terça-feira, 31 de maio de 2016

Deuses, amém

Há uns cinco anos atrás, tinha uma palavra que ninguém falava: aplicativo. Essa palavra, segundo meu velho dicionário Aurélio que era do meu vô e que acabei de consultar, queria dizer “aplicável, ou, que pode ser aplicado”. E aplicativo era quase uma palavra esquecida no nosso português.
Agora olha que louco, a tal palavra "aplicativo" bombou a ponto de ser quase mitológica, na humilde opinião de quem não entende lá muito de mitologia. É que, de certo modo, os aplicativos viraram nossos novos Deuses. A gente acredita neles pra caramba. A gente não faz nada sem consultá-los. Nada.
Sério, gente, pensa. A cada dia surge um novo e mais crível Deus Aplicativo.
O máster bláster Deus de todos é, sem sombra de dúvida, o Deus Google, o rei da sabedoria. Você pode perguntar qualquer coisa para ele, mesmo que seja a menor asneira, que ele sempre, sempre tem resposta. Depois tem o Deus Whatsapp, tão famoso quanto, o famoso Deus da conversa fiada, que não para de falar o dia tooodo, às vezes é até preciso mandar o cara calar um pouco a boca. Perdão, Deus Whatsapp, não é calar, é "si-len-ci-ar a conversa", não quero ofender uma entidade tão em voga.
Dai vai.
Tem o Deus dos caminhos, o Deus Waze, que ajuda qualquer cidadão a se locomover em qualquer lugar do mundo, maravilhoso. Essa maravilhosa entidade, inclusive, se você quiser, conversa calmamente contigo, na maior paciência, dizendo pra onde você deve ir, mesmo se você, distraidamente, cometer erros estúpidos. Se você não tiver um carro, pode apelar para dois Deuses que brigam muito, o Deus 99taxi e o Deus Uber. Embora eles guerreiem muito, dependendo de onde você vá, um tem mais vantagens que o outro.
Tem também o cérebre Deus da amizade (ou das insuportáveis brigas políticas), o Deus Face, tem os Deuses do namoro, o Tinder e o Hapn, que protegem e aliviam os solitários. Tem o Deus das imagens, o lindo Instagram, os Deuses dos jogos, o das músicas, Deus Spotify, e até um do Shopping, pra você adquirir os da sua preferência, que é o Deus Appstore.
Tem os Deuses da beleza, que te ajeitam tuas fotos pessoais pra outros Deuses, tem o Deus Booking, o das viagens, o Deus Decolar, que literalmente decola, e, claro, tem os Deuses dos filtros das fotos das suas viagens, afinal, se exibir hoje em dia é essencial.
Tem os imprescindíveis Deuses do dinheiro, que trabalham com os irritantes códigos-de-barra e número-de-cartão, e diversos Deuses fúteis e inúteis, como o Deus estourador de bolinhas de plástico, Deus Candy Crush, e outros mais idiotas.
A lista é infindável, Deus dos exercícios, o Deus das cartas, Deus dos pontos de calorias, o Deus Gmail, atualmente meio caduco e cheio de vírus, e muitos, mas muitos Deuses das mesmas notícias repetidas.
Não sei bem se todo mundo percebeu, mas temos, de um certo modo, uma nova religião, da qual não desgrudamos: o Aplicativanismo. Quem diria que uma reles palavrinha ia modificar o mundo.
Hahaha. E aqui, claro, viva o Deus Facebook. Amém.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

o vestido e o sapato

Claro que eu falo muito aqui da Ângela. Afinal, irmã. A gente vive muito tempo do lado de irmão. E quando se vive muito tempo ao lado de alguém a gente tem muita intimidade.

Uma coisa que acontecia muito comigo e com a Ângela era um lance de roupa. Numa casa que só tinha mulher, como a nossa, claro que eu, ela e a mamãe, a gente emprestava roupa umas pras outras. A gente era menina e jovem, e a mamãe, viúva e novinha de tudo, muito mais nova que eu e ela hoje.

 Mas o problema é que a Ângela ela não tomava o menor cuidado com as roupas dos outros. Nunca tava nem ai, e geralmente a roupa que ela emprestava voltava toda ferrada. A mamãe não ligava, mãe sempre perdoa filha, mas eu, irmã, ficava puta. Ora, eram as minhas roupas que ela simplesmente... destruía.

Os meus super sapatos, por exemplo, um dia voltaram sujos de barro. Os mais lindos, chiques, mais caros.Barro!

- Ângela, onde você foi?

- Putz, pisei numa poça de lama. A festa foi num sítio, quer o que, Lú?

- Lama? Isso é barro seco, esterco!

- Esterco não é. Pode cheirar.

Teve um dia que eu fui madrinha de um casamento. Dai a mamãe comprou pra mim um vestido bonito, modernoso, estilo assim... hummm... meio New Age, David Bowie. Bem cafona hoje, mas na época era mega legal. O vestido era um tipo de tubo que era fino em baixo, acima do joelho, mas bem largo em cima, assim no seio.  E que abotoava todo atrás. Era cinza e todo meio durinho, estruturado. Tipo um cone. Vestido cone total. Lindíssimo, eu achava.

Ela me pediu, eu emprestei. Um casamento de uma amiga dela, como o que eu fui. E usou o vestido junto com o sapato que voltou cheio de barro, que eu vi quando ela chegou. Bom. Quando eu vi o "resto" da roupa no fim da festa dela, todos os furos de botões da parte de trás estavam rasgados. Dilacerados. Destruídos. A carne tinha sido praticamente comida. Nossa, eu fiquei puta.

- Ângela! Além de estragar meu sapato com barro e cocô de vaca, você estragou o vestido mais chique que eu tinha! Ângela! Você rasgou tudo, sua retardada! Olha!

(A gente adorava se xingar de "retardada". Isso hoje é mega politicamente incorreto, mas na época num era).

- Porcaria de vestido, Lúcia - ela emendou - Eu apenas me "sentei" no chão e os botões estouraram, porque o vestido era mais fino em baixo que em cima. Como alguém pode fazer vestido que uma mulher não pode sentar no chão?

- No chão? Você sentou no... chão, Ângela?

- É claro - ela retrucou - Queria que eu, no meio daquela chuva, daquela lama, daquele mato, me sentasse onde?

