quarta-feira, 2 de abril de 2008

uma casa no meio da rua


Ontem, as cinco da madrugada. Fui viajar de novo, tive que acordar bem cedo, senão é impossível chegar em Angra de carro, ver a obra e voltar no mesmo dia. Tínhamos que pegar um jardineiro que iria conosco de carona. O combinado era encontrá-lo numa rua residencial, bairro chique e bom daqui de São Paulo, onde ele morava na casa de um casal: o tal jardineiro é também um tipo de caseiro dessa família. Chegamos no local combinado mas nada do cara. O P., meu amigo, reclama. "Vamos deixar o cara aí. Falei que passava as cinco, o cara está dormindo, não atende o telefone, não gosto de gente preguiçosa". Logo em seguida, ao lado da casa, vemos uma guarita com um guardinha dentro.
- Ei - perguntamos - Sabe do jardineiro? Ele mora aqui. Vai viajar conosco.
O guardinha ri, vai até o portão e dá uns assobios em código.
- Ele está acordado e já vem. Um minuto.
O guardinha volta,vai até uma mesa (na calçada) e liga uma TV (na calçada). Eu olho para o lado. Ao lado da guarita, vejo uma casa montada no meio da rua. Além da guarita, que deve servir como "quarto", o guardinha tinha uma cobertura na calçada, onde havia uma mesa, tv, folhinha na parede, cadeiras para ele e para as visitas, copos e pratos, lixeira, telefone, garrafa térmica e até um cabideiro na árvore. Ou seja, uma sala de estar. Numa calçada de um bairro residencial chique da cidade, um guarda montou uma casa para tomar conta das outras casas. Engraçado, tem muito disso aqui em São Paulo, essas máfias de guardas de rua, que se apossam sem dó do espaço público. Embora seja simpático ver que essa casa (a dele) não tem medo da rua, embora o guarda fosse um rapaz bem simpático também, algo me diz que tem alguma coisa bem errada nessa história. O jardineiro saiu em um minuto da casa, malinha na mão, banho tomado. Falamos mal dele sem razão, coitado. Deixamos o guardinha lá, assistindo TV no meio da rua, como se aquilo fosse normal. Normalíssimo.

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