quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

A solidão do closet


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A solidão do closet
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A vida de uma amiga minha mudou por causa de um espelho. Ela nunca tinha reparado em certas gordurinhas, celulitinhas e estriazinhas até o dia que foi para um hotel e deu de cara com um maravilhoso espelho gigante super bem iluminado, que denunciou tudo. Disse que teve a maior raiva do espelho, pois lá ela viu gordurinhas imperceptíveis se transformarem em gorduronas imensas, verdadeiras banhas. Antes desse espelho, ela vivia feliz com sua ignorância sobre tais questões adiposas, mas depois passou a sofrer, triste. Aquele espelho estragou as férias dela. Tivesse ela ficado em casa, com seu espelho pequeno e mal iluminado e estaria muito mais feliz.
Tem toda razão, a minha amiga. Eu, por exemplo, só conheci o meu perfil quando tinha 30 anos. A experiência foi traumática. Até então, todos meus espelhos eram planos e só permitiam que eu me visse de frente, até o dia que fui morar num apartamento com aqueles espelhos de banheiro que dobram as laterais. Pronto, bastou. Quando me olhei de frente e de lado ao mesmo tempo fiquei aparvalhada: nunca tinha reparado que eu tinha um narigão daqueles, e ainda por cima meio adunco. Que horror! Passei dias me olhando em tudo quanto é espelho lateral, impressionada. Que nariz! Tive pena do Zé, que casou comigo sabendo daquilo.
Passei maus bocados para superar o trauma daquele espelho.
Acho que no começo do século, quando não existiam espelhos tão nítidos, tanta luz nos closets e nem tantos banheiros, as mulheres eram menos complexadas, pois não imaginavam que tinham as tais "gordurinhas a mais". Os quartos de vestir tinham “penteadeiras”, onde as mulheres se arrumavam sentadas, e nos espelhos via-se somente o rosto. Celulite? Acho que elas nem sabiam o que era isso. Com certeza a indústria da cosmética está diretamente ligada a indústria da iluminação e da reflexão: mais luz, mais celulite e, conseqüentemente, mais cremes e mais plásticas.
E haja complexo.
O pior é que temos que superar isso sozinhas, na maior solidão, trancadas em nossos banheiros particulares, nos nossos closets particulares, nos nossos quartos suítes. Esse é outro grande problema que afeta as mulheres da nossa época e que está diretamente ligado ao problema dos espelhos gigantes super iluminados: a solidão do closet.
Tudo começou quando as famílias passaram a viver em pequenos núcleos familiares: pai, mãe e filhos. Na geração das nossas bisavós não era assim, as pessoas moravam todas juntas, mãe, pai, filhos, netos, irmãos, tios, sobrinhos. As mulheres de uma família conviviam diariamente com muitas mulheres, de todas as idades. Existia um companheirismo no ato de arrumar-se que hoje não há mais.
Acho que as mulheres daquela época tinham muito menos traumas, pois tinham com quem dividir. Quando precisavam se arrumar para uma festa, todas ajudavam, davam apoio, penteavam, cuidavam. Não precisávamos de espelho. As outras mulheres, irmãs, primas e cunhadas nos diziam se estávamos bem ou não.
Hoje não. Hoje suspiramos sozinhas nesses nossos enormes closets, cheios de espelhos para compensar a nossa falta de companhia. Temos que olhar para nós mesmas infinitamente e ver nossa pele envelhecer, engordar, amolecer.
Não sei. Mas acho que o que incomoda não é ver as bolinhas de celulite, não.
É ver a nossa solidão.

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