segunda-feira, 31 de agosto de 2015

a mulher do waze

Gente do céu, viajar virou um inferno. Antes a gente começava a aproveitar a viagem na hora que saia de casa. Depois de checar mentalmente se não tinha esquecido o carregador de celular, o maiô, a roupa de cama, tudo era só alegria. Agora, sei lá o que houve que não dá mais pra relaxar um minuto até você chegar no seu destino. O drama começa na marginal.
- Então, eu queria comentar que...
- Pera, Lúcia. Me ajuda aqui. Em que marginal a gente tá? Na pista dos 50, dos 60 ou dos 70 por hora?
- Sei lá, num dá pra ver. Vai a cinquenta pra garantir.
- Cinquenta é insano. Olha. Parece que a gente tá de ré.
- Cuidado, olha a placa dessa alça. Aqui é 40.
- Quarenta? Fodeu.
- Quer que eu coloque o Waze? – sugiro.
- Será que precisa?
- Talvez – respondo - É sempre é melhor colocar, porque o Waze avisa o radar, e vai que a gente erra a saída, sabe como é, a marginal é uma zona.
- Então é melhor diminuir a música, Lúcia. Senão a gente não ouve a mulher do Waze.
- Tem razão – resolvo, resignada – Vamos então colocar esse maldito ser, essa criatura wazeana aqui nesse carro. Mas ela tem que ficar falando a viagem toda? Eu queria ouvir música.
- Podemos conversar. Se ela falar a gente espera um pouco.
- Ótimo, eu tenho uma coisa super engraçada pra contar de ontem que...
- Peraí, desculpa te interromper, Lúcia. Eu vi uma placa de 90. Aqui não era 110?
“Radar reportado a frente” – fala a chata do Wase.
- Ai meu Deus, será que esse radar é de 90 ou de 110? Sei lá, reduz, reduz! – imploro, aflita.
- Pronto, Lúcia, tudo certo.
- A chata podia ajudar nesse lance da velocidade também, né? Bom, então – continuo, animada - Como eu estava dizendo...
“Em doze minutos pegue o acesso à direita e mantenha-se a esquerda”.
- Pera. Que foi que ela disse?
- Eu disse que...
- Não você, Lúcia, tou falando dela, a mulher do Waze.
- Não prestei atenção. Não dá pra ela repetir?
- Não.
- Então é melhor a gente não conversar tanto – concluo - Senão a gente erra a saída. Ai, cuidado, aqui é noventa!
- Mas eu preciso ultrapassar esse filho da puta desse caminhão!
“Radar reportado a frente. Cuidado veículo parado no acostamento”.
- Chega. Vamos desistir de falar também? – bufo, irritada com a chata do Waze – Parece que ela não quer que a gente converse também, fica interrompendo, um saco.
- Nossa. Que inferno esse Waze.
Ou seja, se “ela” fosse humana e honesta, diria: “Oi meu nome é ‘Mulher do waze’. Em duzentos metros você chegará ao seu destino. Consegui estragar toda a sua viagem, mas ao menos você não levou multa e nem errou o caminho”. E daria uma risada de bruxa má no final.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

parabéns frankinha!!!



Tem umas coincidências muito loucas na vida. Sério. Acabou de acontecer uma agorinha e tive até um arrepio.
Tava aqui escrevendo como é morar em cima de mim mesma, lembrando da época que era menina e morava num prédio na Haddock Lobo. Nessa época, eu deitava na cama e pensava quantas pessoas estavam dormindo em cima de mim. Quantas pessoas estavam dormindo em baixo de mim. Quando eu almoçava, pensava quantas pessoas almoçavam em cima de mim. Em baixo de mim. Quando tomava banho, pensava em quantos chuveiros tinha em cima de mim. Em baixo de mim. Por ai. Eu me lembro que quando entendi aquela verticalidade repetida, eu, menina de tudo, fiquei assustadíssima. Já agora eu moro em cima de mim mesma, num sobrado, e me imagino em duplicidade, eu dormindo em cima de eu mesma escrevendo, eu no quarto do João em cima de mim mesma vendo TV, era algo assim que eu escrevia.
Foi quando tive um clic. Clic. “Ora bolas, mas já escrevi sobre isso no blog”, lembrei. “Crônica repetida e requentada não pode, Dona Lúcia”, eu me disse, me dando uma bronca.
Resolvi vir aqui pro “frankamente...” e checar se já tinha a crônica, para não fazer repeteco. Lá fui eu procurar, e realmente já falei disso (http://frankamente.blogspot.com.br/…/…/dentro-dos-canos.html).
Mas sem querer descobri que hoje, justamente hoje, dia 27 de agosto, é o aniversário do meu bom e velho blog. Parabéns querido “frankamente...”! Eba, você tem 11 anos de vida, está com saúde e vivo! Muitas felicidades querido blog, pra você e pra frankinha, um beijo grande da Lúcia Carvalho do Facebook.
E olha eu em duplicidade falando de mim mesma como se eu fosse duas. Hahaha.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