É, Angie, naquela época eu eu trouxa, mas hoje tem  tudo a ver.

Claro.

Porcaria de vestido e de sapato, óbvio.

o furinho da camisa


o furinho da camisa

Era noite e eu estava vendo tv. Trocando e destrocando o canal, de cá para lá.

Parei numa entrevista que um homem estava dando para um repórter. Porque parei ali não sei. Fico pensando o que leva a nossa mente a escolher um canal. Parece coisa pouca, mas não é. Esse negócio de controle remoto, já sabemos, é uma coisa ansiosa, nervosa. Existe uma pressa no controle remoto, uma urgência de definirmos nossos sentimentos internos. Captamos impressões, dores, amarguras, sorrisos, tristezas e temos que ser rápidos, ágeis nos dedos.

Bem, escolhi aquela entrevista. Achei interessante, não sei se pelo assunto que o homem abordava ou pela maneira dele falar, tão tranquilamente consigo mesmo. Esse homem ganhou o meu prêmio daquela noite. Era fácil ouvi-lo, simpatizar com ele. O controle remoto foi largado na mesa lateral.

Não sei o que ele fazia. Podia ser que fosse jornalista, roteirista de teatro, diretor de algum filme, escritor. Só sei que ele contava uma história. Era um homem mais velho, magro, de cabelos um pouco grisalhos. Simpático. Continuei ouvindo a falação dele.

Percebi que eu prestava mais atenção na pessoa dele do que no assunto em si. Sempre que assistimos à alguma coisa, ficam em nós resquícios, não propriamente do conteúdo literal. Às vezes o suco não é da polpa. É da casca. Depende de como está nossa pele aquele dia.

Numa certa altura, percebi um pequeno detalhe, bem pequeno, na camisa azul que ele usava.

Tinha um furinho perto da gola.

Um mini furinho.

Bem petitico.

Levantei do sofá e fui investigar pertinho da TV, franzindo o olho. Era uma coisa mínima, mas fixei meu olhar naquele furinho, uma camisa azul bem velhinha, gasta, e aquele buraquinho... Nossa. Era isso, verdade. Realmente tinha um furinho ali. E pior. Aquele buraquinho tinha sido remendado, cerzido e arrumado. Dava para ver. Estava muito bem feito, caprichado.

Um furo. Um furo na camisa do homem.

Depois desta hora eu não prestei mais atenção em nada do que ele falava. Afinal, pensa bem. Um moço vai dar uma entrevista para a TV e coloca uma camisa furada? Olha só que coisa, pensei. Furada. E ainda pior. Remendada.

Aquilo era demais, gente. Quem era aquele homem?

Primeiro achei bem simples. Vai ver que dar uma entrevista, para ele, era como falar com qualquer um, como se estivesse na casa dele, com uma roupa que ele gostava, confortável. Roupa velha, tinha até um furinho, mas estava consertado. E daí? Afinal, o importante era o que ele tinha a dizer, e era bom que ele se sentisse à vontade para dizer. Mas era só isso?

Olha, ninguém veste uma camisa com um furo para ir em algum lugar. As camisas com furos ficam nos armários, são reservadas aos dias de folga, aos melhores amigos, às noites que você sabe que não vai sair. Nunca são expostos, colocados à prova.

Aquele homem era diferente. Aquele furo dizia muito mais.

Aquele furinho começou a me dar tonturas. Foi crescendo diante dos meus olhos, ficando imenso. Já era uma enorme cratera que separava aquele homem dos outros homens, os homens sem furinhos. Um homem com furinho não é um homem qualquer. Precisa ser muito grande, muito gigante para usar um furinho. Não é para qualquer um. Os homens "qualquer um" jogam fora as suas roupas quando elas tem um furinho. Mas ele não. O conforto do tecido sobre a sua pele ia além do tempo que havia passado por ali.

Fiquei pensando que tipo de homem ele seria. Um homem que não joga fora. Talvez não jogasse também as pessoas que ele gosta. Um homem que tapa os furos dos erros que os amigos já fizeram. Um homem que conserva as mulheres da sua vida perto de si, pele com pele, próximas e ainda úteis, mesmo quando elas se esvaem por buracos. Um homem que deve conviver com as rugas que os dias trazem a todos nós. Com as manias, com as dores, com toda a mescla de imperfeições que vamos empilhando durante a vida. Sim, é preciso ser gigante, é preciso ser muito maior que todos os outros para carregar e expor à todos essa convivência tão natural, tão simples com a própria vida. Por onde andam no nosso mundo os homens de furinhos? Era pura poesia aquele furinho na camisa. Pura poesia.

É difícil mostrar as feridas abertas, os defeitos, os enganos. Os inúmeros furinhos. Mas essa talvez seja a mais maravilhosa saída para uma aproximação com o mundo feminino, faminto de doçura, de delicadeza, de compreensão. Pois choramos muito. Sangramos. Amamentamos. Falamos demais. Parimos. Temos sempre nossas carnes expostas, abertas, jorrando. Derramando. E achar às vezes um pequeno e frágil furo num homem nos mostra o quanto podemos ser iguais e, quem sabe, até compreendidas.

A entrevista continuou, e o encantador furinho se manteve, digno, firme, até o final da entrevista. Mas não foi embora. Ficou como poeira dentro da minha sala, dentro da minha mente. Alguns sentimentos internos são inalcançáveis pelos controles remotos. Perdem-se dentro dos furos.
Somente isso, um homem sem nome e... um furo.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

53!


