rapidinho e elas perguntam: onde vamos? Parece que noite agora só começa ali, com as bebidinhas, isso que é engraçado.
- Ah. Está dizendo que elas querem é...
- Beber, filha. Isso mesmo. Cair na farra, tomar muitas cervejas, muito vinho, dar risada, falar pelos cotovelos.
- Perder o controle?
- Isso. E não querem ir embora não. A organizadora fica bocejando, pedindo, “vamos embora, gente, vamos embora” e elas nem nem se mexem da cadeira. “Já?”, elas falam, “vamos tomar mais uma, vamos ficar mais um pouco”, pedem, rindo, relaxadonas.
- Mãe, que engraçado. Não era assim a sua turma no ano passado, no ano retrasado. Era uma turma de velhinhas caretas, sem graça, quase mortas.
- Pois você veja só, minha filha.
- Estou vendo, minha mãe... – eu disse, rindo – Estou vendo que essa van trouxe vida à um monte de mulheres. Que bacana essa animação, essa alegria.
- Tsc. Pena que eu não bebo! – ela disse, desenxabida.
- Mãe!
- Mas filha, pensa bem! – falou minha mãe, defendendo as noitadas – Nós podemos cair na farra! Somos velhas, vida resolvida. A organizadora nos entrega em casa sãs e salvas e ninguém precisa dar satisfação pois todas moram sozinhas. Que problema pode ter?
Foi quando me lembrei do seu Loreto. E concordei.
- E também ninguém engravida, né?

sábado, 13 de maio de 2006

sangue bom


- Aconteceu uma coisa engraçada e horrorosa comigo ontem – me disse um amigo.
- Engraçada e horrorosa? Como assim?
- Pois é – ele explicou – ontem me ligou um amigo de infância pedindo para eu doar sangue para o pai dele, que estava no hospital e precisava muitíssimo. Eu conheço esse cara desde moleque. Na hora eu fui e doei, claro.
- Sei.
- Depois de um tempo, liguei para ele e avisei que já tinha doado. Ele me agradeceu e disse que o pai dele estava fazendo uma transfusão naquele exato momento. Me senti super útil quando ele contou aquilo, pois eu fui, doei, e o homem estava recebendo sangue. Achei aquilo bem legal – ele fez uma pausa e me olhou – Bom, agora que vem a coisa engraçada e horrorosa.
- Conta.
- Bom, depois de uma meia hora, esse amigo me liga de novo. “O que foi”, perguntei. E ele me diz que o pai tinha morrido. Acabado de morrer.
- Coitado...
Ele fez uma cara de quem estava com vontade de rir.
- Olha, Lúcia. Eu sei que o sangue que a gente doa vai para um banco de sangue e o que eles dão para a pessoa não é o nosso, mas fiquei péssimo. Será que foi culpa minha?

sexta-feira, 12 de maio de 2006

zzzzzzz...


( foto: a.l.s.)

Confesso.
Estou a cada dia mais infantil, politicamente incorreta e sem noção. Mas ontem fui para o Rio com um monte de engenheiros e arquitetos, do nosso lado no vôo sentou um japonês que dormiu profundamente. De roncar! Eu encasquetei de tirar uma foto minha com ele dormindo sem que ele percebesse. E, depois de muita mímica, consegui passar minha máquina para uma arquiteta (e atriz) que, depois de um acesso de riso, tirou essa foto toda tremida.
Porque?
Ora, era um desafio, um assunto. A vida não tem muita graça se a gente não inventa uns trecos bobos.
E sou mesmo infantil, politicamente incorreta e sem nenhuma noção, fazer o quê...
E hoje tem crônica nova na revista paradoXo, podem ir conferir: invasão de domicílio