pobres formiguinhas, pobre frankinha

Gosto de andar na grama. Dizem que o certo é isso, que andar ou correr na grama é melhor do que no asfalto para amortecer a pisada. Então, nas minhas caminhadas diárias, ando sempre pelas gramas do parque, pensando na vida e distraída pra burro. Acho até que a trilha da grama quem fez fui eu. Mas hoje eu notei que nessas horas eu faço uma coisa horrível, assustadora, assombrosa, e nem percebo. Uma coisa mínima, que quando analisei a fundo, fiquei apavorada comigo mesma.
Gente, eu destruo sem dó todas as trilhas de formigas que cruzam meu caminho. E pior, faço completamente por querer e de propósito. Sou literalmente uma serial killer de formigas, porque a coisa é recorrente. Lá estão elas, todas organizadamente em fila na graminha sulcada, na maior labuta, sem a menor noção do perigo que correm. E eu, giganta, monstra, todo dia, absorta nos meus bons pensamentos, vou lá e choft. Choft mesmo. Piso em cima, e pra destruir até chuto a fila para estragar de vez a carreira delas. E não é só com uma trilha, são to-das. E pior ainda, quando erro a pisada e não consigo aniquilar pelo menos umas dez criaturas, eu volto para finalizar a matança e fazer as coitadas perderem o rumo. E confesso: ah, como é gostoso. Que prazer que sinto.
É bem estranho notar em mim esse meu comportamento tão animal. Bom, eu mato lesma, abelha e vespa, afinal eles entram na minha casa, e pra isso acho que tenho um motivo lógico. Mas as formigas do parque eu mato sem razão nenhuma, provavelmente só para mostrar à elas minha superioridade de humana na grama. Se é que elas entendem o que é um ser superior, não tenho ideia do tamanho do cérebro de uma formiga. Mas talvez eu faça bem à elas. Talvez elas aprendam que existem terríveis predadores na terra e fiquem mais atentas. Talvez a próxima geração das formigas do parque aprenda a não fazer mais trilhas na pistinha. Ou talvez eu aprenda algo com isso. Afinal, eu, como elas, estou numa pistinha de grama, andando em fila com outros e...
Nossa, as coisas que eu escrevo.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

zigzag

Cruzei de novo com o carteiro da minha rua, que é meu amigo, o Roldão. E só hoje me toquei que o cara anda todo dia, o tempo todo, em zigzag. Entrega uma carta no lado ímpar, atravessa a rua, entrega a do lado par, atravessa de novo, vai pro lado ímpar, rua, par, rua, ímpar, rua, par, rua, ímpar. Bem, ele poderia separar todas as cartas do lado ímpar da rua, entregar, e depois voltar para o lado par e entregar em ordem decrescente. Mas talvez não seja ele que coloque as cartas da ordem, e a coisa de entregar na volta bagunce a pilha toda. Fiquei me perguntando se ziguezaguear é uma norma trabalhista obrigatória ou se andar em zigzag é uma escolha pessoal de cada carteiro. Ou se é mais fácil nas ruas sem muito trânsito. Só sei que deve ser uma loucura andar o dia todo em zigzag, rodando no mesmo lugar. Talvez Roldão nem seja o nome dele de verdade, pensando bem, deve ser um apelido para os carteiros que rodam em espiral para entregar cartas. E imagina a alegria que ele deve sentir na hora que acaba o trabalho e ele pode andar em linha reta. 

nhic, nhic, nhic

Ontem, na hora sair, acabei escolhendo a mesma roupa de sempre. Escolhi, pesquisei, avaliei uma, outra, até que novas, até que bacanas, mas que não uso nunca. É que, repara, a gente sempre tem umas roupas que tem um defeitinho que incomoda, a gente implica, não usa e demora pra jogar fora, porque sempre acha que pode dar um jeito. Por exemplo, eu tenho um tênis que é muito confortável. Mas quando coloco e ando, ele faz um barulhinho. É um mini barulhinho, uma coisa mínima, mas o barulhinho tá lá. Nhic. Nhic. Nos dois pés. Nhic. Na rua a gente não percebe, mas em casa sim. Nhic. Sempre que coloco aquele tênis, desisto no quinto degrau da escada, nhic, nhic, nhic, nhic, nhic, não, não vai dar, não vou aguentar ouvir esse gemido o dia todo. Outro exemplo: tenho uma calça ótima, jins, nova, sem furo em tudo quanto é lugar, que me cabe perfeitamente. Sempre me lembro dela, visto, mas uns cinco minutos depois lembro que ela não é legal comigo. A costura da cintura pinica. Não, não vai dar, avalio, dali a duas horas sei que estarei toda ralada. E por ai vão meus “quase” amores pelas roupas que eu abandono, incapaz de ter por elas uma paixão total. Tem sutiã rosa que levanta quando eu coloco os braços pra cima. A camiseta que aperta minha barriga. A calcinha que entra no bumbum. A saia que gira na cintura ao longo do dia. O cinto com os furos errados. O sapato de salto que me faz torcer o pé. A malha de lã que coça no pescoço. Roupa fica pertinho demais, é convivência íntima. É como conviver com gente. Por mais tolerância que a gente tenha, as vezes não dá liga. Gente que pinica, que geme demais, que me faz sentir gorda, que me dá incômodo, que me faz cair, que me confunde, por mais que tente, não consigo conviver. Pessoas, assim como roupas, tem que ser confortáveis.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