Pra mim esse é o dia mais divertido do facebook. Esse monte de gente me dando “parabéns” só porque eu nasci um dia ai, 53 anos atrás. Genial. Levanta super o astral.
Quando acordei hoje, resolvi: “como hoje é meu aniversário, não vou fazer nada chato e passar o dia escrevendo bobagens. Depois de uma certa idade, a gente precisa se dar a uns luxos”. Mas bastou eu descer a escada de manhã que lá veio a voz da Maria:
- Feliz aniversário Lúcia. Olha, falta feijão, arroz, farinha, batata, cebola e sabão em pó. Você precisa ir no supermercado logo senão não tem almoço.
Nunca menti a idade. Todo aniversário lembro que tem diversas pessoas no mundo que nasceram no mesmo ano que eu, e que continuam a crescer também: o Jim Carrey, a Fátima Bernardes, a Jodie Foster, o Tom Cruise e a Demi Moore. Dá o maior alívio. Ah. E sabe quem tem também a minha idade? O Jotalhão, o elefante do Maurício de Souza. Viva o Google.
Também descobri mais inutilidades nas minhas bobas pesquisas, depois de ir ao super, claro, senão a Maria não ia me deixar em paz. 53 é o décimo sexto número primo. É o gato no jogo do bicho. Tem uma música do B52 que é a 53 miles west of venus. 53 é o número de bytes de um pacote de Asynchronous Transfer Mode, segundo o Google Tradutor da Wikipédia, e não tenho ideia do que é isso. Tem um restaurante de comida Portuguesa na Castelo que se chama Rancho 53. Poderia ir lá um dia desses. Também achei o Restaurante Sviatoslav, na Ucrânia, que fica na Rua Franka 53. Provavelmente nunca irei lá dia desses. E tem o Herbie, o famoso Fusca número 53.
Tou mais ou menos igual a esse fusca. Ainda rodando por ai. Parabéns, eu, obrigada, vocês.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

antihorários

Todas as sextas eu e a minha irmã Angie andamos no parque de manhã. Eu já medi e conto pra ela, são sete quilômetros ida e volta do portão aqui. Sempre a mesma volta no parque, dando a volta toda da marginal e passando no melhor bebedouro do parque, a água mais gelada.
- Ângela, aconteceu uma coisa muito louca ontem. Eu acordei de pá virada, super contra a vida, triste pra caralho, dai resolvi andar no parque no nosso mesmo caminho, mas ao contrário. No anti horário, hermana.
- Foi legal?
- Não. Não sei te explicar, Hermana. Fiquei exausta no meio. Parecia que não acabava nunca. Que o caminho era três vezes mais comprido. Olha. Nunca mais.
Olhei pra frente, naquela pista vazia vinha um senhor na nossa direção.
- Angie. Olha discretamente esse cara velhinho e barrigudo que tá vindo.
- Já vi.
- Louco. Todo o dia eu encontro esse homem bem aqui. Ele anda ao contrário, anti horário, igual eu ontem. A gente se cruza todo dia.
- Você cumprimenta ele?
- Não. Lembra o que a mamãe falava? Mulher não cumprimenta homem, responde.
- Ah. Vou cumprimentar ele – ela diz.
- Ô, Angie... – concordo.
A Angie sempre foi mais corajosa que eu.
- Boa tarde!...
- ...
- Angie. É impressão minha ou ele não respondeu?
- Não. Só abriu um olhão. Como se fosse um absurdo alguém falar “boa tarde”. Que homem burro.
A Angie é engraçada. Arrematou.
- Também. O que a gente pode esperar de um homem que faz o caminho três vezes mais longo?

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

o tal do paulo ricardo

No meio da tarde de hoje tocou meu celular.
- Alô.
- Boa tarde dona Lúcia, tem um minuto?
- Diga. Quem é?
- Sou a Talita, aqui da Loja Boticário. Tudo bem?
- Tudo.
- Então, queremos convidar a senhora para um evento da loja no Shopping Villa Lobos.
- Evento?
- Precisamos saber se a senhora confirma a presença.
- Explica, Talita.
- É um evento na loja que acontecerá no dia 13 de outubro, terça feira que vem. Estamos convidando algumas clientes especiais.
- Eu sou “especial”?
- A senhora é.
- Ah que bom. E o que tem nesse evento?
- Teremos a presença do cantor Paulo Ricardo, que irá escolher algumas clientes, tirar uma foto com elas e autografar. E para todas as clientes que forem, será entregue um kit de alguns produtos grátis.
- Não entendi nada, Talita. Quem que vai tirar foto?
- Um fotógrafo, mas a foto será com o cantor Paulo Ricardo.
- Ele vai tirar uma foto comigo?
- Se a senhora for escolhida, vai.
- Quem vai escolher?
- Ele.
- Quantas clientes ele vai escolher?
- Algumas das clientes da loja que forem.
- E as outras?
- Ganham o kit. Umas vão ganhar a foto e o kit, outras, que ele não escolher, só o kit.
- Olha, Talita. Sinceramente?
- Sim, senhora.
- Agradeço muito, mas não vou. Pode me tirar da lista.
- Temos dois horários, as 11:30 e as 13:30. Ele vai estar nos dois.
- Talita, eu nem lembro quem é mesmo esse cantor “Paulo Ricardo”. Pode cantar uma música dele?
- Ele é da sua idade, dona Lúcia.
- Mas e se ele não me escolher?
- A senhora ganha um kit.
- Qual o critério dele para escolher quem ganha o selfie autografado com ele?
- Não sei, senhora. Eu estou apenas convidando.
- Não se deve convidar uma pessoa para arriscar um prêmio e ganhar um prêmio de consolação.
- A senhora acha que não ganha o prêmio?
- Eu não conheço esse Paulo Ricardo que vocês inventaram.
- A senhora vai?
- Não, Talita, óbvio que não. Imagina, menina, como vou ficar baixo astral se o Paulo Ricardo não me escolher pra o selfie autografado dele. Não terá kit que resolva, e jamais entrarei de novo numa loja do Boticário.
- Eu entendo, senhora.
- Então me tira da lista. Eu não vou no dia 13 de outubro, terça feira, esperar o Paulo Ricardo me escolher no meio de um monte de mulheres. Eu acho que esse evento do Boticário, aliás, é muito perigoso, e pode causar um monte suicídios de mulheres da idade dele. Você pode avisá-lo?
- Não, senhora. Eu sou paga apenas para telefonar.
- Tá bom, Talita.
- Posso tirar a senhora da lista?
- Pode. Deve. E manda o Paulo Ricardo pra o espaço.
Hahaha. Confesso que tou super tentada a ir na terça no Shopping só pra olhar de fora da loja esse absurdo. Gente, como a vida é absurda.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

pão e água

Tá cada vez mais complicado fazer um almoço ou jantar com os meus amigos. Assim como não existe mais shampoo para cabelos “normais”, noto que é raríssimo achar uma pessoa que coma comida “normal”, ou como se dizia antigamente, “que coma de tudo”.

