quinta-feira, 28 de outubro de 2004

Posta e Filézinho


Estávamos numa viagem de trabalho: eu, um outro arquiteto, um empreiteiro e o dono de uma empresa de que trabalha com madeiras. Fomos almoçar num restaurante na estrada e pedimos o prato do dia.
Os quatro na mesa, veio com a comida. Arroz, salada, peixe, feijão, suco.
Na minha frente duas travessas, com dois tipos de peixe. Resolvi servir todo mundo. Um deles eu chamava de "’filézinho" e o outro eu chamava de "peixe em postas".
Eu ia perguntando para cada um: quer peixe? Em filé ou em postas? Em filé ou em postas? Uma hora não agüentei.
“Ah, acho horrível esta palavra, estou detestando falar assim. "Posta". Posta é muito feio, não acham? Posta. Nem parece nome de comida, póóósta. Não vou comer de jeito nenhum esse peixe em posta. Só o filézinho”.
Tentaram me convencer. Era bom que eu experimentasse, o peixe em postas estava uma delícia. Talvez até melhor que o outro.
“Não, Deus me livre, posta não”. Aquela palavra me dava cada vez mais aflição. "Posta...".
O dono da empresa de madeiras estava ao meu lado. Ele se lembrou de algo. Que ele também detestava uma palavra. E que essa palavra, de uma certa maneira, também era um nome de uma comida. Mas ele não falava qual era a comida, ele falava "coisa". Que ele detestava aquela "coisa". E que na casa dele, quando falavam naquela "coisa", ele tinha o maior nojo. E que a mulher dele vivia falando aquilo, era horrível para ele. Todo dia ela tinha que lembrá-lo daquela "coisa". Ele nos contava isso com cara de ânsia, retorcendo o rosto todo, falando baixinho. Como se a tal comida - coisa da casa dele não merecesse sequer ser um assunto falado alto.
Ele não olhava mais para a comida no prato dele. Alguém perguntou, cauteloso, “escuta, mas você tem nojo da palavra ou da "coisa"?”.
“Sei lá”, ele disse, “sei lá... acho que primeiro tive nojo da palavra, depois da "coisa". E ela vive falando!”.
Alguém não agüentou. “Mas fala o que é!”
Ele parou um pouco, não olhou para ninguém. Disse baixinho.
"Soro".
Soro? Ninguém entendeu direito. Soro? E ele ali, olhos fechados, boca torta, espremido.
“Mas como, soro? Você detesta soro? Mas quem come... soro?” - perguntou o outro arquiteto.
Ele tomou ar e continuou, como se lembrar daquilo fosse a morte. Falava devagar, respirando fundo, olhos fechados ainda. Acho que se lembrando (ou tentando se esquecer) daquela sensação horrível.
“Olha, ela faz isso todo dia, eu detesto. Odeio, gente. Ela faz coalhada todo dia, e fala que.. fala que ... vai tirar o ... o ... soro. Ela vive repetindo, ai, já dá para tirar o "soro", já vou guardar o "soro", precisa tirar o "soro", colocar o "soro", o dia inteiro aquele negócio de soro, soro, soro, martelando na minha cabeça. Quer saber? Eu detesto soro, odeio soro, tenho nojo, nojo de soro! E um dia, um dia não vou mais agüentar! Vou acabar me separando dela por causa desse maldito... "soro"!”
Ficou o maior silêncio na mesa. Acho que ficamos todos pensando a fundo sobre aquele tal de "soro". Seria aquele líquido meio amarelado, despregado do leite? Só aquilo? Acho que nunca mais verei um sorinho inócuo com os mesmos olhos. Bom, ninguém se atreveu a falar mais nada sobre aquela "coisa" tão repugnante para aquele homem.
Tive vontade de ligar imediatamente para a mulher do homem das madeiras e falar para ela: "moça, pare imediatamente de falar de soro! Salve seu casamento de um naufrágio nesse fluido aquoso- leitoso!".
Escrevendo sobre isso, me lembrei de outra palavra que detesto: buço. Feia demais, não é? Homem tem bigode, mulher tem esse tal de "buço". Eargh.
Pensando bem, pelo sim, pelo não, melhor pedir para o Zé nunca mais falar "posta" e "buço" na minha frente. Pra garantir.
***

Nenhum comentário: