Tem coisas na vida que são muito engraçadas. Mas tem coisas que não tem graça nenhuma. Uma vez uma amiga minha comentou que eu achava graça em coisas completamente sem graça, tanto na vida como nas crônicas. Achei bacana o comentário, mas tem épocas que isso não é fácil. Às vezes, impossível.
Por isso fiquei tanto tempo sem escrever no blog. Tentei diversas vezes, mas aconteceu tanto problema na minha vida que não conseguia achar graça em nada, e blog de crônica sem graça é pra lá de chato. Um uó. Não dava pra escrever e perder leitor. Falaverdade.
Nessa época, fiquei pensando em como reagir, na literatura, à essa tentação de só pensar em coisas sem graça. Afinal, eu gosto, adoro de paixão escrever. Comentei isso com um amigo que escreve, e ele me sugeriu escrever as coisas sem graça, as coisas ruins, as piores ainda, os piores pensamentos, tudo. Segundo ele, pelo menos o que entendi do que ele explicou, a literatura aparece diante de várias forças extremas, seja da alegria, seja do prazer, seja da tristeza ou a até da desgraceira. Eu seria boa nisso, ele me convenceu. Resolvi então seguir os conselhos dele, e parar de fingir que eu era só alegre. Comecei a escrever tudo que eu tinha de péssimo, descrever as coisas que eu realmente não acho a menor graça, digamos. Fiquei quase um mês nisso, nessa tentativa de um romance com toda a força de uma história que não tinha re-al-men-te graça nenhuma. Não consegui continuar. Era muito chato. Eu tava chata. Tem gente que é dada a dramalhão e exagero e faz isso bem, eu posso até um dia conseguir, mas tão perto e tão real para mim foi impossível. Óbvio que ninguém ia ler aquilo.
Acredito que a gente só escreve romance sobre alguma coisa ruim depois que a coisa ruim vira história, não enquanto a coisa ainda nem resolveu. Depois que desisti do romance verdade nua e crua, e tentei mais uma vez voltar ao blog e não consegui, resolvi escrever então um romance normal, básico, sem ter que cutucar as feridas. A trama apareceu na minha frente, era boa, o começo ficou bacana, tinha futuro e além de tudo, alguma graça. Alguminha, apesar do meu estado baixo astral da época. Me animei, fui até o fim. Uma história pra lá de maluca, divertida e estranha, mas fechadinha. Consegui acabar, imprimi, levei na minha mãe. Ela prometeu ler naquele dia mesmo. Me ligou no dia seguinte. Primeiro falou, animada. "Filha, li, gostei muito, prende mesmo, ótima história, boa trama, super bem escrita, olha que eu leio romance pra burro, mas filha...", e ela parou, fez uma pausa, mudou o tom para um um pouco mais "bravo" e concluiu, "... mas pelo amor de Deus, filha, essa personagem principal, essa moça, mas que personagem boooooooba, filha (juro, ela falou o "boba" com esses sete "ós")... nossa, essa moça ai, a protagonista, ela é muito tonta, muito bocó, só entra em fria, não toma atitude, Deus me livre, filha, que é isso? Eu nunca ensinei minhas filhas a serem assim".
E ponto final.
Primeiro que me assustei dela concluir que a protagonista era eu. Quando a gente escreve com alma e empolgação, não percebe no que se espelha. Óbvio que era eu, céus. Mas. Mas então eu era a personagem loser do meu próprio livro? Piorou. E não adiantava mais reescrever esse romance, pois a trama só tinha sentido porque a moça era loser. Então, estou aqui com o romance de uma loser engavetado, fazer o que?
Começar outro. Dai que tudo ficou mais sem graça. Porque me pareceu que eu tinha que escrever sobre alguém poderoso, forte, como minha mãe ensinou. Travei de novo. Chega de romance no momento, pensei.
Achei outro dia um caderno de 2004, quando comecei o "frankamente...". Um caderno cheinho de frases, de idéias, de coisas com graça, e olha, era milhares. Mais de cinco idéias por dia para escrever ao menos uma crônica legal. Gostei de como eu era naquela época. Eu não era nada loser.
Recolher idéias é um modo de começar. Para mim é como fazer aquele esforço para recomeçar a fazer um esporte, ou parar de fumar, emagrecer ou resolver mudar de cidade. Peguei um caderninho semana passada, coloquei na bolsa e tou aqui, novamente no "frankamente...", fazendo um puuuuuuta (com sete "us") esforço para treinar de novo esse esporte. E quem sabe um dia, ganhar uma medalha de "campeã mundial das pessoas que acham graça nas coisas que não tem graça nenhuma".
Esse post é para explicar essas coisas sem graça que eu disse, para dizer que totentano, toino, e, ah, de dizer que essa Franka, minha amiga imaginária, daqui pra diante não mente mais.