as dez palavras mundiais

- Eu falo muito mal inglês, francês, espanhol, mas isso não é problema pra mim – disse minha irmã – Aliás, eu consigo me virar em qualquer país porque tenho um... truque.
- Truque? Como assim, Ângela?
- Não é bem um truque, é um tipo de kit de sobrevivência. Um vocabulário de sobrevivência.
Ela explicou, muito séria.
- Você não precisa, a princípio, falar a língua. Mas tem que saber ao menos dez palavras, pra, digamos, não “morrer” no país. Sabendo essas dez, pode ir para a Inglaterra, pra Alemanha, para França, até mesmo para a China. Aprendendo as “dez palavras”.
- E quais são?
- Vê se eu não tenho razão – ela disse, contando com os dedos - As três primeiras e mais importantes são “quero”, “comer” e “beber”. Isso a gente precisa saber sempre, senão morre de fome e sede. Depois vem o famoso “quanto custa” e o “onde é”, senão babau você comer, beber ou achar de novo seu hotel, pensa, pode morrer congelado na rua. A sexta palavra é “me ajuda”, caso as anteriores não funcionem, afinal você pode falar tudo errado e ter algum problema. Em seguida, claro, “sim” e “não”, essas são essenciais, “sim” para o caso de você ser convidada para uma puta festa com tudo de graça, e “nããão” para o caso de um cara péssimo te convidar para dormir com ele. E as duas últimas são, claro, “por favor” e “obrigada”, porque se a gente não é educado não consegue nada em país nenhum. Sério. Já fiz o teste em muitos lugares e sempre deu certo.
Nossa, concordei na hora com ela e repasso aqui o kit de palavras da sobrevivência em viagens pelo mundo da minha irmã: "quero comer beber quanto custa onde é me ajuda sim não por favor obrigada". Ou, Wǒ xiǎng Chī Hē Yào huā duōshǎo qián Zài nǎlǐ Jiù jiù wǒ Shi de Bù Qǐng Xièxiè, pra quando eu for pra China. Hahaha, brigada Hermana.

o errador automático

Decidi. Eu vou tentar, mexer e fuçar até conseguir tirar essa droga de “corretor automático” do meu celular. Gente, aquilo não é um corretor. Aquilo é um errador. Alguém me explica porque os celulares, com essa tecnologia tão avançada, vem com um lance que faz você escrever errado? A porcaria do corretor me atrapalha, me envergonha e me faz gastar horas para escrever um reles "chego em dez minutos".
Eu acho que escrevo super direitinho e não preciso que ninguém me corrija. Olha só, por exemplo. Um dia me ensinaram, e nunca mais usei “há” e “atrás” na mesma frase, sei que devo escrever “há muitos anos” ou “muitos anos atrás”. Erro sim, volta e meia, os malditos “porque por que porquê por quê”, pois já me explicaram tanto que confundi, deve ser coisa da minha dilexia. Não costumo erras grafia de palavras, e, na dúvida, troco por outra.
Mas quando vou escrever um reles dum torpedo, ou um whatsapp, ou qualquer mensaginha no telefone, eu viro praticamente uma analfabeta. Não é somente o lance das palavras erradas, como já falei aqui. O que me irrita é que o errador me faz escrever a gramática toda errada. Os plurais errados. As conjugações erradas dos verbos. O gênero errado. Tudo fica mal escrito, pareço uma criancinha de pré primário, um estrangeiro que não sabe português ou um torpedo de índio.
Lá vou eu. Alguém sabe como eu tiro isso?

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

nana nenê

Hoje que me toquei que a gente trata os celulares da gente feito uns bebês. Pensa se não é idêntico. Todo dia a gente dá comidinha na bateria deles e depois os colocamos pra dormir no carregadores quentinhos, sempre do nosso lado. A gente anda grudado neles o dia todo, leva pra todo lugar que vai, porque se eles chorarem a gente precisa estar por perto. A gente passeia com os celulares com o maior cuidado, pra eles não riscarem e não baterem em nada. Quando, sem querer, eles caem no chão a gente se apavora, e, se eles se machucam ou ficam doentes, a gente corre e leva no médico. Compramos roupinhas coloridas e acessórios. Enchemos os nossos bebês de brinquedinhos pra nos divertir com eles, toda hora brincamos um pouco até que eles se cansem. As vezes somos pais desleixados, esquecemos nossos nenês em casa sozinhos, nos sentimos super mal. Quantas vezes a gente não volta pra busca-los, e que alívio que dá tê-los novamente ao lado. Compramos cadeirinhas para andar com eles no carro. De quando em quando, ligamos a tela só para ver se ele ainda respira, ou se precisa de alguma coisa. Sussuramos nossos segredos para ele, colocamos dentro deles os melhor de nós. Ensinamos eles a falar, a cantar, a sorrir. E como é triste quando eles são sequestrados ou, pior, se eles morrem. Tou olhando pro meu aqui do lado. Cadê o androidezinho bunitinho da mamãe? Cadê? 