Tem os que não comem carne. Tudo bem, é uma escolha, eu como e adoro, mas confesso que me arrepio em pensar em matar um boi inteiro e tirar um bife de dentro dele. Acho que se minha alimentação carnívora dependesse de eu mesma trucidar um animal de carne vermelha para fazer um picadinho, provavelmente nunca comeria. Frango talvez eu matasse – só não sei como – e peixe, bem, já matei, mas nunca limpei. Mas acho que conseguiria.

Mas voltando ao assunto, outro dia fiz a lista dos convidados para um jantar aqui em casa. Olhei a lista, tinha que agradar a todos. Bom, tinha os que não comiam carne ou frango, mas comiam peixe. Tinha os que não comiam bichos sem coluna vertebral, como marisco, ostra e camarão. Tinha os que não comiam carne nenhuma, mas comiam ovo. Mas tinha os sem ovo também, e tinha aqueles que não comem nada cru. E agora apareceram um monte de amigos que não comem derivados de leite, nem um queijinho raladinho e nem um recheio de ricota. Ah, e tinha os que são totalmente contra o glúten, e até um amigo que não consome farinha industrializada nem a pau. Na lista localizei também outro amigo, que sei lá porque, que não come nada que “boia” no prato.

Ou seja, o meu jantar virou uma enorme complicação. Impossível agradar a todos.


Como eu sou daquelas que “come de tudo”, acho que o ideal é fazer ao contrário: cozinhar o que bem entendo, quem quiser que venha. Não sei o que acontece atualmente com a digestão e com os órgãos internos dos meus amigos. Só sei que, se a coisa continuar piorando assim, nos meus próximos jantares servirei pão e água. Os dois sem glúten, claro. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

óvulo

Sai correndo agora pouco para ir no banco depositar um cheque. No meio do caminho meu telefone avisou que chegou um e-mail. Putz, e nessa hora lembrei que esqueci os óculos em casa.
Como ainda enxergo um pouco de longe, coloquei o telefone lá no finzinho dos meus maiores dedos, o máximo possível longe dos meus olhos de Mr. Magoo e consegui decifrar o texto. Era importante, coisa de trabalho, eu não podia deixar de responder. Parei numa sombra, respirei fundo e fui teclando toda esticada, pensando na menor e mais simples resposta. Consegui. Olhei de novo, parecia que tava tudo ok. Mas veio a dúvida, e resolvi explicar numa última frase. Lá fui eu.
“Abraço. Estou sem óculos. Desculpa se escrevi algo errado.”
Quando cheguei aqui, notei que não foi bem isso que mandei.
“Acabou. Estou sem óvulos. Desculpa se escondi meu estado.”
Céus...
Hahaha. Bom, o que não deixa de ser verdade, uma vez que eu e meu cliente nunca abordamos esse delicado assunto.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

à cavalo

E lá estava eu de novo andando no parque, queimando meus miolos ao sol escaldante. Como não acordo cedo, tenho que conformar com esse “pequeno” probleminhas, o calor. Num ligo. Dizem que dormir deixa a gente... bonito. Hahaha, olha a desculpa.
A questão é que com aquele solão não dá muito pra olhar muito pra frente, portanto ando olhando pro chão. Foi quando eu vi as pegadas. Sério, pegadas animais. Pegadas de cavalo, ou melhor, de ferraduras. Num primeiro momento, aquilo me pareceu normal. Ora, então aqui passou um cavalo. Legal. Mas daí a coisa me intrigou. Ué. Nunca vi cavalo no parque. De onde veio esse cavalo? Veio de carro ou veio a pé, ou melhor, a pata? Que eu saiba, não tem nenhum estábulo por lá. Será que o cavalo e o cavaleiro vieram de longe, cavalgando? Me pareceu óbvio que o cavalo deveria ser da polícia montada. Mas porque a polícia montada iria a um parque tão pacífico? Se bem que policiar um parque - que tem muitos quilômetros - a cavalo me pareceu uma ideia excelente. A solução mais ecológica possível para um policiamento.
Mas porque achar que o cavalo deveria ser, necessariamente, da polícia? Se uma pessoa comum quiser ter um cavalo em casa, e passear a cavalo no parque, será que pode? Eu, por exemplo. Será que posso ter um cavalo em casa, ir com ele ao parque, passear, deixar meu cavalo pastar na grama? Ou até usar o cavalo pra me locomover? Perguntei pro Google, ele disse que se os vizinhos não reclamarem e se eu tratar bem o bicho, pode.
Nossa, gente. O pensamento cavalar foi crescendo na minha cabeça quente. Será que, então, a gente pode andar a cavalo nas pistinhas de bicicleta? E porque até agora os cavalos não foram sequer cogitados como uma opção de transporte para essa cidade? Não deveríamos incentivar a construção de pistas de... cavalo?

Hadadêêê...

De uma hora pra outra, enquanto meus miolos fritavam, comecei a achar que a melhor solução pra a cidade, pra melhorar a poluição, pra evitar o aquecimento global, para evitar o trânsito, os atropelamentos, tudo, gente, é realmente, irmos aqui e ali a cavalo. Nas garagens dos prédios e casas, faríamos estábulos, quentinhos no frio, frescos no calor. Isso pra não falar dos estábulos públicos. Nos parques, em vez de grama, capim. E ainda por cima, muito esterco para as plantas, o que estimularia - e muito - a criação de hortas orgânicas nos parques, canteiros, jardins - que - e muito - ajudaria todo mundo a economizar em supermercado e quitanda. Na volta, já pensava nas carroças táxis ubers, em aplicativos cavalares e....
Bom. Olha. Meus miolos já esfriaram, mas continuo achando uma excelente ideia. Fala a verdade. Pirei?