quinta-feira, 11 de maio de 2006

uma canja para uma blogueira expressiva


Vocês já foram no blog da Márcia, o Namastê? Ela é, na minha humilde opinião, uma grande blogueira-cronista. Em estado bruto ainda, mas é. Tem histórias ótimas da vida dela, tem o maior senso de humor e um jeito muito parecido com o meu de contar as coisas. Há anos que eu falo isso para ela, até que na semana passada um cara, também blogueiro, chamado Nelson Botter (com a ajuda da Bruna) chamou nós duas para participar de uma antologia de crônicas que ele está fazendo.
Foi quando a Márcia me escreveu de verdade e passamos a falar em particular pelo MSN, depois de anos falando publicamente dentro das caixinhas de comentários. Ela se mostrou mais divertida ainda, e, como estávamos ali sozinhas, antes de entrar no assunto “crônicas”, “antologia”, “Nelson”, resolvemos fofocar um pouco sobre os outros blogueiros.
Foi quando ela falou uma coisa engraçada.
- Lucia. O Pecus faz comentários com botox, já reparou?
– Como é isso, Márcia?
- Quando ele comenta os nossos textos ele não expressa nenhum sentimento, A gente nunca sabe o que ele achou. Ele pode estar elogiando ou detestando que o tom é o mesmo. Igual gente com botox na cara.
Fala se a Márcia não é engraçada.
- Tem um pouco de razão. Pecus Botolis.
- Aliás, você o imagina expressando alguma reação facial quando lê os comentários dele? Vai ver que isso acontece na vida real. Ele usa botox no rosto?
Iii, contei tudo, Márcia.
Mas é que essa questão de se comunicar por palavras escritas é realmente complicada. As vezes ficamos mesmo com algumas pulgas atrás da orelha. Dependendo do modo que a pessoa escreve, nunca sabe o que ela quer dizer. E as vezes o modo da pessoa escrever, proposital ou não, revela ou induz a uma impressão que não é exatamente o real. O Pecus, por exemplo, para mim, que conheço ao vivo, é uma pessoa com expressão (bem, na vida real eu tenho dúvidas se usa botox no rosto ou não), mas para a Márcia, que só o conhece somente através dos comentários, ele é um desexpressado total.
Eu, por exemplo, não gosto e gente que ri muito “ahahah” ou “rsrsrsrs”. Penso que pessoas assim são ansiosas e aflitas. Gente que usa reticência eu também implico, pois me parecem sem graça. Pura impressão. Também acho que gente que escreve muito é devagar, lenta, mas tudo isso não significa nada. Conseguir escrever como se fala e como se é dificílimo. Talvez ninguém consiga.
Falando nisso, outro dia resolvi parar de exclamar e interrogar. Encasquetei que o formato da frase e as palavras certas resolveriam. Meus textos ficaram bem esquisitos, e uma colega minha de trabalho me perguntou se meu teclado tinha quebrado. Sei lá. Me senti bem não exclamando. Esse excesso de felicidade e de euforia que volta e meia me assola estava me afligindo.
Mas cá entre nós.
“Comentários com botox” é demais, não acham?
Coisas de Márcia.
Uma blogueira expressiva.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

franka flor de erva



Na época ele tinha uns sete anos.
- Mãe.
- Fala, João.
- Se você não fosse mãe, e fosse traficante...
- Fosse o quê?
- Traficante, bandida, assaltante.
- Sei.
- Qual nome você se colocaria?
- Nome?
- É. Nome, apelido. Igual a Fernandinho-beira-mar, essas coisas.
- Traficante? Hum, deixa eu ver. Que tal lúcia-pé-de-ouro? Lú bolsa cheia? Lulu ervinha?
-Mama Gold. Lú pózinho.
De repente eu cai na real.
- João, peloamordeDeus, você fala muita bobagem!
- Desculpa, mãe.


(são benedito, o protetor das frankas que mentem)