outros muros

Já que estou ainda no meio da pintura do muro lateral daqui de casa, como contei uns dias atrás, tenho reparado muito neles. Hoje, mais uma vez, fui andar no parque. E percebi como estou rodeada deles, os muros, em todos os sentidos. Primeiro que para chegar no parque ando 3 quarteirões cheios de muros verdadeiros e altíssimos, com cercas elétricas, portões com alta velocidade de fechamento – que parecem guilhotinas - e câmeras que acendem uns puta holofotes quando você passa. E, por causa deles, fica impossível saber o que acontece dentro de qualquer uma das casas. Nem se existe gente mesmo lá dentro, o que me intriga.
É que sou uma pessoa que adora fazer amigos, e nesse bairro é quase impossível. Ando pela rua sempre pensando, “será que dentro dessa casa não tem um vizinho legal?”, ou “bem que eu podia conhecer as pessoas atrás desse muro e chamá-las pra jantar”, ou “bem que alguém dai de dentro podia ir no parque comigo”, mas não sei nem como é a cara do meu vizinho de frente. Consigo, no máximo, ficar amiga das moças que varrem a rua, dos guardinhas, do cara que conserta a calçada, do segurança da escola.
Dai no parque, a mesma coisa. Sempre chego e me animo “oba, é hoje que vou fazer amigos”, mas nunca dá muito certo. O povo do parque também se isola, a metade fechado em si com seus iphones de ouvido, a outra metade com seu personal, o resto falando no telefone, ou seja, entre todos e eu sempre tem um tipo de “muro”. Acho uma loucura isso. Passo mais de uma hora na rua e no parque, e não converso com viva alma, quase todo dia.
Ô mundo murado esquisito para uma pessoa tagarela como eu.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

o muro

O muro estava todo descascando, feito cobra descamando. O lugar que a gente mais fica aqui em casa é na copa, e a janela da copa dá justamente para aquele muro, com a caiação velha e despencada. Eu precisava dar um jeito, mas como nunca sobra grana para chamar o pintor, a coisa piorava cada dia mais.
Uma vez alguém comentou comigo que caiar é uma coisa super simples, barata e que rende muito. Aproveitei que meu filho topou ajudar, vi uns tutoriais no Youtube e sai as compras sábado de manhã. Cal, cola, pó xadrex, brochas. Eu e ele, animadíssimos, raspamos a tinta velha, fizemos a meleca – porque a tinta é meio uma gosma, parecida com uma sopa de tomates, digamos – e partimos para a pintura. Naquela super disposição, mandando ver na brocha primeiro na horizontal, depois na vertical. Direita, esquerda, lá em cima, lá em baixo. Avançamos meio muro, paramos para almoçar, eu pronta para reiniciar os trabalhos depois da louça, quando... quando...
Gente, começou a doer tudo. Fazer ginástica todo dia não adianta pra nada, pensei, parecia que tinha passado um caminhão em cima de mim. Ou melhor, parecia que o meu muro tinha caído em cima de mim. Hahaha. O esforço que na minha animação passou batido, aquela coisa de mandar ver o pincelzão pesado de cal de cima pra baixo acabou comigo. Nossa, que dor, que desastre corporal. Com muito esforço, depois do almoço e sem lavar porcaria de louça nenhuma, consegui chegar até a cama, onde despenquei, moída e arrebentada. Socorro, dolorida até hoje. Pior que ainda falta meio muro, sei que preciso acabar, mas talvez, depois do muro, quem despenque de vez sou eu.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

hahaha

 Já percebeu que a gente ri diferente no Whatsapp? – um amigo comentou comigo – Eu e você?
- Como assim – estranhei – A gente ri do quê?
- Não interessa “do que” – ele explicou – Estou falando “de como” a gente ri na hora que escreve. Você sempre ri “hahaha”, e eu sempre rio “rsrsrs”.
- Ah, é verdade... – concordei – Há tempos que eu optei pelo “Hahaha”, e desde então sempre uso o “Hahaha” tanto nas mensagens como nos textos. Foi uma questão de escolha minha, eu acho.
- Hoje em dia existem muitos tipos de risada – ele seguiu no raciocínio – Além dos nossos risos, tem também o “kkkkk”, que é muito usado. Louco né?
Gente, realmente isso é muito doido. Porque se a gente pensar bem, existiu um dia, há pouco tempo atrás, que todos nós, inconscientemente, escolhemos uma “risada escrita”, que usamos até hoje. Quando apenas escrevíamos cartas, não me recordo de usar nenhum termo parecido – você tinha que explicar muito cuidadosamente o tom do texto, a história, o fato, sei lá, para o leitor achar alguma graça. Já hoje basta começar com um “kkkkk” ou “hahaha” que a pessoa já sabe que você tá rindo ao escrever.
Muito difícil para mim, por exemplo, que uso o “hahaha”, usar o “kkkkk”. Quase impossível, pois além do seu sorridente cérebro nem lembrar do “kkkkk”, nem tem essa risada no cérebro do corretor automático do seu telefone. Aliás, eu, que sou da turma do “hahaha”, também costumo usar umas variantes, como “hehehe”, quando quero dar uma de espertinha, ou “hihihi”, quando estou tirando um certo sarro do que eu mesma falo. Já as pessoas que usam o “rsrsrs” também usam o “risos” quando querem, de um certo modo, mostrar que gostam muuuito da piada alheia. E, ainda nessa linha de raciocínio, penso que a turma do “kkkkk” é bem mais limitada na demonstração do tipo de risada, pois só conseguem – e olhe lá, é raríssimo – variar para “kakakakaka”, o que, no final das contas, quer dizer a mesma coisa usando mais letras.
- Mas isso é só aqui no Brasil, eu acho – esse amigo ainda notou.
- Como assim?
- Eu tenho uma amiga espanhola que ri “jajaja”. Como será a risada na comunicação digital no Japão? Na Alemanha? Na França? Meu Deus!...
Hahaha, gente. Sei lá. Será que o google sabe?

