quinta-feira, 2 de março de 2006

a gaveta de meias


Eu queria falar um pouco mais sobre esse assunto das crônicas anteriores. Sobre arrumação, organização, arquitetura e a vida.
É que eu noto que essa mania de arrumação, se não é das mulheres, incomoda muito mais a elas que aos homens. Não que isso seja uma regra, aliás, já conheci homens com manias absurdas de limpeza e arrumação. Um dia comentei esse fato com uma amiga, que me contou que o ex-marido, maníaco por arrumação, dobrava cuidadosamente toda roupa suja para colocar no cesto. Depois dessa revelação, nunca perguntei o motivo da separação.
Tá na cara, né?
Na minha infância convivi muito só com mulheres, pois perdi meu pai cedo e não tive irmãos homens. Minha casa era arrumadinha, minha mãe sempre nos ensinou a colocar as coisas em ordem, e, se minha irmã durante um tempo foi bagunceira, era apenas um “tipo” que ela fazia: numa certa época era o máximo você ser hippie, rasgada e ter um quarto muito zoneado.
Mas o que conta é a formação. Se estou em qualquer lugar e vejo um papel no chão, levanto e pego. É disso que eu falo. Existe dentro de nós, mulheres, um lado organizado muito forte. Está na nossa alma, eu acho. Por mais que tentemos não nos incomodar com a bagunça, nos incomodamos. Não sei bem, mas tenho a impressão que uma bagunça muito grande em casa está ligada a uma bagunça muito grande na vida.
Assim, impossível não associar uma coisa à outra. Quando a minha vida está muito zoneada, fico aflita e passo a arrumar gavetas, armários e estantes, começo a colocar os lápis de cor na ordem do arco íris, nivelo as lombadas dos livros das estantes. Não é coisa de gente maníaca não - é apenas uma atitude de uma mulher confusa. É como se, ao não conseguir atingir a organização na minha vida real, emocional e sentimental, eu precisasse compensar de alguma forma. Minha atividade predileta nesses momentos da vida é arrumar gaveta: você tira do armário, arruma fora dali, recoloca e fecha.
Plim.
Talvez isso explique a quantidade de armários, gavetas e estantes que existem nas casas de hoje. Há cinqüenta anos, havia o armário do quarto, o aparador da sala e os armários na cozinha. Hoje temos uma infinidade de roupeiros, estantes, louçarias, despensas e armários embutidos em todos os cantinhos. Existem empresas que você contrata só para isso – eles transformam toda sua casa num grande armário, você coloca tudo no lugar e esconde toda a sua insegurança. Uma casa cheia de armários é uma terapia para uma mulher moderna. Noto que em toda reunião de projeto surge uma voz feminina que sempre alerta: ei, mas falta armário!
Falta armário? Pode ser. Mas talvez também falte carinho, amor, idéias, metas, sonhos, fantasias e mais um monte de coisas. Mas fazer armários e gavetas, sabemos, é a parte mais fácil de resolver.
Mesmo sabendo disso tudo, ainda adoro arrumar gavetas. A satisfação que sinto depois de arrumar é inacreditável. Eu chego a voltar, abrir de novo e olhar minha arrumação. As vezes me vejo no trânsito e me lembro da minha gaveta de meias. Sorrio. O trânsito está parado, eu estou cheia de problemas, triste, sem grana, sem tempo e atrapalhada.
Mas a gaveta de meias, ah, a gaveta de meias está perfeita.

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