terça-feira, 22 de setembro de 2015

desaprender

Gente do céu, eu morro de medo de desaprender algumas coisas nesse mundo de hoje. Por exemplo:
Desaprender a escrever à mão, sem digitar, assim, com lápis ou caneta. Não parei total de escrever em cadernos, mas confesso que está cada vez mais difícil, sabe quando a mão cansa? É, e antes não cansava.
Desaprender a fazer bolo sem batedeira. Quando eu era menina, ia para a casa dos meus avós no interior nas férias. Minha avó fazia bolo de lanche, e como ela nunca teve batedeira, me ensinou a bater a massa e as claras na mão. Demora, dói o braço, a gente fica exausta e suando, e a cada vez que eu, de preguiça, pego a batedeira me dá esse medo de desaprender o bolo.
Desaprender ir a pé para os lugares perto, porque óbvio que carregar um carro de quase uma tonelada para o supermercado que é aqui do lado é muita burrice.
Desaprender a comer direito, sem nutricionista, pensando direito e sempre me alimentando de fruta, verdura, carne, arroz, feijão e massa.
Desaprender os caminhos para os bairros de São Paulo. Gente, anos atrás eu tinha tudo memorizado, e por causa dos GPSs e Wazes eu tou esquecendo. Eu falava para eu mesma: “Vila Mariana”, e pimba, lá eu ia pra Vila Mariana sem pestanejar nem pensar. Agora não consigo nem ir na Lapa, que é aqui do lado, sem ajuda da droga do telefoninho.
Desaprender a fazer ginástica sem aparelho e nem personal, como eu sempre fazia, cem abdominais, cem agachamentos, cem polichinelos.
Desaprender a dar festa em casa e ficar só fazendo aniversário em barzinho.
Desaprender a escrever no Blog e colocar todas as ideias aqui nesse facebook que faz desaparecer todos meus textos.
Desaprender a ler um livro ao invés de abrir o facebook, não achar nada e insistir em ficar abrindo de novo e de novo, como a gente faz com a geladeira vazia quando chega em casa e tá com fome.
Desaprender a tirar férias e ficar bundando ou brincando em casa, sem precisar necessariamente de viajar e ter um monte de programas mega cansativos.
Desaprender a espremer laranja e limão ao invés de abrir suco Natural One laranja/limão "de verdade" (o caralho).
Desaprender a fazer um omelete ou um macarrão na manteiga ao invés de comer um pacote de Rufles.
Desaprender a ficar pacientemente numa fila de banco lotado esperando a sua senha apitar depois de todos os idosos passarem na sua frente, quando seu bankline pifa.
De um certo modo, é tudo culpa de uma preguiça que o mundo moderno ensinou a gente a sentir. Com tanta tecnologia, com tanta máquina para fazer pela gente, a gente acaba adotando o ócio e fica sem força e sem disposição para enfrentar as coisas mais simples. A gente tá desaprendendo o básico. Assim, no gerúndio mesmo. E rumando inconscientemente para um tipo de burrice.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

dez feijoadas

- Pensei em fazer uma feijoada sábado pra uns amigos e pros nossos filhos. Você sabe fazer feijoada, Lúcia? – ele me perguntou.
- Legal, eu te ajudo. Mas nunca fiz.
- Nem eu. Vamos pesquisar umas receitas?
Adorei a aventura. Animada, até comentei com ele que hoje em dia basta dar um clique no computador que a comida já está quase pronta. O problema que tivemos foi o excesso. Não de feijoada, mas de receitas. Se antes a gente tinha aquele caderninho de receitas, copiado da mãe, da avó e da bisavó, hoje, com o maldito clique vem uma montanha delas. Além disso, tem sempre aquela receita do livro da Dona Benta e a do livro da cozinheira-chique-cheia-de-dicas.
- Meu Deus... – comentei - Qual será a melhor? – comentei, olhando aquele monte de papel impresso.
- Sei lá. E se a gente assistisse uns Youtubes?
Dai que piorou. Muito. Caraca, apareceram tantas que praticamente chovia feijão em cima da gente.
Fora os vídeos dos desconhecidos, tinha a da Rita Lobo, tinha a do Olivier Anquier, que não era dele, e sim da dona Inácia, uma grande feijoadeira do Rio, tinha a feijoada inventada do Claude no Revanche. Ou seja, em menos de uma tarde reunimos mais de dez receitas.
- E agora? Qual a melhor, cacilda?
Uns dessalgavam as carnes antes. Outros metiam tudo na panela. Tinha gente que fazia um monte de ferventações. Tem os da panela de pressão, os contra a pressão no feijão. Tem os que cozinham partes da feijoada junto com o feijão. Tem os que deixam o feijão de molho. Tem os que temperam com bacon. Tem os que usam a água da fervura para cozinhar o feijão. Outros defendem a orelha como ingrediente básico. Tem os que colocam só carnes chiques. Que bagunça. Tava dando mais trabalho transformar aquelas dez receitas em uma só do que cozinhar a própria.
Foi quando, na hora H, acabamos ligando para a empregada no dia da folga, que passou por telefone a receita dela. Ufa. E ficou maravilhosa a feijoada.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

o caixa preta

Como sou festeira, outro dia notei que existe outro tipo de convidado. Além do famoso “sai lavando”, existe o “caixa preta”. O “caixa preta” é aquele cara que não bebe nada por algum motivo, mas adora festa e fica até o finzinho de todas. O convidado “caixa preta” acompanha o declínio moral e social de todos os convidados que se empanturram de beber, e se lembra de tu-do que aconteceu, ao contrário de todos os outros convidados, dono da casa incluso. Tem até, eu acho, um certo prazer mórbido (ou divertido) de recordar detalhes, e acompanham passo a passo a desgraça e o caos que o álcool causa nos amigos. Tudo que passa a linha da decência e dignidade fica registrado na mente do “caixa preta”, esse o grande "porre" dele. A desgraça alheia. Hahaha. É terrível encontrar um “caixa preta” no dia seguinte.
- Gostou da festa de ontem? – você pergunta, com aquela dor de cabeça.
- Loucura – e ele começa a contar coisas que você nem imagina – Viu que aquele seu amigo, aquele alto, cantou a mulher do seu primo? Adorei o show de dança que sua amiga loira deu, aquelas reboladas. Ah, e o seu amigo de camisa vermelha, vi que ele beijou três convidadas. Três, olha que sem vergonha. Quem quebrou aquele vaso foi o saxofonista, ele tentou disfarçar. Eu tive que tirar a sua amiga morena da cozinha, pois ela estava dando em cima do cunhado da sua irmã, a mulher dele tava puta.
- Hã? Nossa, não lembro de nada disso – você comenta – nem lembro como fui pra casa. Acho que fui de taxi.
- Não, não foi. Eu que te levei.
- Hããã?
Já esse outro lado de um "caixa preta" é sua salvação. Outro dia, eu e que uma amiga estávamos fazendo a lista dos convidados de uma festa aqui em casa. Acabamos, ela pegou a lista e olhou.
- Olha que bom, Lúcia. Tem um “sai lavando” na festa! Pode ficar tranquila no dia seguinte.
- Ufa! E tem “caixa preta”? – perguntei.
- Tem dois! – e ela emendou – Oba, tenho como voltar pra casa. Com essa coisa de lei seca, sempre é bom convidar um monte de “caixa preta”.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