quinta-feira, 30 de julho de 2015

pausa para almoço

Adoro seriados, aliás, nesses tempos de Netflix e Now, quem não adora.
Um dos problemas dos seriados é que cada amigo seu está em um momento da história, e não é sempre que você pode comentar a respeito para não estragar o divertimento alheio. Diferente de novelas, que passam todo dia naquele horário, e que quem assiste pode conversar com qualquer pessoa, que ninguém ainda sabe o fim.
Claro que os meus preferidos são os preferidos de todo mundo, nem preciso contar aqui quais são. Mas o problema maior é quando acaba. Você, espectador e viciado, fica completamente sem chão.
- Meu Deus. Socorro. Acabou Breaking Bad. Meu Santo Antônio. É o último episódio do Hannibal. Que? Como vou viver sem as meninas do Orange is the New Black, sem a Piper. Não, não, só tem mais dois Masters of Sex!
Hahaha. Fala a verdade, para os apaixonados, o fim de uma temporada, ou, pior, o fim do seriado é uma perda irreparável e desesperadora. Sei lá. Dói no fundo da alma. É quase como ser abandonada pelo namorado, como perder um cachorro, como levar um fora, perder o emprego ou levarem teu iPhone. Dá aquele puuuta vazio e, na ansiedade de preencher o buraco, você se desespera para achar outro e quase destrói o controle remoto de tanto apertar o treco.
Foi num desses vácuos que comecei a assistir outros, não tão sensacionais mais interessantes de detetives, crimes, serial killers, policiais, investigadores e advogados. E em quase todos esses tem sempre a tal hora do tribunal. Ah, a hora do tribunal, eterna cena que se repete... Aquela salona toda de madeira, o juiz ou a juíza lá no altar, aqueles caixotinhos onde sentam as testemunhas que sempre tem que falar a verdade e somente a verdade, e os advogados zanzando pra lá e pra cá. Mas notei uma coisa engraçada. Na maioria dos seriados que tem tribunal, a cena começa, tem uma ou duas conversas, e pimba, lá vem o juiz, que bate o martelinho e diz:
- Vamos fazer uma pausa para almoço.
Gente do céu, porque essa gente de tribunal almoça tanto? Em todos os episódios que eu vejo, pimba, martelinho, a tal pausa do almoço. Será que na vida real é assim? Será que todo juiz é guloso? Ou será que todo roteirista sabe que cena de tribunal é chata e acaba logo com aquilo?
Hahaha. Fica a dúvida. E pimba.
- E vamos fazer uma pausa para o almoço enquanto não começa outro seriado para eu me apaixonar.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

descabelada

Eu e duas amigas numa viagem de fim de semana na praia. Resolvemos ir almoçar em um restaurante bacaninha, nos arrumávamos para sair. Praia é aquela coisa, o cabelo da gente sempre fica uma gosma, eu tentando desembaraçar o meu. Uma delas pergunta se quero passar um tal produto.
- Que faz esse produto?
- Esse produto dá uma "desorganizada" legal no cabelo.
- Que?
- Uma desorganizada boa, bonita. Uma "bagunçada", entende?
- Não entendi mesmo, mas vamos lá – estranhei, passando o creme exatamente como ela mandou, embaraçando todos fios.
Me olhei no espelho e levei o maior susto. Nunca estive tão descabelada na vida, mas as duas elogiaram tanto que me convenci que com aquela nova imagem eu ia abafar e conquistar mil caras com a tal "bagunçada" nas minhas madeixas. E lá fui eu almoçar com aquela cabeleira alucinada, me sentindo um dos Jackson Five.
Como as coisas mudam, né? Por exemplo, acho muito louco quando vou comprar uma roupa e ela vem rasgada. Quanto às calças que já vem rasgadas nas pernas (ainda bem que ainda não é moda calça rasgada na bunda), até já comprei umas, pois a coisa mais difícil hoje é comprar calça sem rasgo. Mas elas tem um problema chato na hora de vestir, pois minha perna sempre sai pelo furo e não pelo pé, o que aumenta o rasgo cada vez mais. Nos dias de frio, entra o maior vento gelado.
Outro dia vi um colete super bonito, mas além de ter um monte de furos, estava todo desfiado. Olhei a vendedora.
- Tem outro desse? Esse está com defeito.
- Não senhora – ela me olhou como se eu fosse uma caduca – o colete dessa nova coleção é assim mesmo, todos são assim.
Gente, eu penso que se ao invés de 52 anos eu tivesse 12, o susto que minha querida e falecida mãe levaria se eu aparecesse com o cabelo bagunçado do creme da minha amiga, com a calça esfarrapada e com um colete todo desfiado, podre e furado, feito uma mendiga. E pior, me achando linda.
- Para de brincadeira, menina, vá se trocar e se pentear.
Hahaha.

terça-feira, 28 de julho de 2015

não veio ninguém?