terça-feira, 9 de maio de 2006

a chata



O João foi viajar numa excursão da escola no domingo de manhã, seis horas.
- Vamos filho. Acorda.
Fomos para o local combinado arrastados, eu e ele. Mala, filtro solar, roupa de cama, lanterna e sleeping. Carteira de identidade original.
- Leva uns biscoitos. Toma o dramim. Pega o boné.
Chegamos. Aquele monte de mãe e pai parado olhando as malas e os filhos. O ônibus ligado, um professor com uma prancheta anotando. Ainda não chegaram todos, ele explicou.
- Um absurdo. A gente acorda cedo e tem gente que não tá nem ai - disse um pai bocejando.
Achei duas mães conhecidas. Amigas.
- Tudo bem? - cumprimentei.
- Claro que não – falou uma delas, rouca - Isso é doentio. Pra que viajar a uma hora dessas no domingo.
- Coisa mais sem graça – falou a outra - Muito cedo...
Mais bocejos.
Chegou um pai correndo. A roupa parecia um pijama.
- Isso é um pijama – cochichou uma das amigas – Vende naquela loja da Hering ali da avenida.
- Olha – mostrei os pés do cara – Nem calçou o tênis, tá vestido feito chinelo.
- Acordou dez minutos atrás - riu a amiga.
Foi quando chegou a chata. Olha, já pensei muito e ainda não entendi exatamente o quê faz uma pessoa ser considerada extremamente chata. Mas aquela mãe que chegou ali, atrasadinha, correndo, era a maior chata do mundo. Pode ser que fosse a roupa, a voz, o jeito, a atitude, os saltitos, as decisões, o modo de se comportar no grupo, sei lá.
Chata.
Muito chata.
Ela veio toda rapidinha, abraçando a filha e carregando a mala. A gente lá morta de sono e despencada e ela toda acesinha, andando, falando.
- Olha Jujú, eu vou te deixar e vou me embora! Não preciso ficar aqui esperando o ônibus sair, não é? Você não é mais nenê! – ela disse bem alto – Né, filhota? Vou te deixar e ir embora que isso não é pré primário!
E antes que a filha respondesse, ela deu um beijo na menina, largou a mala com o motorista e catapimba: saiu correndo toda-toda. E na hora que saiu, disse bem alto.
- Ai genti, eu vou é dormir!
Urgh.
Que ódio. Ficamos todas, eu, minhas três amigas e o pai de pijama, parados e de boca aberta assistindo a cena.
Chata, pensamos em uníssono eu e minhas amigas.
Chata, chata, chata.
Que mulherzinha chata.
Como eu disse, não sei explicar, exatamente, porque naquela hora aquela mãe virou a maior chata de todo o universo . Mas ali ela foi insuportável, metida, irritante e merecia não dormir por uma semana só de castigo. Que coisa era aquela de ir embora antes do ônibus partir e dormir? Estávamos todos mortos de sono, mas não pode. Tem regras. Mães legais, em dia de excursão, tem que reclamar e ficar. É assim que a gente não é chata. É coisa de amiga, de igual, que sofre junto.
Mas ela não. Ela, a chata, abriu mão de uma dedicação à filha e principalmente de uma dedicação à nós para descansar. Ou seja, ao invés de se dedicar ao grupo dela, ela ia se dedicar à ela. Mãe mais desnaturada com as outras mães. Egoísta. Chata.
Uma das minhas amigas me olhou.
- Quer saber? Só saio daqui expulsa.
- Idem – falou a outra – Só tiro o pé daqui quando o ônibus sair.
Eu olhei para as duas. Era um tipo de vingança.
- Eu também. Fico até o último minuto.
Foi ali que nós três, sem falar uma única palavra sobre a chata, tivemos certeza do que significava aquele momento nas nossas vidas. O João está crescendo, mas é meu filho menor com seus doze anos. Os outros dois não me querem por perto na escola, nos encontros, nas partidas das excursões. Tem vergonha. Morro de saudade de ser mãe mais um tempo, acho um absurdo não ter mais filhos, essa nossa sociedade tão maluca que coloca um fim na capacidade de reprodução feminina depois de uma quantidade de filhos. Assim o João é o menor, tenho pouco tempo para cuidar dele, as coisas acabam e depois eu sei que vou morrer de saudade. Saudade de cuidar, de dar beijo, de ficar pulando na frente do ônibus dando tchauzinho. De ser mãe e de ser bem ridícula, bem exagerada.
- Eu fico até o João me expulsar – falei, rindo.
Ficamos dando tchau para os vidros fechados junto com o pai de pijama até o ônibus ir embora. Felizes com nossos filhos, com sono, com vontade de aproveitar a maternidade até o finzinho.
Afinal, não somos chatas.

segunda-feira, 8 de maio de 2006

"eles"

(desta vez, nenhum tarado...)

Fomos no cinema, eu, minha mãe e o João, meu filho menor.
- João, espera ali com a sua avó no café que eu vou comprar os ingressos.
Voltei.
- Comprou certo, filha? – perguntou minha mãe.
- Comprei – eu disse, mostrando os ingressos para ela – inteira para mim, estudante para o João e um ingresso de melhor idade pra senhora, mãe.
Ela colocou os óculos para conferir.
- É. Já não basta envelhecer e a gente tem que agüentar essa bobagem.
- Que bobagem?
- Essa bobagem aí de "melhor idade". Quê "melhor idade" o quê. É como o João Ubaldo falou, melhor idade é essa aÍ, do João. Essa minha é a “pior idade”. Devia estar escrito no ingresso: “pior idade”. A pior idade da vida que só tende a piorar mais ainda, claro.
Eu e o João rimos.
- Isso tudo é engambelação para enganar idoso, na minha opinião. Tudo engabelação deles para enganar a gente.
- Engambelação?
- É claro. É para a gente ficar feliz e caladinho. As aposentadorias dos idosos são uma merreca, o corpo já está mais pra lá do que pra cá e eles ficam enganando a gente para ninguém reclamar e não encher o saco. "Melhor idade". Ah, vá, tenha santa paciência.
Minha mãe é engraçada, pois ela vai aumentando as coisas.
- Mãe, mas quem são “eles”? Você está falando exatamente de quem? Quem são essas pessoas que te engambelam, tá maluca?
- Sei lá quem são eles. Mas alguém inventou isso, não acha?
- Acho.
Ela me olhou intrigada.
- Estranho, nunca tinha pensado nisso. Quem serão “eles”?