passárgada

Fim de tarde, liga a minha irmã. Vocês tem irmã? Eu tenho uma, única, e não sei o que eu seria sem ela, sem as longas conversas dela por telefone quase todo dia. Eu não riria tanto, eu não teria tanto assunto, eu não seria tão resolvida.
- Ângela, tou mals. Escrevi ontem um inocente post no face sobre a lei que mudou a velocidade dos carros na cidade. Uma coisa que a gente conversou outro dia, que as pessoas tão mais calmas.
- Sim, tem até aquela amiga minha que disse que tá adorando voltar do sítio pra São Paulo, pois a marginal tá lenta quando ela chega, que o trânsito feroz não estraga o clima do campo que vem com ela.
- Pois é, mas teve um monte de gente que me criticou, pois acham que eu defender a mudança da velocidade é defender o PT. Meu post não era nada de política, era sobre desestressar, poxa.
- Eu vi, Lú. Nossa, você apoiou a atitude do prefeito e imediatamente virou maconheira, louca e cheiradora de lixo. A gente não pode abrir a boca no facebook e falar um “a” do PT que você vira o PT inteiro, você passa a ser a maior corrupta e todos passam a te odiar.
Tenho um amigo, que não preciso falar o nome dele aqui, que sempre comenta que eu, Lúcia, também conhecida como Franka, vivo na “Frankolândia”. Que eu só falo de assuntos que não causam polêmica al-gu-ma. Eu sei, eu escrevo umas coisas bobas de shampoos, de gente que sai lavando louça, de roupa, de celular bebezinho. Mas querido amigo, olha o que acontece quando eu apenas cito algo que um político fez. O simples fato de eu apoiar uma atitude do Haddad me transformou em maconheira, louca que preciso mudar de psiquiatra e cheiradora de lixo. Logo eu, uma senhora, uma mãe de família, sem muita grana, dona de um carro popular, honesta, limpinha. Hahaha. Gente. O que o fato de eu apoiar a velocidade lenta dos carros tem a ver com maconha? Com psiquiatra? Com o PT, afinal? Quer saber? Hoje em dia, em tempos de facebook, em tempos de comunicação rápida e acesso fácil às informações de todo mundo, é melhor não se meter em certos assuntos.
Vou é voltar pra Passárgada, digo, Frankolândia, hermana. Lá sou mais feliz. E gente, de boa, todo mundo perdoado, sem stress, calma, vamos todos a quarenta por hora, fazer o que.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

calma, franka, calma...

Já viu gente mudar de opinião? Eu mudo sempre e confesso.
Tudo começou quando mudaram a velocidade das marginais. Na primeira vez que sai de carro, para não ficar irritada, nervosa e ansiosa, evitei a Marginal Pinheiros e peguei a Faria Lima, e com ela, lá veio o maior trânsito, o que me deixou muito, mas muito mais irritada, nervosa e ansiosa.
De que adianta negar a realidade, pensei, pegando a fatídica via expressa marginal lesma no segundo dia. No começo, como todos, entrei na marginalzinha e estressei. Xinguei o tadinho do prefeito-que-eu-gosto, confesso, com aquela vontade de viciada de apertar o pé até o talo. Falei um monte sozinha na irritante marcha vagarosa, colocando o pé no breque de dez em dez segundos.
“Pô, isso é insanooo!”, “é muuuito devagar!”, “que saaaco, parece que tou de ré!”.
Semana seguinte, estressei igual nas ruas aqui perto, que viraram todas vias de cinquenta por hora e com lugares a quarenta.
Aaaaaaa!
Sessenta. Cinquenta. Quarenta. Dai o que virou um stress foi adivinhar a velocidade.
Mas adianta xingar? Adianta espernear? Não, resolvi, adotando o quarenta como velocidade padrão e que-se-dane. No primeiro dia, fiz de birra.
- Ah, é pra ser lenta? É? Então vou ser len-ta mês-mo - eu me disse sozinha no carro – vou a qua-ren-ta seus i-di-o-tas – resmunguei, bufando de desespero. Afinal, pensa gente, tirei carta aos 18 e ando na velocidade que quero nessas vias há 34 anos.
Mas adianta xingar? Adianta espernear?
- Não, vou a quarenta em tudo então - pensei, resignada na segunda semana - então vou colocar uma música. Bem lenta. Abrir o vidro. Cantar, sei lá. Respirar fundo. Relaxar. Fú, um, fú, dois, fú, um, fú, dois. Quarenta, quarenta, quarenta não dá nem pra ultrapassar, que desgraça – suspirei eu no carro.
Na terceira semana que me toquei sobre o lance da ultrapassagem. Ultrapassar era necessário quando se podia correr mais que os lentos, mas agora não faz mais sentido algum. Antigamente lá estava você na rua, e na tua frente aparecia um guincho. Você nem pensava, já pegava a esquerda de qualquer modo para não ficar atrás daquela mega tartaruga. Antes eu não aguentava um minuto atrás do guincho ou de caminhão cheio de tijolo, mas agora que eles tão na velocidade máxima que eu posso andar, que adianta reclamar deles?
Outra coisa que me irritava também mudou. Gente, eu tenho um carro popular, que é 1.0, e que às vezes não anda muito rápido, digamos. E se para mim os guinchos e caminhões eram irritantes, EU era muito irritante para carros com um super motor, que sempre colavam em mim, buzinando e dando faróis. Será que eles não sentiam agora o mesmo que eu diante do guincho?
Minha alegria master veio quando me vi na marginalzinha emparelhada com dois carros, um de cada lado, eu no meio com meu carro popular 1.0 que não anda quase nada. Do meu lado esquerdo, na mesma velocidade que eu, um puuuutis Land Rover. Do lado direito, na mesma velocidade que eu, um... caminhão de lixo. Ou seja, isso que é igualdade. Que legal, pensei, ouvindo a musica lenta e respirando fundo. Achei aquela parelha de carros um empate técnico, motoristas e carros sem diferença de classes, ops, digo, de velocímetros.
Que adianta hoje em São Paulo você ter um carro com um motor 2.0? Nada, somos todos iguais diante da velocidade permitida. Igualdade já. Nós três, eu, a mulher da Land Rover e o caminhão de lixo na mesma velocidade dizia tudo.
Hoje fui no meu psiquiatra que cuida do meu stress, e comentei com ele que a melhor coisa da redução da velocidade da cidade, melhor do que a falta de transito e a redução dos acidentes é essa. As pessoas são obrigadas a desestressar, gente. É ótimo não ter que ultrapassar, não ter que ser “o mais rápido”, é ótimo andarmos devagar. Não aguenta? Pega um metrô. Vai a pé. O prefeito tá ensinando a gente a não ser mais apressadinhos, isso é o mais importante pra nossa saúde.
Portanto, mudei de opinião. Se tem uma coisa que tou adorando é esse limite de velocidade de São Paulo que o Haddad fez. Adorando, não, mais que isso. Amando. Isso ai Haddad. Vamos acalmar o povo de São Paulo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

fim de festa

Gente, perceberam uma coisa? Quietinhos, quietinhos, sem nenhum alarde, to-dos os salões de festas dos prédios de São Paulo viraram salões de fitness. Raríssimo achar hoje um que não tenha mudado de gênero, grau e uso. Se fizessem uma lei acho que não conseguiriam tantas adesões.

Quem diria que a melhor coisa para você antigamente era ter um grande salão para dar festas, que esse era seu sonho de consumo. Mas era. Ter um grande salão, com um espaço que você não tinha na sua casa – essa obviamente a razão do salão – onde você podia convidar um batalhão de amigos, além da capacidade do seu apartamento, não pagar por isso e não usar banheiro e nem cozinha da sua casa. Um lugar de festa é um lugar de alegria, não é esse o significado de festa? Então era importante você ter um lugar comunitário de alegria, de festejos, de comemoração. Mas pouco a pouco os salões entraram em total decadência, assim, do nada, e foram ocupados por essas atividades silenciosas, com essa gente com seus fones de ouvido malhando, suando, correndo no lugar, um lugar esquisito, cheio de máquina e espelho.


Bom, academia é legal mas está longe de ser o lugar mais alegre que você vai, já festa, balada e farra ainda são – de longe - muito melhores que ginástica. Fiquei cheia de perguntas zumbindo na cabeça. Quando foi que o bem estar e a saúde superaram a alegria? Onde então as pessoas enfiam a alegria hoje? Onde dão festas? Não existe mais festinha de prédio? Será tudo culpa do PSIU? 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

arrasa, franka, arrasa, mas não gasta água

Final de semana passada fui tele transportada para uma “estação de águas”, o tipo de lugar que não vou há anos e que me lembra minhas avós. E já que estava em algum lugar do passado, resolvi tomar um daqueles banhos fedidos. Aliás, quero deixar claro que desde menina não acho que aquilo devia ser chamado de “banho”, imagina, uma coisa com aquele cheiro mais suja do que lava. Banho deixa a gente cheirosinho, não catinguento. Mas como “em Roma faça como os romanos”, porque não?, pensei.
Entrei numa sala de espera com um monte de velhinhas, esperando minha vez. Como vi que ia demorar um pouco, peguei uma revista. Chamava revista “Arraso”. Era uma publicação da região, a revista feminina “Arraso”. Rindo sozinha do nome, resolvi: “vou ler essa revista e arrasar aqui na estação de águas. Vou ar-ra-sar. Arrasa, Lúcia, arrasa”.
Bom, gente, vou contar como se arrasa numa estação de águas. Dizia a revista “Arraso” que o grande lance hoje é você ter uma “sala de banhos” na sua casa. Prestatenção. Não é mais só um bom e espaçoso banheiro que você precisa, aliás, pelo que entendi da matéria, o banheiro em si fica dentro da sala de banho, e não chama mais banheiro, e sim a “área de higiene”. É como ter uma terma romana particular em casa. O texto explicava que as "salas de banho" são um espaço de relaxamento, descanso e descontração, provavelmente a "única" coisa que vai realmente te desestressar das loucuras e da tensão do mundo moderno.
A quantidade de brinquedinhos que eles sugeriam colocar ali eram inacreditáveis. Uma mini piscina. Jardim vertical (quem rega?). Ducha de teto. Efeito cascata (não entendi do que se trata). Ducha de teto, que acho que é tipo uma chuva em cima da piscina. Aquário. Sauna. Parede de cachoeira. Fonte colorida. Cromoterapia de águas, um tipo de iluminação colorida. Área de descanso com música zen. Tenda de massagem (engraçado tenda num lugar fechado). Frigobar com bebidas leves. Espaço multimídia, com tv, wifi e computador. Tudo pra você arrasar dentro da sua sala de banho, mergulhada na sua água limpinha (a matéria não mencionava o uso das águas termais com cheiro fedido, claro).
Caraca, que mundo a gente vive? Não tá secando o Brasil? Não tão secas as torneiras? Que é isso de incentivar as pessoas a usarem mais e mais água para relaxar e arrasar? Arrase, gaste água até a tampa? Hein?
Cada uma. Olha, espero que as pessoas se toquem e não tenham esse sonho de consumo arquitetônico e decorativo. Desculpe revista Arraso, não vou arrasar o país gastando água. E bem, só pra completar, o banho fedido foi uma delícia. E gastou pouquinha água.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

pessoa "sai lavando"