Sempre adorei receber gente aqui em casa, seja para fazer jantar, seja para tomar um vinho, seja para as visitas que quiserem cozinharem aqui. Nesses dias de encontros, como moro num bairro tranquilo, uns anos atrás a frente da minha casa ficava cheia de carros, pois aqui é daqueles lugares inacreditáveis e maravilhosos de São Paulo onde sempre tem-vaga. Mas como tudo na vida muda, outro dia dei um jantar e aconteceu uma coisa muito engraçada.
Chegaram dois amigos, um casal. Abri a porta, eles me cumprimentaram.
- Somos os primeiros a chegar?
- Sim – respondi – E ainda bem, pois já tava morrendo de tédio sozinha aqui. Não vieram de carro?
- Não, de taxi. Sabe como é, a lei seca...
Campainha de novo. Uma amiga.
- Ué, Lúcia, fui a primeira?
- Não, já tem gente aqui. Ué. Não veio de carro?
- Claro que não, Lúcia... os comandos, você sabe...
Um tempo depois chega um amigo.
- Ué, não chegou ninguém ainda?
- Claro que chegaram, estão ai o fulano, a namorada, a sicrana... – olho ao redor – Ué, veio de táxi?
- Não, ônibus. Vou é voltar de táxi, sabe como é, esse negócio de beber e dirigir...
E assim foi, um por um, todo mundo chegando sem carro, vendo aquela rua vaziiiia e achando que o minha festinha tinha micado, até que chegou o último convidado. Abro a porta, ele todo animado de bicicleta, capacete e um vinho na mochila. Olha a rua completamente vazia e me pergunta a mesma coisa de todos os outros, crente que meu jantar era um verdadeiro desastre e que ele ia pagar o maior mico sozinho comigo.
- Ué, não chegou ninguém ainda?
Hahaha.
Vamos aprender, então. Gente, um jantar sem dez carros de convidados na porta hoje é mega chique, não é cilada não. E hoje em dia nem é tão sensacional morar num lugar que sempre tem-vaga.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

a senha louca


Pra facilitar pras visitas, sempre escrevo a senha do wifi aqui de casa na lousa da copa. Sempre foram senhas facinhas, tipo uns números, o endereço, ou meu nome, essas coisas. Eu sempre impliquei com senhas complicadas, dessas com números e letras, com hifens, com maiúsculas e minúsculas. 
Bom, no mês passado, do nada, tudo que tinha a ver com a internet começou a ficar zoado aqui. O computador, lento, não abria página nenhuma, e, quando abria, apareciam propagandas em russo, o telefone também, até a netflix travava. Chamei o técnico, ele veio, examinou e deu o diagnóstico: "o roteador foi hackeado". 
Que?
Bom, como eu já tinha tentado de tudo, me entreguei às instruções do cara, mesmo achando isso muito estranho. Ele arrumou o micro, zerou o roteador, finalizou o serviço e me chamou. Foi quando ele me deu um papel com a minha nova... senha. Gente do céu. Não parece senha. Parece um hieróglifo. Um código de barras para pagamento. Letras e números alternados, underlines, uma coisa assustadora. E mais. Tão comprida que tomava a lousa toda.
- Mas eu não quero isso! – argumentei – quero uma senha facinha, por favor, sou contra senhas imensas!
- Quer ser hackeada de novo? É isso? – ele respondeu, rindo de mim.
Bom, que remédio. Realmente agora – sei lá se por causa da senha louca – tudo funciona, e mesmo com vergonha, adesivei aquele monte de símbolos na parede da cozinha, liberando a lousa para escrever o menu, a lista de compras, telefones, sei lá.
Outro dia vieram amigos aqui jantar, e uma amiga minha estranhou.
- Lúcia, o wifi não funciona?
- Funciona, é que mudou a senha.
- Eu já tentei duas vezes colocar a senha – ela me disse apontando a lousa – mas essa senha “ketchup suco guardanapo” não está entrando.
Hahaha.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

os barulhinhos da festa de apoio

Sala de espera do médico do convênio. Pra variar, lotadaça, pois sempre tem um monte de gente em "estado de encaixe”, o que demora, pois ele só atende os encaixes depois que atende todo mundo que marcou na hora certa, que também não é atendido exatamente na hora certa. Hahaha. Eu aprendi e agora sempre sou precavida, marco meses antes e coloco mil alarmes no celular pra não esquecer.
Esse médico é engraçado. Nessa última consulta, quando entrei na sala ele me pergunta:
- Como que tá lá fora? Bombando?
- Saindo pelo ladrão, doutor.
- Se festa que bomba é festa boa, sala de espera cheia deve ser bom também.
Pior é que é mesmo. Porque a sala de espera é pequena, a secretária tagarela e engraçada, a tv meio zoada, só metade da sala assiste, e não resta muito a não ser... conversar. E como todo mundo está pertinho, sei lá, parece que se você não entrar na conversa geral vai ser até deselegante, entende? Seria realmente como estar numa festa e ficar num canto, reclamando da vida. Ora, se estamos ali todos na mesma situação, exatamente a de espera, de que adianta reclamar? É um tal de contar o problema, dividir os tratamentos, comparar dosagens. E ser solidário. Quando chega minha vez de entrar, eu sempre falo para todos:
- Gente, vou tentar ir super rápido. Juro.
Nesse dia, no meio do nosso grupo de apoio à espera do médico do convênio (GAEMC), notei que todos nós, sem exceção, tínhamos o celular na mão. Muitos para avisar “ixi vou demorar mais meia hora”, outros lendo uatis, outros olhando o face, outros reclamando pelo celular para pessoas de fora do nosso grupo, já que ali, reclamar não pega bem. E a gente sabe, hoje em dia cada um tem seus próprios barulhinhos de celular, aqueles miados, apitos, campainhas, pips, fiufius, plocts, plimps, trililins de mensagens e notificações, incluindo o que eu acho mais louco: um que fala um tipo de “buowulk!”, bem curtinho. Fora, claro, as ligações, que ali precisam ser totalmente públicas e que geram mais assuntos.
- Ah, era minha esposa, ela quer que eu passe no supermercado quando sair daqui...
- Minha mãe é assim – fala a outra – está idosa, me liga umas dez vezes por dia...
Turururu, boing, pip, trririmmm, buowulk. Assim, nossas conversas ali na GAEMC sempre tem essa estranha música, que sabemos que atualmente estão em todo lugar, nos ônibus, em reuniões, encontros, fila de banco. Os sons de fundo da nossa modernidade, que ali, naquele mini espaço, são tantos e amplificados a tal ponto, que fazem realmente a música da festa bombada da sala de espera do doutor. Hahaha.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

bolsa de estudo

Fui com a minha irmã no shopping. Ela ia viajar, precisava comprar biquíni, shorts, sei lá o que, e uma... bolsa. Resolvemos tudo, naquele entra e sai de loja e provador que é uma provação, e, já mega cansadas, chegamos na loja de bolsas. Ela olhou aqui, ali. 
- Hum, gosto daquela – apontou uma, depois outra – aquela também é super bonita.
- Ângela, não é assim que se escolhe “bolsa” – lá fui eu me meter a dar opinião – bolsa é uma coisa que fica grudada na gente o dia todo. Bolsa só é menos que tatuagem, que dorme com a gente. 
- E daí?
- Daí que bolsa tem que ser confortável, porque é quase ‘parte’ do corpo. Tem que, primeiro, se amoldar às nossas curvas. Se aconchegar na gente. Depois, você tem que pensar que bolsa a gente abre e fecha o dia todo. Tira celular, guarda celular, tira pente, carteira, cartão, coloca de volta. Então bolsa precisa ser fácil de usar. 
- Puxa. Tem razão, Lú.
Fui empolgando. Nem eu nunca tinha pensado nisso e já estava ali me achando pós graduada em bolsismo.
- Depois a gente precisa ver se cabe tudo, e se vai ficar tudo minimamente organizado. Olha essa bolsa ai – apontei pra uma que ela tinha na mão – nesse ziperzinho ai da frente acho que nem cabe seu celular. 
- Vou experimentar – ela concluiu, tentando enfiar o celular no vão, inutilmente – nossa, péssima, não cabe mesmo...
- E mais duas coisas: bolsa não pode ser fácil de roubar, como aconteceu comigo quando levaram meu iPhone (snif), e nem muito pesada, que senão você sempre andará ligeiramente torta.
A minha irmã sacou os recados. E emendou.
- E tem que ter alça grande para poder, se quiser, levar a tiracolo – ela concluiu – para ter duas mãos livres.
Daí foi uma loucura. Entramos no clima total. Ela e eu pegamos literalmente todas as bolsas da loja pra experimentar. Colocávamos celular, carteira, óculos, pente. Fingíamos que estávamos na rua, no carro, no metrô, no caixa do super. Depois passamos a nos assaltar, para ver se era fácil. Hahaha.
Ângela achou “a” bolsa. A perfeita. E melhor, de couro, e vermelha, como ela queria. 
- Ângela, estou pirando aqui. Odeio shopping e meus olhos tão esbugalhados.
- Eu também, vamos fugir?
Saímos correndo, livres daquele pesadelo. Entramos no carro, quando ela remexe na bolsa (a velha).
- Lú. Cadê minha chave?
- Chave?
- Chave do carro. Puta, cadê?
Nada da chave. Ela naquele esforço na bolsa, a sacolaiada caindo.
- Perdi! Vamos na loja de biquíni! Deve ter caído na farmácia!
Desespero. Fomos em tudo quanto é lugar. Nada. Só faltava a fatídica loja de bolsas.
- Ângela. Será que você não enfiou em alguma bolsa daquela loja?
- Não é possível- ela disse – será que eu fiz uma maluquice dessas?
Bem, entramos na loja de bolsas, remexendo em todas, abrindo, verificando cada compartimento, diante das vendedoras pasmas. E, hahaha, a chave do carro dela estava sim numa bolsa. Pior, na vitrine.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

condicionada

Ando com um problema com shampoos. Não é com os produtos, pois tem uns cada vez mais legais. É que, gente, nas últimas vezes que comprei shampoo, não comprei shampoo, e sim condicionador. Parece piada o que ocorreu nesse último mês. Bom, da primeira vez escolhi um tentando entender o rótulo – nossa, como a humanidade atualmente tem tipos de cabelos esquisitos – e, principalmente avaliar se eu queria um produto com jojoba, leite, chocolate, ovo, vitamina, erva, queratina, perolado, com sal, sem sal. Lavar o cabelo hoje em dia é tipo fazer uma dieta de comida, você tem que saber qual a restrição alimentar dos seus... fios. Hahaha.
Escolhi um, pareceu razoável. Na hora do banho, sem óculos, claro, notei, pela gosma na cabeça que aquilo não fazia espuma alguma. Coloquei na prateleira, ao lado do condicionador que eu já tinha. No dia seguinte fui comprar outro, lembrando que o shampoo é o que fica em pé e o condicionador é o de ponta cabeça. Mas incrível, errei de novo. No design da marca que comprei, o condicionador e o shampoos eram em pé. Inacreditável, pensei no banho, já dentro do chuveiro. Coloquei o terceiro condicionador na prateleirinha, me enrolei numa toalha, fui até o banheiro da minha filha e peguei o shampoo dela.
Entrei no banho, coloquei o negócio na cabeça... e era condicionador de novo. Que absurdo, pensei, olhando aqueles quatro, repito, quatro condicionadores quase despencando e nenhum shampoo. Acabei o banho, fui a farmácia e pedi ajuda ao farmacêutico. Melhor assumir que cheguei num ponto que comprar um shampoo está além dos meus conhecimentos.

eu ainda vou ter um de você...