Tem um tipo de pessoa que eu acho o máximo. É a pessoa “sai lavando”. Sabe aqueles amigos, amigas ou conhecidos que vão na tua casa, veem a louça na pia e saem lavando? O máximo conhecer uma pessoa “sai lavando”. Neste final de semana eu viajei, e o meu filho recebeu hóspedes. Cheguei aqui e tava tudo limpo, super organizado. Estranhei.
- Nossa. Arrumou tudo?
- É que a minha amiga é daquelas “sai lavando”, mãe. Não pode ver um copo usado que sai lavando.
Uma vez apareceu uma pessoa dessas numa festa da minha irmã. Tava aquela zona infernal na cozinha no fim da noite, aquela pilha de pratos, copos, talheres. Apareceu um cara do nada, namorado de uma amiga dela, que, sem ninguém pedir, enfrentou aquele caos na maior e “saiu lavando” tudo. Em menos de meia hora a cozinha estava tinindo, pois uma das qualidades de um bom “sai lavando” é lavar muito rápido, pois obviamente eles tem a maior prática, técnicas e método.
Isso não é, de modo algum, uma invasão da cozinha alheia, isso é um bem que a pessoa te faz. Um verdadeiro “sai lavando” não “sai guardando” nada, não fuxica em armário e gaveta. Essa maravilhosa pessoa, quando o escorredor fica entupido de pratos e copos limpos, geralmente estende uns panos de prato na mesa e coloca tudo ali, organizadinho, pra o dono da casa guardar. Acho que as pessoas “saem lavando” acreditam – e eu também acredito – que pias com louças sujas devem ser socializadas, ou seja, não são de ninguém, tampouco do dono da casa. E as pilhas de louça suja são como os isqueiros e tuppewares, precisamos aprender que todos eles devem ser socializados.
Eu consigo entender. Se uma pessoa “sai lavando”, se depara com uma “pia entulhada”, não há o que fazer a não ser... lavar. Para eles aquilo não é apenas uma pilha de louça. É uma missão na vida. Os dois se completam. E quando a gente encontra um “sai lavando”, a melhor coisa é cuidar muuuito bem dele, porque são uma delícia.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

a mulher do waze

Gente do céu, viajar virou um inferno. Antes a gente começava a aproveitar a viagem na hora que saia de casa. Depois de checar mentalmente se não tinha esquecido o carregador de celular, o maiô, a roupa de cama, tudo era só alegria. Agora, sei lá o que houve que não dá mais pra relaxar um minuto até você chegar no seu destino. O drama começa na marginal.
- Então, eu queria comentar que...
- Pera, Lúcia. Me ajuda aqui. Em que marginal a gente tá? Na pista dos 50, dos 60 ou dos 70 por hora?
- Sei lá, num dá pra ver. Vai a cinquenta pra garantir.
- Cinquenta é insano. Olha. Parece que a gente tá de ré.
- Cuidado, olha a placa dessa alça. Aqui é 40.
- Quarenta? Fodeu.
- Quer que eu coloque o Waze? – sugiro.
- Será que precisa?
- Talvez – respondo - É sempre é melhor colocar, porque o Waze avisa o radar, e vai que a gente erra a saída, sabe como é, a marginal é uma zona.
- Então é melhor diminuir a música, Lúcia. Senão a gente não ouve a mulher do Waze.
- Tem razão – resolvo, resignada – Vamos então colocar esse maldito ser, essa criatura wazeana aqui nesse carro. Mas ela tem que ficar falando a viagem toda? Eu queria ouvir música.
- Podemos conversar. Se ela falar a gente espera um pouco.
- Ótimo, eu tenho uma coisa super engraçada pra contar de ontem que...
- Peraí, desculpa te interromper, Lúcia. Eu vi uma placa de 90. Aqui não era 110?
“Radar reportado a frente” – fala a chata do Wase.
- Ai meu Deus, será que esse radar é de 90 ou de 110? Sei lá, reduz, reduz! – imploro, aflita.
- Pronto, Lúcia, tudo certo.
- A chata podia ajudar nesse lance da velocidade também, né? Bom, então – continuo, animada - Como eu estava dizendo...
“Em doze minutos pegue o acesso à direita e mantenha-se a esquerda”.
- Pera. Que foi que ela disse?
- Eu disse que...
- Não você, Lúcia, tou falando dela, a mulher do Waze.
- Não prestei atenção. Não dá pra ela repetir?
- Não.
- Então é melhor a gente não conversar tanto – concluo - Senão a gente erra a saída. Ai, cuidado, aqui é noventa!
- Mas eu preciso ultrapassar esse filho da puta desse caminhão!
“Radar reportado a frente. Cuidado veículo parado no acostamento”.
- Chega. Vamos desistir de falar também? – bufo, irritada com a chata do Waze – Parece que ela não quer que a gente converse também, fica interrompendo, um saco.
- Nossa. Que inferno esse Waze.
Ou seja, se “ela” fosse humana e honesta, diria: “Oi meu nome é ‘Mulher do waze’. Em duzentos metros você chegará ao seu destino. Consegui estragar toda a sua viagem, mas ao menos você não levou multa e nem errou o caminho”. E daria uma risada de bruxa má no final.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

parabéns frankinha!!!



Tem umas coincidências muito loucas na vida. Sério. Acabou de acontecer uma agorinha e tive até um arrepio.
Tava aqui escrevendo como é morar em cima de mim mesma, lembrando da época que era menina e morava num prédio na Haddock Lobo. Nessa época, eu deitava na cama e pensava quantas pessoas estavam dormindo em cima de mim. Quantas pessoas estavam dormindo em baixo de mim. Quando eu almoçava, pensava quantas pessoas almoçavam em cima de mim. Em baixo de mim. Quando tomava banho, pensava em quantos chuveiros tinha em cima de mim. Em baixo de mim. Por ai. Eu me lembro que quando entendi aquela verticalidade repetida, eu, menina de tudo, fiquei assustadíssima. Já agora eu moro em cima de mim mesma, num sobrado, e me imagino em duplicidade, eu dormindo em cima de eu mesma escrevendo, eu no quarto do João em cima de mim mesma vendo TV, era algo assim que eu escrevia.
Foi quando tive um clic. Clic. “Ora bolas, mas já escrevi sobre isso no blog”, lembrei. “Crônica repetida e requentada não pode, Dona Lúcia”, eu me disse, me dando uma bronca.
Resolvi vir aqui pro “frankamente...” e checar se já tinha a crônica, para não fazer repeteco. Lá fui eu procurar, e realmente já falei disso (http://frankamente.blogspot.com.br/…/…/dentro-dos-canos.html).
Mas sem querer descobri que hoje, justamente hoje, dia 27 de agosto, é o aniversário do meu bom e velho blog. Parabéns querido “frankamente...”! Eba, você tem 11 anos de vida, está com saúde e vivo! Muitas felicidades querido blog, pra você e pra frankinha, um beijo grande da Lúcia Carvalho do Facebook.
E olha eu em duplicidade falando de mim mesma como se eu fosse duas. Hahaha.