Uma vez, quando meus filhos eram pequenos mas nem tanto, eu tinha que largar o trabalho para buscar um aqui, levar outro ali, fazer rodízio com um monte de mães, pedir favor para outra, era uma confusão infernal. Na época resolvi alguém pra me ajudar. Arrumei um cara meio período, conhecido da minha empregada e que não era caríssimo. Ele contou para os meninos que tinha o apelido de “Urso” pois um dia tinha carregado uma geladeira sozinho. 
Bom. O seu Urso era um senhor simples, já avô, boa chapa e meio caipira. Era um pouco preguiçoso também, foi um custo que ele varresse o quintal e a calçada, além de dirigir e lavar o carro. Quando acabava, ficava lá folgadão na área de serviços lendo jornal e ouvindo rádio, o que me irritava um pouco.
Depois de um mês, ouvi um comentário de um dos filhos.
- Mãe. O seu Urso é meio lelé.
- Porque?
- Mãe, ele fala baixinho com... os carros. Repara quando ele te levar pra algum lugar.
- Fala como, menino? Não entendi.
- É assim. Ele para no farol. Vamos supor que na frente pare um Land Rover, ou qualquer outro super carro. Chapa, sei lá, ZCJ 3385. Dai ele fica olhando, olhando e sussurra: “Landrover ze ce jota três três oito cinco...”, “Landrover ze ce jota três três oito cinco...”.
- Ah, vá, gente. Mentira.
- É nada, mãe! E pior, ele sempre fala uma frase pra finalizar.
- Qual?
- “Landrover ze ce jota três três oito cinco, ah, eu ainda vou ter um de você...”.
Pior é que era verdade. Como ele também me levava aqui e ali, ouvi muitas vezes o seu Urso sussurrar: “Pajero eme ene ce um dois quatro nove, ah, eu ainda vou ter um de você...”, como se fosse um mantra pra dar sorte.
Bom, não deu certo ter esse motorista, foram só uns meses. Não por causa dos sussurros, e sim porque era muito mais complicado tê-lo do que não tê-lo, além de caro.
Mas desde então, sempre que paro num farol, às vezes me lembro do seu Urso e fico repetindo quando vejo um putis carrão na minha frente: “bmw erre esse te quatro um dois um, ah, eu ainda vou ter um de você...”.
Hahaha.

terça-feira, 14 de julho de 2015

corre, pedestre, corre

Notei uma coisa sobre as faixas de pedestres. Não com os motoristas, nem com o fato de que, para eles, uma faixa de pedestres devia ser como um farol piscando. Ora, se ela existe, o motorista deve obrigatoriamente desacelerar e olhar se não vai atropelar ninguém. Pelo que sei, isso é agora norma de trânsito, mas quase nenhum motorista não acostumou ainda a olhar para as linhas brancas no chão. 
Já disse aqui que ando a pé pra burro, e que sou a maluca da mãozinha. Quase sou atropelada todo dia, mas sou valente diante das brecadas, já parei ônibus, van e até caminhão. Já fui também muito xingada, pois tem gente que acha que tamanho de carro é documento.
Volta e meia, andando pelas ruas de São Paulo, tenho ideias para nós, pedestres. Muito se fala das bicicletas, mas e a gente? Por exemplo. Acho que devia existir uma campanha para pedestres andarem com um lenço amarelo ou vermelho bem comprido, ou coisa que o valha, pois as vezes o braço da gente é muito curto para ser visto nas ruas com muitas pistas. Inventei também, mentalmente, a ideia de uma faixa de pedestres móvel, tipo um colchonete daqueles de yoga, que você desenrolaria nos locais onde não existe faixa. Ou talvez a obrigatoriedade do uso de apitos (um objeto em total desuso, que teria muitas vendas e abriria um bom nicho de mercado), aliados aos lenços. É. Uma hora vou conversar com meu vereador sobre isso.
Mas quero comentar sobre os pedestres. Uma coisa que noto sempre que estou ou a pé, ou quando dirijo paro numa faixa. Gente, porque é que todos os pedrestes (literalmente to-dos), correm na faixa? Hahaha. Repara. Você para e o pedestre sai correndo em desabalada carreira, como se você estivesse fazendo um puuuuta favor, tipo “nossa, obrigada, que gentileza, deixa eu ir rápido, deixa eu correr, estou te atrapalhando!!!”. Pra que correr? Aqui do lado de casa tem uma escola, e, na hora que os carros param é uma loucura, mãe, pai, motorista, criança, mala de rodinha... todos correndo que nem loucos, como se o mundo fosse acabar! .
É. Pode demorar um pouco para os motoristas aprenderem a ser gentis. Mas a gente que anda a pé, tem também que parar de achar que atravessar a rua sossegadamente é ganhar esmola.